18ª edição do ‘Bloco do Bôbo’ arrasta multidão para carnaval da rua Sol Nascente, periferia de Maceió

Cortejo teve início às 16h, no sábado (22), com a presença de bandas de frevo e muita alegria

Por Jamerson Soares | Edição do dia 28 de fevereiro de 2020
Categoria: Cultura | Tags: ,,,,


Bloco do Bôbo em seu 18º aniversário. Foto: Jadir Pereira

Bloco do Bôbo em seu 18º aniversário. Foto: Jadir Pereira

Uma experiência democrática, uma comemoração dos 18 anos de cultura popular no famoso Carnaval da rua do Sol Nascente. Um local onde todo o povo, de todas as idades e cores, estava presente. Era festejo de uma multidão da própria comunidade, que se ajudou para fazer a festa acontecer. O Bloco do Bôbo mostrou muita coragem, invocando a essência do Carnaval, da folia e o pé sempre no frevo.

O Bloco do Bôbo animou o sábado (22), dia de Zé Pereira, nos bairros Bom Parto e Vila Brejal, na periferia de Maceió. Às 14h já tinha gente na concentração e as ruas, mesmo com pouca estrutura e poças de lama, estavam tomadas de irmãos e irmãs da alegria. A banda de frevo chegou primeiro para afinar os instrumentos e deixá-los com a sinfonia mais perfeita possível para a grande festa.

A produtora cultural e assessora de comunicação, Keka Rabelo, estava presente do início ao fim do bloco. De acordo com ela, fazer o Carnaval tem a ver com militância no campo da memória: “ O papel fundamental da comunicação é registrar esses bens culturais que sobrevivem ao tempo”, afirmou.

Crianças e adultos brincaram de mela-mela, alguns utilizaram maizena para sujar um ao outro, e outras pessoas apenas riam de muita felicidade. O som dos instrumentos conduzia o povo pelas ruas.

Aberto ao público, o bloco começou às 16h, com a brincadeira do Bôbo, Orquestra Amigos do Frevo, Oz Deuzes do Gueto e Boi Pacato Rei. Considerada uma das periferias de Maceió, Bom Parto e Brejal foram algumas das localidades que receberam o êxodo de comunidades quilombolas do agreste alagoano. E por isso, há uma relação do bloco com a ancestralidade negra.

O fotógrafo, professor e artista, Jadir Pereira, também estava na folia junto à comunidade e capturou momentos essenciais do Carnaval tradicional daquela região. Segundo ele, o Carnaval do Bom Parto é um Carnaval que é realmente do povo, é um Carnaval que demonstra toda a força que o povo tem – uma força democrática.

“O Carnaval é essa fusão da cultura do campo, onde festejam a colheita, ao mesmo tempo que também transitam na cidade. A grande festa é pra celebrar o ano, a alegria do riso. O riso tem o poder de afastar os males, o que tem de pior no Brasil atualmente. Tentei capturar o riso, a alegria do povo. O riso tem o poder de derrubar governos autoritários e quanto mais autoritário é o governo, maior é a gargalhada do povo”, declarou Jadir.

Para ele, a arte é a arte do povo, é a própria população que produz cultura, e o Bom Parto é um dos bairros que tem uma população negra, onde tem uma maior concentração de pessoas de baixa renda.

“Mesmo com todos os problemas de infraestrutura, a falta do poder público naquela região, eles ainda continuam produzindo arte, produzindo cultura para a comunidade. Não sou morador do Bom Parto, mas me acolheram. Existe essa generosidade entre aqueles que moram na comunidade. Os moradores são fundamentais para tudo isso acontecer, além de toda a produção também”, completou.

“A partir de agora não sou mais eu”

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O Bloco do Bôbo é realizado todos os anos nos bairros Bom Parto e Vila Brejal, periferia de Maceió. Foto: Jadir Pereira

É com essa frase que o artista Antônio Severino interpreta o Bôbo há anos e é inspiração para toda a comunidade, além de ser ele quem também confecciona a fantasia do personagem. Após a famosa frase, começa a transformação e a brincadeira de Carnaval. A figura do Bôbo é a transfiguração do Carnaval tradicional, representada pelo cidadão que está por trás da máscara, e antes disso há toda uma preparação.

Há uma espécie de transe, outra identidade é vista: o sagrado e o profano interligados. Naquele momento, o artista está conectado a outras naturezas e energias. Existe o êxtase, a euforia, cada qual com a sua alegria, e as pessoas são conectadas a isso.

O produtor cultural e um dos organizadores do evento, Rogério Dyaz, declarou que há um elo entre as pessoas do bloco, que é o momento onde a comunidade trabalha em equipe e que há toda uma cadeia produtiva para a execução.

“Tem o pessoal que faz a roupa, o pessoal que faz a marcenaria, o Boi… Tem também o pessoal que vende bebida, faz as batidas, organiza o carro para levar as coisas. Tem o pessoal que faz o lanche, pois é algo comunitário, colaborativo. É bonito de ver a alegria da comunidade. As crianças também aprendem a fazer as coisas. Tudo isso já ganhou a sua própria forma de existência”, disse Dyaz.

Desde 2002 que o Bloco do Bôbo anima o Bom Parto e a Vila Brejal, fazendo com que a alegria do Carnaval não passe em branco para os foliões que ajudam a organizar e a fazer a festa com o cortejo que segue pelas ruas locais. O bloco tem a realização do Instituto Quintal Cultural, que promove a integração social e cultural no bairro do Bom Parto.

Nesta edição a camisa do bloco é uma referência à bandeira Wiphala, em solidariedade aos povos das florestas, em especial, ao Povo Originário da Cordilheira dos Andes que foi golpeado e é vítima de fundamentalistas religiosos que atacam a cultura indígena e queimaram sua bandeira. O que aconteceu na Bolívia é o mesmo que está se passando no Brasil. Dos Povos das Lagoas ao Povos das Florestas, somos todas e todos Resistência e Luta em Defesa de nossa Cultura Ancestral.

Carnavais de Maceió

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O mascote do Bloco Pinto da Madrugada participou da folia. Foto: Jadir Pereira

 

O Bloco do Bôbo sempre esteve presente na cultura popular das periferias de Maceió, e sempre participou da programação do Carnaval. Ele é bem famoso na região, e todo ano anima muitos foliões. Este ano o mascote do Pinto da Madrugada, um dos blocos principais do Carnaval da capital alagoana, participou da brincadeira do Bôbo.

O coordenador do Pinto também estava no local e, segundo Dyaz, isso é interessante porque mostra a força do Carnaval popular; mostra o diálogo do Carnaval na comunidade com quem faz Carnaval na cidade.

“A gente estabelece uma relação com o Carnaval no futuro; a partir de um contato como esse cria-se laços e conflitos que são narrativas, discursos, classe, cidade.. sem esse contato não tensiona o debate. É importante porque provoca uma discussão do que é o Carnaval”, disse Dyaz.

O coordenador do Pinto da Madrugada fez uma visita ao bloco, o que representou um momento histórico para a comunidade. Rogério Dyaz conta que, da parte do coordenador, houve uma visita em outro tipo de geografia, uma percepção da cidade de um outro modo. “É um encontro histórico e só foi o começo de um grande debate para pensar em um grande projeto para o Carnaval de Maceió”, completou Dyaz.

Com a realização do Instituto Quintal Cultural, contemplado no Edital do Carnaval 2020 da Fundação Municipal de Ação Cultural (Fmac) e Secretaria do Estado da Cultura de Alagoas (Secult), o Bloco do Bôbo tem o apoio cultural do Instituto Arte Mambembe, Sururu da Lama, Pitu e do Vereador Lobão. Assessoria de comunicação: Keka Rabelo.

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Fotos: Jadir Pereira

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