Abordagem da PM em luau demonstra racismo, afirma sociólogo

Por Thiago Luiz - Estagiário | Edição do dia 11 de outubro de 2020
Categoria: Especiais | Tags: ,,


Sociólogo Carlos Martins comenta sobre a polêmica envolvendo um luau que ocorreria no bairro Ponta Verde. Foto: Arquivo Pessoal

Um luau realizado na orla de Ponta Verde no final de semana passado gerou muita polêmica nas redes sociais. Um grupo, formado pelos que se posicionaram contra a realização do evento. O outro, contra o posicionamento e pela forma de abordagem da Polícia Militar, que resultou em correria e tumulto pelas ruas da parte baixa de Maceió.

Militantes da causa negra e de causas sociais se posicionaram contra a forma que foi feita a dispersão dos jovens reunidos na beira da praia. Para eles, a PM só agiu de forma mais firme por estar lidando com pessoas pobres, negras e que, visivelmente, não são moradoras da área ocupada.

Em publicações nas redes sociais, essa teoria foi rechaçada, considerada como “vitimismo”. Mas, de acordo com o sociólogo Carlos Martins, a questão precisa ser estudada de forma mais profunda e tem até explicação histórica para o episódio, que evidencia uma prática racista.

Segundo especialista a “expulsão” desses jovens da orla vai além da preocupação com a pandemia do novo coronavírus. De acordo com ele, existe uma relação de pertencimento ao local em que estava sendo realizado o luau.

“O processo de expulsão dos negros de um determinado lugar é histórico no Brasil. Os negros foram ocupar os arredores das cidades, depois compuseram os quilombos urbanos e depois formaram as conhecidas favelas. Por isso, há o entendimento de que esse sujeito não é legítimo para estar em espaços de privilégio para uma determinada parte da população. Os aeroportos, as universidades, praias, que são em sua maioria ligadas a bairros nobres, são entendidos como pertencentes a uma classe. Então, quando os jovens de periferia se deslocam até esses locais, quem compõe esses espaços reage”, explicou Martins.

Ainda pegando o episódio do evento na orla, o sociólogo critica a ação da Polícia Militar. Para ele, a instituição é o “aparato da burguesia”, que aciona os militares para reprimir a classe pobre. Pelos vídeos e imagens vistas nesse dia e em outras manifestações, Carlos afirmou que em momentos de confronto, mesmo que seja com pessoas desarmadas e em movimentos pacíficos, os policiais esquecem de basear as suas ações na proporcionalidade da força e na legalidade.

E o episódio do luau na Ponta Verde não foi um fato isolado, muito menos a primeira vez em que a PM age de forma truculenta. Carlos Martins explica que a instituição é preparada para não saber gerenciar crise e não diferenciar força de violência, com raras exceções.

“O papel é chegar num conflito, ouvir os dois lados e achar um meio-termo, e não tomar partido por um grupo, aqueles que a instituição acha que deve defender contra aqueles que, em sua percepção, representa o inimigo da sociedade: o sujeito negro, morador da periferia”, finalizou o especialista.

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