Alagoana relata experiência de viver na Itália com a pandemia do coronavírus

Holanda, Itália e Portugal vem enfrentando sérios problemas após a implementação da quarentena

Por | Edição do dia 22 de março de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,,,,,


Assim que os casos do novo coronavírus foram se espalhando por todos os continentes, a população começou a tomar consciência do verdadeiro perigo que era continuar em meio a multidão. No Brasil, a espécie de gripe continua fazendo muitas vítimas e vem causando preocupação com os seus 904 casos confirmados (dado registrado pelo Ministério da Saúde até a última sexta-feira, 21). Mas como é enfrentar uma epidemia estando em outro país e que está em situação mais crítica do que consta em cenário nacional ? Alagoanos que moram na Europa relatam a difícil convivência com o medo e como a situação de quarentena está sendo para eles do outro lado do oceano.

A Itália registrou o maior número de infectados – com 53.578 casos e 4.825 mortos, até este sábado, 21– superando até os surtos na China. É no olho desse furacão epidêmico que a alagoana Edlene Dantas e sua pequena família, de duas filhas e o marido, que é italiano, vivem. Com o surto sendo controlado apenas durante a quarentena, ela relata a dificuldade de se adaptar à nova rotina.

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Edlene Dantas e sua família, na Itália. Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo assim, com um pouco de medo e esperando o fim da pandemia, a dona de casa tenta manter as esperanças e segue o lema nacional italiano: Tutto Andrà Bene, em tradução livre para o português seria, “tudo vai ficar bem”. A família de Edlene está seguindo rigorosamente as regras do governo e já somam várias semanas de isolamento domiciliar.

“O meu marido é o único que sai de casa para trabalhar porque a empresa respeita às normas de segurança e prevenção contra  o coronavírus. Eu passo às manhãs ajudando as minhas filhas com as atividades escolares enviadas  pela internet, à tarde procuramos desenvolver atividades lúdicas e esportivas no jardim de casa, para ajudar a descarregar a tensão e sempre lembrando a importância de lavar com frequência as mãos e as demais medidas. No final do dia, com o retorno do meu marido, após uma cuidadosa higienização, nos atualizamos com os novos dados sobre o vírus e nos preparamos para enfrentar o dia seguinte”, diz a alagoana.

Adlene mora há 19 anos na região de Veneto, nordeste do país – terceira localidade mais atingida pelo vírus. Ela e a família já estão isoladas há quatro semanas e até o momento a pior situação é viver socialmente “bloqueado”, pois quase toda a Itália não funciona mais nada. Escolas, lojas, locais públicos, tudo fora de alcance e sendo apenas a conexão on-line o único jeito de acalmar os parentes brasileiros.

E com todo esse caos, pensar em voltar para seu país de origem poderia ser uma saída mais fácil, no entanto – com a situação gerando empecilhos e a falta de permissão para sair do solo europeu – a razão falou mais alto e Adlene resolveu se manter na Itália.

“Dois motivos me fizeram mudar de ideia: o primeiro é que eu poderia ser uma paciente assintomática  e transportar  o vírus para o meu país. E o segundo é que felizmente o sistema de saúde pública daqui funciona. (Apesar de estarmos atravessando neste exato momento uma situação de extrema  emergência, onde muitos hospitais já decretaram estado de calamidade com grande risco de colapso, por estarem com números de pacientes acima da capacidade máxima – fato derivado da rápida  velocidade em que o coronavírus têm de propagar-se, provocando descontrole e desequilíbrio nesse famoso e de certa forma ‘invejável’ sistema de saúde pública -, restamos ainda um exemplo de patriotismo e solidariedade)”, esclareceu

Com o agravamento da pandemia muitos brasileiros espalhados por países infectados pediram o repatriamento ao governo e outros até tentaram retornar as suas cidades natais fazendo apelos nas redes sociais. Atualmente, existe uma boa parcela de brasileiros querendo voltar ao país, mas com os aeroportos fechados e o surto do vírus se tornado cada vez maior está mais difícil sair de um lugar para o outro.

Ainda segundo os relatos da alagoana, no momento em que a epidemia se instalou foi difícil se manter emocionalmente estável, mas a convivência e a união com as filhas e o marido ajudou a ultrapassar todo o medo. Ela também conta que sempre está conectada e atualizada com notícias sobre o covid-19, o que acaba fortalecendo o vínculo brasileiro.

“Foi difícil de acreditar que estava acontecendo tudo isso em tão pouco tempo, a primeira coisa que eu pensei foi na minha família, a que eu construí aqui e naquela que eu deixei no Brasil (minha mãe , meus irmãos…), [pensei] ‘o que seria de todos nós?’. Avisei logo minha mãe, mas ao mesmo tempo não me desesperei. Emocionalmente nos sentimos impotentes diante de um inimigo invisível no qual o único modo de prevenir e combater é o isolamento social. Vivemos no terror, medo e desconfiança de qual será o nosso futuro, daí penso na minha família, nas minhas filhas e me conscientizo de que se eu fizer a minha parte e cada um a sua, juntos podemos vencer essa pandemia e criar um mundo melhor”, fala.
A quarentena na Holanda não foi tão radical

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O estudante alagoano Dener na Holanda. Foto: Arquivo Pessoal

Ainda no continente europeu, já nos chamados Países Baixos, outro alagoano vive isolado em casa e tomando precauções para evitar a contaminação. Dener Cardoso Melo, de 25 anos, está vivendo no país há dois anos enquanto cursa um mestrado de Epidemiologia Psiquiátrica. Como Dener é da área de saúde, ele viu de perto como uma pandemia pode mudar totalmente a concepção das pessoas com relação a doenças contagiosas.

Embora o governo holandês tenha evitado de início “trancar” seus habitantes e fechar espaços públicos, com o avanço do vírus essa ideia foi mudando, principalmente quando, até a última quinta-feira, 20, havia pelo menos 2.460 casos confirmados e 76 mortes no país

O jovem notou que a própria população começou a tomar medidas e foi se resguardando aos poucos. Muito disso sustentou parte do surto viral, o que provavelmente ajudou a frear o novo coronavírus.

“Normalmente, os holandeses já são pessoas que seguem regras e orientações à risca e tenho visto que desde o início a maioria das pessoas têm se mobilizado para evitar o espalhamento do vírus. As autoridades nacionais e locais têm informado a população diariamente sobre os números e medidas preventivas que o país está tomando. Creio que isso ajuda bastante, já que a gente se sente mais confiante sabendo que temos diariamente informações oficiais e o risco de fake news chega a ser mínimo. No momento, todas as pessoas que podem, estão trabalhando de casa, e aquelas que exercem atividades essenciais estão tendo o máximo de cuidado”, relatou o estudante.

De acordo com ele, enfrentar uma epidemia sendo do setor hospitalar é diferente para quem está fora e normalmente a preocupação é menor. Mesmo o holandês sendo um povo cauteloso, o medo da doença cria mais problemas, transformou muito do cotidiano holandês e várias pessoas acreditaram que o país iria entrar em colapso total, mas felizmente a racionalidade virou a melhor precaução.

“O primeiro caso aqui na Holanda foi confirmado há pouco mais de duas semanas e inicialmente se manteve apenas na região sul do país. A partir do momento que o vírus começou a se espalhar e chegar na região que moro (Groninge), comecei a tratar o assunto com mais seriedade. Infelizmente, percebo que a maioria das pessoas aqui na Europa, inclusive eu, achávamos que não se espalharia rapidamente como na China ou Itália. Fica cada vez mais claro que os países europeus poderiam ter tomado medidas preventivas mais cedo tendo em vista o que aconteceu na China. Felizmente, o Brasil ainda pode aprender com a situação da China, da Itália, e outros países europeus e começar a adotar medidas preventivas antes que o vírus esteja espalhado por todo o país”, relatou.

Dener já está na reta final dos estudos e garante que a situação serviu para fortalecer os laços entre amigos e família, sempre que pode tira um tempinho para se comunicar por vídeos chamadas, assiste séries e dessa maneira consegue enxergar um lado bom na quarentena.

 

Portugal por pouco entra em esgotamento de produtos

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A fotógrafa Jessyka Soares ao lado da sua mãe e do seu padrasto. Foto: Arquivo Pessoal

Assim como nas outras regiões europeias, Portugal também foi atingido pelo covid-19. O país registrou cerca de 8 mil casos e seis mortos, até a última sexta-feira, 20, mas, apesar disso, Portugal ainda é o local menos atingido pelo novo coronavírus. Entretanto, a população entrou em pânico e quase acabou com os estoques de muitos produtos, principalmente do álcool em gel e papel higiênico, sendo esse último o que mais faltou nas prateleiras dos supermercados de Lisboa, capital do país.

É em Lisboa que a fotógrafa Jessyka Soares vive com a mãe e o padrasto. A maceioense está morando na Europa a pouco menos de um ano e ficou assustada com a corrida maluca dos portugueses. Ela conta que ao sair de casa para fazer compras notou que muitos produtos de limpeza e higiene pessoal começou a se esgotar e que em um determinado momento chegou a procurar um item em três supermercados diferentes.

Mas quando a notícia oficial da quarentena chegou em solo português, o governo decretou que apenas dois itens do mesmo produto deveria ser a quantidade certa para se comprar, as pessoas ficaram menos paranoicas com essa decisão e a respeitaram.

“Como eu faço parte do grupo de risco, por ser diabética, fiquei com medo de faltar até remédios. Mas me tranquilizei assim que as regras de quarentena foram atualizadas. Aqui na vizinhança, as pessoas tomaram consciência de que não iria adiantar estocar nada e logo não precisei sair procurando os produtos essenciais para a proteção em outros bairros”, disse Jessyka.

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As ruas de Portugal estão vazias por causa da quarentena. Foto: Jessyka Soares

A fotógrafa ressaltou que ficou com medo após a primeira morte acontecer no país e até cogitou voltar para Maceió, mas preferiu enfrentar a situação junto com sua mãe e o padrasto. Já que o recomendável era não sair de casa, Jessyka passou a dedicar seu tempo fazendo aulas de violão e fazendo fotos das ruas desertas.

“É tranquilo ficar em casa, não levo isso como um isolamento, até porque tem meus familiares e a gente passa um bom tempo conversando. Quando completei os primeiros quatro dias de quarentena, decidi me dedicar as aulas online de violão e comecei a achar beleza nas ruas vazias, daí fiz várias fotos da minha varanda. A quarentena não precisa ser uma coisa ruim que causa insegurança, na minha opinião, ela pode servir para que as pessoas se unam mais e saibam que só o coletivo pode acabar com qualquer problema. A gente só precisa saber trabalhar juntos”, finaliza.

 

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