A inclassificável habilidade de Hamadtou no tênis de mesa

Egípcio que joga com a raquete na boca e saca lançando a bola com o pé se despede da chave individual mas realiza, no Rio, o sonho que cultivou por décadas

A inclassificável habilidade de Hamadtou no tênis de mesa

Egípcio que joga com a raquete na boca e saca lançando a bola com o pé se despede da chave individual mas realiza, no Rio, o sonho que cultivou por décadas

Por | Edição do dia 10 de setembro de 2016
Categoria: Esportes, Outros Esportes | Tags: ,,,,


Ibrahim vai disputar a chave individual e por equipes (Foto: ITT

Ibrahim vai disputar a chave individual e por equipes (Foto: ITT

Há nada menos que 11 classes no tênis de mesa paralímpico. Cinco para cadeirantes, cinco para “andantes”, e uma para pessoas com deficiências intelectuais. Nenhuma das 11 é precisa o suficiente, no entanto, para encaixar o egípcio Ibrahim Hamadtou, de 43 anos.

“Já falamos com representantes da Federação Internacional, mas ele está sozinho. Não há mais ninguém igual ou semelhante. Por isso ele joga na Classe 6, reservada aos andantes com menos mobilidade. Mas ainda assim é impreciso. Todos os adversários têm braço. Se um dia houver mais jogadores, pode-se pensar numa classe específica”, disse o técnico de Ibrahim, Hossameldin Elshoubry.

O egípcio perdeu os dois braços num acidente de trem aos 10 anos. Numa estação lotada, ele acabou empurrado para o vão entre o trem e a plataforma quando a composição chegava na estação. Experimentou um período de luto, deixou a escola e foi convencido aos poucos, por familiares, amigos e incentivos governamentais, a retomar a vida por meio do esporte. Tentou o futebol num primeiro instante. “Até gostava de praticar, mas as quedas eram sempre perigosas. Sem os braços, a cabeça ficava desprotegida”, explicou o atleta, traduzido pelo treinador.

Um outro técnico convenceu Ibrahim a experimentar o tênis de mesa. Primeiro, ele tentou encaixar a raquete na axila. Sem sucesso, experimentou a raquete na boca. Errava infinitamente mais do que acertava. E não havia parâmetro, ou quem soubesse ensinar uma técnica para posicionar a cabeça e a raquete no ângulo certo para as rebatidas. “Foram três anos de tentativas dele e dos treinadores até que surgiram técnicas e habilidades mais aprimoradas. Hoje ele é um profissional”, recordou o treinador.

O posicionamento da cabeça, contudo, era apenas parte do problema. Um dos fundamentos básicos do tênis de mesa é o saque. É a ferramenta que define o andamento do jogo, o tipo de efeito que você pretende usar para surpreender o adversário e fazer com que a bola volte para o seu lado da mesa, após a recepção, com a altura e o efeito mais propícios para o atleta executar o ataque ou uma jogada estratégica. Como executar o saque sem os braços?

O saque único de Ibrahim em três tempos: pé descalço para agarrar a bolinha, lançar na altura e na direção adequadas e permitir o serviço (Foto: ITTF)

O saque único de Ibrahim em três tempos: pé descalço para agarrar a bolinha, lançar na altura e na direção adequadas e permitir o serviço (Foto: ITTF)

“Foi outro longo aprendizado. Tivemos de convencer os árbitros de que ele jogaria com um dos pés descalços e foram necessárias longas sessões de treino e repetição para ele adquirir a habilidade necessária para agarrar a bola com os dedos do pé, lançar com altitude suficiente e com a direção correta, a ponto de a bola ficar numa posição perfeita para ele executar o movimento com a raquete e a boca”, detalhou Elshoubry, sob risadas do atleta durante a tradução.

Sonho realizado

No Rio de Janeiro, Ibrahim, que chegou aos Jogos com medalhas de prata nas seletivas internas do Egito e do continente africano, disputou duas partidas na fase de grupos. Perdeu para o alemão Thomas Rau para o britânico David Wetherill, ambas por 3 sets a 0, e acabou eliminado da chave individual.

“Eu esperava alcançar os Jogos Paralímpicos desde a primeira vez que comecei essa saga, décadas atrás”, disse Ibrahim. “No grupo os dois adversários são muito qualificados. O inglês foi o quarto em Londres. Um jogador muito forte e que jogou bem. O alemão também é ótimo, foi terceiro no último Mundial. Estou satisfeito com a minha performance”, disse Hamadtou, pai de três filhos e inspiração para muitos atletas, inclusive para uma nova geração egípcia.

“Estamos em busca de medalhas, mas uma das coisas importantes aqui era fazer diferença. Mostrar que não existe o impossível. E ele está feliz porque muitos veem ele e se inspiram. Os brasileiros amam esporte e muitos estão vendo os Jogos. No Egito, já temos dois outros atletas agora, um de dez e outro de 12 anos aprendendo das mesmas técnicas. Talvez outros olhando para ele possam ter a mesma ideia”, comentou Elshoubry.

Ibrahim se preparando para entrar em cena nos Jogos Rio 2016 (Foto: ITTF)

Ibrahim se preparando para entrar em cena nos Jogos Rio 2016 (Foto: ITTF)

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