Um dia após homenagem a Lula, reitor reflete sobre “ódio seletivo”

Mariana Lima / 12:43 - 24/08/2017

Cientista social alerta que ódio construído pode voltar contra figuras e grupos que alimentaram tal situação


Reitor cumprimenta Lula na porta do ônibus (Foto: Cacá Santiago)

Reitor cumprimenta Lula na porta do ônibus (Foto: Cacá Santiago)

Há um mês, o reitor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Jairo Campos, usou suas redes sociais para relatar que fora ameaçado de morte através de ligação anônima caso efetivasse uma homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ontem, quarta-feira (23), Lula recebeu seu título de Doutor Honoris Causa por todos os serviços prestados à educação dos grupos mais pobres e vulneráveis em Alagoas, em uma cerimônia que transcorreu sem incidentes – os quais Jairo não acredita que possam, de fato, acontecer.

“Acho que aquela ligação deve ter sido alguém no afã da emoção, esse discurso odioso que está circulando deve ter contaminado alguém, mas eu não acredito que irá acontecer nada contra mim ou ninguém nessa cerimônia, nem hoje nem posteriormente”, afirmou Jairo.

Mas isso não quer dizer que o reitor esteja totalmente despreocupado. “Espero que não, mas estou com os cuidados que requer [a segurança], porque de qualquer sorte eu sofri uma ameaça e não posso fazer de conta que isso não existiu”, completou.

Ainda ontem, o reitor não se furtava a dizer a jornalistas, convidados e ao próprio Lula que aquela homenagem era justificada e não foi um ato individual, mas uma decisão colegiada. O crescimento conquistado pela Universidade Estadual teve, sim, grande contribuição do governo federal de outrora.

Vibração de Jairo Campos e seu vice-reitor, Clébio Araújo (Foto: Cacá Santiago)

Vibração de Jairo Campos e seu vice-reitor, Clébio Araújo (Foto: Cacá Santiago)

“Hoje é um dia muito simbólico para a universidade, não é segredo para ninguém que a Uneal construiu ao longo de todos esses anos desde sua fundação um perfil de militância social, de dialogar com os movimentos organizados dos negros, com os índios. E durante a vigência do governo do PT, a universidade teve experiências muito exitosas de ações e projetos. Houve um casamento entre os meus dois reitorados e a vigência do mandato do PT, com todas as políticas públicas que foram abocanhadas por nós”, defendeu o reitor.

Se as razões eram tão claras, por que, então, a ameaça? E por que veio em forma de ligação para o telefone fixo, aumentando as suspeitas de que o autor não é, ao menos, do estado de Alagoas, não conhece sua realidade e apenas descobriu o telefone da universidade na internet?

Para o cientista social Adalberon Sá Júnior, isso é reflexo de um ódio seletivo cuidadosamente construído. “Mas é um ódio seletivo disseminado contra pessoas específicas, partidos específicos, o que mostra que não é fruto de uma consciência político ou combate à corrupção, mas de uma construção endereçada e definida para um determinado grupo”.

Tal ódio e intolerância não passam de nada além disso, ódio e intolerância contra um grupo (o Partido dos Trabalhadores) e seu maior expoente (Lula), pois se fosse, de fato, uma intolerância à corrupção, a movimentação seria outra.

“Se esse mesmo ódio e intolerância fossem aplicados à figura da corrupção de forma geral, teríamos situações como essas com os políticos locais envolvidos com os mesmos escândalos de corrupção e com mais elementos comprobatórios do que aos que são odiados. Pelo contrário, eles aparecem até como líderes em pesquisas de intenção de voto que são feitas atualmente”, ponderou o cientista social.

“Isso é lamentável, porque expressa a incapacidade, ainda, do brasileiro de uma compreensão mais complexa do problema corrupção e acaba fazendo um filtro muito específico que não é bom, porque, no final das contas, esse filtro acaba deixando de perceber que o contexto da corrupção está bem mais ampliado e amplificado na política como um todo – nos outros partidos e nas outras figuras nacionais – e está enraizado também no dia a dia da própria população”, completou Adalberon.

Um movimento que vem sendo alimentado desde a última campanha presidencial, em vários fronts, sendo o mais virulento as redes sociais, “que se transformaram em uma terra sem lei”, mas que não apresenta nada de espontâneo.

“Tudo isso foi projetado por interesses econômicos que acabaram mobilizando boa parte da mídia e do empresariado nacional que, com interesses econômicos e políticos, movimentaram a sociedade nos últimos anos para um ódio seletivo. Agentes políticos que não perceberam que, alimentando esse ódio, isso também se voltaria contra eles, em menor proporção”.

Desabafo

Lula, seu título e o povo em Arapiraca (Foto: Cacá Santiago)

Lula, seu título e o povo em Arapiraca (Foto: Cacá Santiago)

Enquanto isso, Jairo Campos e, de certa forma, toda equipe da Uneal seguem suas vidas após o grande sucesso em que se converteu a solenidade em Arapiraca. Um marco histórico para a universidade, tanto pelo significado quanto pela própria reflexão coletiva que propôs, como apresenta o reitor.

O DIA: Tem quem afirme que o espaço da universidade foi muito politizado e que esse avanço que a Uneal teve não foi mais que a obrigação do presidente em investir em educação. Como o senhor responde a isso?

JAIRO CAMPOS: É responsabilidade do gestor, mas o campo dos pobres, desde que o país é país vivia acéfalo de tanta coisa, não havia política pública. Quando se ouviu falar em professor formado [em turma] indígena nesse país? Quando quilombola pôde se qualificar e se formar em cursos e programas especialmente pensados para eles? Quando os professores do campo, as lideranças do movimento da terra pensaram em ter formação superior pensada e financiada para eles? Foi agora! É preciso que se reconheça isso.

Acho que o presidente Lula fez o que lhe compete, o que compete ao presidente, agora, indubitavelmente, ele deixou uma compreensão filosófica conceitual de que por trás de todas aquelas diretrizes estava o pobre, o pequeno, pessoas que historicamente ficaram acéfalas das políticas públicas. E nós abocanhamos todas essa políticas para Alagoas porque uma universidade pobre, com dificuldade de recursos e isso deu uma oxigenada nos recursos, gerou emprego e oportunidades para além do serviço prestado, pelo significado para os povos que foram atendidos pelas nossas ações. Mas tudo é política nessa vida, não existe neutralidade.

Lula discursa como novo Doutor Honoris Causa da Uneal (Foto: Cacá Santiago)

Lula discursa como novo Doutor Honoris Causa da Uneal (Foto: Cacá Santiago)

E sua opinião pessoal sobre essa Caravana da Esperança?

Acho que Lula, Aécio, qualquer cidadão brasileiro pode transitar por qualquer lugar desse país, do Oiapoque ao Chuí sem ter problema algum desde que obedeça à ordem e à lei e não tire o direito do outro também de ir e vir, está perfeito, é factível. O presidente Lula é um cidadão como qualquer outro cidadão e pode ir onde quiser, conversar com seus admiradores como quiser, em todos os momentos. Acho que a democracia é isso, essa liberdade de ir e vir, o respeito às diferenças.

Acho que a única coisa que pode ficar de lição para nós disso tudo é que por divergência que a gente tenha de qualquer ordem, dos homens uns contra os outros, ninguém pode ameaçar tirar o direito de ninguém, a vida de ninguém. Acho que as pessoas precisam ter suas opiniões e defendê-las, o debate tem que ser feito até o fim e ninguém deve ser desrespeitado porque defende isso ou aquilo. Se fosse para todo mundo ser igual e pensar do mesmo jeito, a vida não teria sentido. Acho que essa é a beleza da vida.

Foi um desabafo agora?

Também, né? (Risos)

 


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