Aos poucos, moradores vão deixando o Pinheiro

Além do medo, proprietários se preocupam com segurança de imóveis; Conseg garante recursos para rondas ostensivas no bairro

Por | Edição do dia 3 de fevereiro de 2019
Categoria: Cotidiano, Jornal o Dia | Tags: ,,


Com o aumento da quantidade de imóveis desabitados no Pinheiro, cresce a preocupação dos proprietários em relação à segurança dessas residências, casas comerciais e apartamentos. Há o medo de invasões, roubos e ações de vandalismo aos imóveis que foram desocupados nos últimos dias no bairro. No Pinheiro, independentemente de estarem na área vermelha ou não, todos os dias moradores e comerciantes saem do bairro em busca de um lugar seguro para ficar e para trabalhar.

Na última quinta-feira, o Conselho Estadual de Segurança Pública (Conseg) se reuniu para tratar da segurança desses imóveis e ainda da questão que envolve o “aluguel social”. Alguns proprietários de imóveis desocupados por determinação da Defesa Civil do Município não tinham a escritura do bem, o que tecnicamente, impede o recebimento do benefício do aluguel social. “Articulamos uma reunião com a Corregedoria do Tribunal de Justiça de Alagoas acerca do aluguel destes moradores que muitos não têm a escritura do imóvel.

Para o Governo Federal, somente a posse não é suficiente para a transferência do valor do aluguel”, disse o presidente do Conseg, Antônio Carlos Gouveia. Ele disse ainda que o Conseg administra e fiscaliza o fundo de segurança, que libera recursos para a aquisição de equipamentos e bens necessários ao funcionamento e operacionalidade da estrutura de segurança pública. “Vamos nos informar do que os organismos de segurança pública e o Corpo de Bombeiros precisam para ajudar à população do Pinheiro bem como manter os imóveis desabitados em segurança, no sentido de evitar invasões, roubos ou depredações. O Conseg apresentou um plano de atuação para as rondas justamente nestes imóveis desocupados”, disse Antônio Gouveia.

Semana é marcada por “desfile” de caminhões

Móveis da dona Silvinha são colocados no caminhão para uma mudança de endereço; moradores estão com medo. Foto: Jessyka Soares

Móveis da dona Silvinha são colocados no caminhão para uma mudança de endereço; moradores estão com medo. Foto: Jessyka Soares

Na semana que passou, dezenas de caminhões de mudanças pararam nas portas de casas e prédios para providenciar “mudança de endereço” de muita gente. Essas pessoas se confessam assustadas e, mais ainda, incrédulas nas informações prestadas pelos órgãos públicos. Enquanto não existe uma segurança muita gente prefere não arriscar e sai do bairro. Isso está afetando o comércio – que é grande no bairro – bem como estabelecimentos de serviços como clínicas, academias e escolas.

Os empresários formaram um grupo de ação para cobrar das autoridades, neste momento, orientações de como devem agir diante da situação de caos que se instalou no bairro com o fenômeno do afundamento de partes do bairro, o que acentuou após o tremor de magnitude 2.5 na escala Richter, no dia 3 de março de 2018. Aos poucos, o Pinheiro está ficando menos movimentado por conta dos riscos anunciados pela imprensa após ouvir os órgãos responsáveis pelo contato direto com os moradores. “Estou indo embora em busca de proteção. Não tenho garantia nenhuma aqui onde moro. Mesmo não estando na área vermelha não posso prescindir da segurança da minha família”, disse o morador José Ailton do Nascimento, que abandonou seu apartamento na última quinta-feira (dia 31).

Comunidade lamenta o “êxodo” e precisa se adaptar a novos bairros

“Está todo mundo triste. Ainda não me adaptei.” As palavras são de Yêda Márcia Silva Araújo, de 55 anos, bancária. Ela é mais uma vítima dos “abalos” no bairro do Pinheiro. A energia liberada pelo sismo de 3 de março de 2018 no bairro tem desdobramentos e força que não podem ser medidos por nenhum equipamento. Não mede a tristeza de moradores que agora precisam se adaptar a uma nova realidade: separação do bairro e de familiares. “Minha mãe agora mora na Pitanguinha. Há quarenta anos no Pinheiro ela jamais fazia planos de sair do bairro. Era sua residência para o resta da vida”, desabafa. Ela explica que seu filho foi morar no São Jorge. Em um tom de preocupação ela revela que seu irmão se nega a sair do bairro. “Ele não acredita em catástrofe”.

Yêda foi morar no Pinheiro há apenas um ano e meio. O local só trazia vantagens para a bancária. Bem localizado e próximo do Centro, onde trabalha. Tinha ainda como atrativo principal, segundo ela, estar perto da família. “Resolvemos todos morar próximo. A qualquer hora poderia ir para casa de minha mãe, de meu filho, de meu irmão. Estava sempre perto de minha família”, destaca. Agora, morando no bairro Antares, além de não ter mais a facilidade do encontro familiar, ela tem que arcar com novas despesas. Ela mora na área laranja, que indica alerta. Moradores que estão nesta área – como é o caso da bancária – não tem direito ao aluguel social. “Tenho que continuar pagando o financiamento do imóvel no Pinheiro, e arcar com o aluguel. As despesas agora são maiores para morar, comer e se locomover”, lamenta. As dificuldades enfrentadas pela bancária e seus familiares representam fielmente a situação de inúmeras outras famílias da região. Sem exagero, pode-se afirmar que há um início de êxodo na região. Quem andar pelo Pinheiro pode comprovar o esvaziamento do bairro.

Dona de casa terá Jatiúca como novo endereço

Na última sexta, dia 1º, Jorge (ele só quis se identificar pelo prenome), “coordenava”, junto com a esposa, Síria Lanyeli Silva, 32, a mudança da sogra. Dona Silvinha Jacinto da Silva, 47, já se programava para comprar o apartamento em que morava de aluguel, no Edifício Albarelo, na Rua Augusto Calheiros. Agora, dona Silvinha vai morar na Jatiúca. “Ela jamais iria sair. Gosta do bairro que é perto de tudo, longe da maresia”, destaca Jorge considerando este fato uma vantagem. “Tem gente que é dono e está mudando. Não havia interesse dessas pessoas em mudar”, emenda Síria explicando que a mãe morava sozinha e que até não tinha despertado para a gravidade do problema. “A ficha não tinha caído. Isso é um transtorno que pegou todo mundo despreparado”.

O ápice do drama que os moradores do Pinheiro estão vivendo pode ser resumido em um episódio relatado por Jorge. Segundo ele, ao precisar dos serviços de uma empresa para lavar um de seus tapetes, dona Silvinha obteve como resposta inesperada: “no Pinheiro eu não vou”.

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