Sonho de cursar Medicina está virando pesadelo para estudantes da UNIT

Da Redação / 12:15 - 13/10/2016

Desabafo viralizou nas redes sociais ao expor situação de medo constante que vivem os alunos


O desabafo de um estudante de Medicina do Centro Universitário Tiradentes (UNIT) neste feriado viralizou e mostrou que o sonho de mais um curso de Medicina em Maceió está virando um pesadelo psicológico e financeiro para os acadêmicos. Nesta quarta (12), a postagem de José Espíndola Neto no Facebook ganhou uma série de compartilhamentos e apoios ao expor a situação de medo constante que vivem os alunos, incluindo um trecho de reiteração da discente Fernanda Ribeiro.

Medo por perder uma prova e não ter como fazer recuperação, mas uma “aceleração” que custa R$ 3.250,00 por módulo perdido – a cada semestre, são estudados três módulos – fora a mensalidade de R$ 6.500,00. Mesmo que se diga que um estudante universitário de Medicina viva apenas para o curso e não tenha outra obrigação além de estudar, o custo de três mil reais por “recuperação” é classificado como um abuso, segundo o estudante.

Reprodução Facebook

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Espíndola ainda levantou a questão dos métodos de avaliação, que são muito rasos frente à grande carga de conteúdo ministrado no curso e que não contemplam que o aluno, de fato, argumente e apresente o que aprendeu. O que era ruim, na avaliação do acadêmico, ficou pior quando as provas mudaram para questões de marcar X.

Isso poderia ser apenas uma reclamação de um aluno descontente, porém encontrou eco em diversos outros alunos, que ajudaram a publicação a viralizar nestas 24 horas.

Um aluno do 5º período de Medicina, que prefere não ser identificado, pois “a faculdade tem mania de perseguir os alunos”, falou com O Dia Mais e confirmou que todas as reclamações são verdadeiras e que eles tentaram se reunir e argumentar com a coordenação do curso, mas a única resposta que tiveram foi que as medidas e mudanças eram “ordens de instâncias superiores”.

“É um posicionamento ditatorial onde tudo é imposto sem ter o mínimo de diálogo. Tudo que acontece na instituição é feito em cima da hora, sem o mínimo respeito pelos alunos e, na maioria das vezes, é tudo para tirar mais dinheiro dos alunos. Como eles próprios dizem, é uma instituição privada, que visa o lucro!”, relatou o estudante.

A postagem fala sobre uma submissão de decisões com o campus da UNIT em Aracaju, que outros estudantes confirmaram e dizer que se aplica também a decisões em cursos como Direito. Veio de Aracaju a decisão de mudar a forma de avaliação dos estudantes em Maceió, considerada injusta.

“Mas essas provas pouco abrangentes de conteúdo massivo são feita para nos prejudicar. Para aumentar a chance de ficarmos na aceleração, que tem o preço exorbitante de 3250 reais e é a nossa ‘recuperação’. A gente não tem direito a prova final, a recuperação, a nada”, completou o estudante do 5º período.

O Dia Mais entrou em contato com a UNIT, que após uma reunião nesta quinta (13), divulgou o posicionamento da instituição sobre o caso. Leia nota oficial na íntegra:

Em reunião realizada na manhã desta quinta-feira, 13, a Coordenação de Graduação e a Coordenação de Medicina informaram ao Centro Acadêmico e aos alunos do curso de Medicina, presentes na ocasião, que a forma de avaliação da disciplina em questão não sofrerá nenhuma alteração durante este semestre. Ressaltamos também que a instituição preza sempre pela discussão e deliberação da sua metodologia de avaliação pelo colegiado do curso com a participação do seu corpo docente e discente, cuja comunicação é realizada com a necessária antecedência. Portanto, comunicamos que não haverá nenhuma alteração no processo de avaliação da instituição e, no caso específico do curso de Medicina, durante o semestre letivo.

Comunicamos que ainda neste semestre a instituição promoverá um seminário com o objetivo de discutir possíveis alterações na metodologia de avaliação do curso e ajustes no PPC do mesmo. Este seminário será extensivo a toda comunidade acadêmica de Medicina, com data e hora avisados previamente.

O curso de Medicina do Centro Universitário Tiradentes atende às normas de exigência do Ministério da Educação e a todos os preceitos que regem o exercício profissional da Medicina. A nossa preocupação é formar os melhores profissionais para lidar com a vida humana – e isso torna o processo naturalmente rigoroso. Destacamos ainda que a instituição sempre esteve e estará aberta para diálogo com seus alunos.

O projeto pedagógico dos cursos de Medicina do Grupo Tiradentes foi criado com base na metodologia PBL (em português, Aprendizado Baseado em Problemas), desenvolvida na Europa e nos Estados Unidos e utilizada em universidades que são referência para o mundo, como Harvard, por exemplo.

No início de 2016, tivemos uma grande prova da seriedade e da qualidade do nosso trabalho. Mais de 80% dos médicos recém-formados na primeira turma da Unit Sergipe já estavam aprovados em residências médicas pelo país. Eles mal acabavam de colar grau e já garantiam vagas em grandes instituições como Hospital Albert Einstein, Sírio Libanês, entre outras. Um resultado extraordinário.

Em Alagoas, é você quem vai nos ajudar a continuar escrevendo capítulos de sucesso na Medicina.

 

Confira abaixo a íntegra do desabafo dos estudantes:

Reprodução Facebook

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Sobre estudar medicina na UNIT-AL: Estudar em uma instituição de ensino que cobra 6500 reais mensais deveria a tornar uma referência, mas não é bem assim. Não somos ouvidos, somos ignorados e nossa opinião é totalmente inútil. Ainda que diante de inúmeros documentos assinados por praticamente todos os alunos do curso de Medicina, eles se recusam a nos dar ouvidos. Há quase dois anos, vivo a pressão de saber que se, por algum motivo qualquer, ainda que o meu desempenho habitual seja muito bom, eu não for bem em uma prova, terei que desembolsar 3250 reais por isso (para fazer um trabalho, mostrando que o intuito é lucrar). Toda a alegria de passar num vestibular de Medicina é substituída por dúvidas. Quantas vezes ouvi pessoas se questionarem se era isso mesmo que queriam? Viver sobre a pressão de 3250 reais (a cada um mês e meio)… Quantas vezes pensamos em desistir. Será que vale a pena seguir nosso sonho de salvar vidas quando a nossa própria saúde está em risco? Vários alunos desenvolveram transtornos psicológicos diante de tanta pressão. Agora, substituíram o modelo de prova habitual por um que consiste em 3 questões por matéria. Será que é para nós avaliar melhor?? Não acho que seja possível. Ao meu ver, parece que os 6500 reais mensais cobrados não são suficientes. (trecho escrito por Fernanda Ribeiro)

“Não queria tratar tão abertamente, sempre achei que “os panos sujos se lavam em casa”. Para minha tristeza, não temos casa; não somos da família; não fomos ouvidos, fomos ignorados e ridicularizados. Definitivamente, precisamos falar sobre a UNIT AL. E com isso, não pretendo expor ou sacanear a instituição que estudo, mas sim, explicitar para as pessoas em geral o que acontece por trás de todos aqueles banners.

Desde que iniciei a vida acadêmica, aprendi o que era estudar sob pressão a partir do valor de aproximadamente 3300 que me seria cobrado em caso de perder um módulo – sendo 3 por período-, além da exorbitante mensalidade de 6540. Como se já não bastasse, a sistemática de curso sempre foi irrefutavelmente “guiada” pelo que o campus de Aracaju ordenava, sendo insignificante o que os discentes achavam, ou se aquilo era bom ou ruim para a melhoria do curso. Na semana passada, a grande corte decidiu que os estudantes de medicina devem ser avaliados em anatomia, histologia e imaginologia, de forma unificada, por 10 questões de marcar x. Ao se argumentar contra, foram utilizados argumentos pífios e incoerentes sem fundamentação pedagógica. Afinal, são 6 semanas de conteúdo massivo sendo avaliados teoricamente em apenas 10 questões. Se isso é justo? Não. Queremos avaliações mais amplas onde nossos conhecimentos possam ser avaliados de forma coerente e abrangente; não quero ser técnico em marcar x, quero ser médico; quero explicar e fundamentar em autores, e não argumentar a meus pacientes utilizando a Teoria de Resposta ao Item (TRI). Restringir o número de questões em um processo avaliativo não avalia, de forma alguma, o conhecimento de ninguém, principalmente quando se trata de quem vai lidar com a medicina humana. É injusto, e o pior: não somos ouvidos! Queremos melhorias, queremos autonomia, queremos organização, queremos aprender sem pressão financeira, não devemos ser subservientes ao campus de Aracaju. Não somos uma extensão, somos um centro universitário.

(post original de José Espínola Neto)

*Matéria original alterada em 17/10/2016 para clareza no registro dos autores do post de desabafo.


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