Seguro que protege autônomos de LER/DORT segue desconhecido

Mariana Lima / 10:55 - 28/09/2017

Longe dos olhos do grande público, a Diária por Incapacidade Temporária (DIT) ainda cobre afastamento para tratar problemas da voz, visão e coluna


Dor no punho devido ao uso excessivo do computador ou movimentos repetitivos, dor nas costas por postura inadequada, móveis não-ergonômicos no trabalho, professores esgotando a voz em salas de aula, problemas de circulação nas pernas por períodos excessivos em pé. E a solução é, infelizmente, continuar trabalhando, pois as contas de casa não irão se pagar sozinhas. A última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 2013 – o levantamento é quinquenal –, apontou que 2,29% da população brasileira acima de 18 anos, ou 3.568.095 pessoas, declararam ter diagnóstico de LER/DORT registrado por um médico.

Uma soma que chamou atenção da Fundação Jorge Duprat Figueiredo (Fundacentro) de Segurança e Medicina do Trabalho. Ela apontou tanto o grande número de pessoas afetadas pela Lesão por Esforço Repetitivo ou o Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho, quanto a maior ainda subnotificação dos casos. Para efeitos comparativos, naquele mesmo ano, os benefícios concedidos pela Previdência Social para as “afecções musculoesqueléticas ocupacionais”, de acordo com o Fundacentro, foram apenas para 101.814 trabalhadores.

O abismo desse intervalo é explicado por uma questão de até simples entendimento: os benefícios concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) vão para trabalhadores com carteira assinada, enquanto o Brasil conta com uma leva gigantesca de trabalhadores informais e profissionais autônomos.

Um número considerável desses trabalhadores poderia contar com um suporte financeiro que os permitisse afastamento do trabalho para tratamento das doenças, caso houvesse mais informação e menos tabus ao redor da contratação de seguros. Há, na cartela de uma empresa corretora de seguros de atuação nacional, nada mais nada menos que um seguro contra LER, DORT, problemas na voz, visão e hérnias, entre outros males comuns aos profissionais do mundo moderno.

Principais doenças relacionadas à LER/DORT e número de afastamentos anuais no Brasil desde a última PNS (Arte: Thalita Chargel)

Principais doenças relacionadas à LER/DORT e número de afastamentos anuais no Brasil desde a última PNS (Arte: Thalita Chargel)

É a Diária por Incapacidade Temporária (DIT), que proporciona uma indenização em caso de afastamento do trabalho por imprevistos com doenças e acidentes, mantendo a renda do profissional durante seu período de recuperação. É um seguro voltado para a manutenção do padrão de vida do segurado, com valor construído a partir de prêmios mensais calculados de acordo com os ganhos do profissional e a renda que ele queira manter.

“O DIT não é só para uma profissão específica, é um seguro que protege cada grupo de profissionais diante dos riscos inerentes ao seu trabalho. Abrange coisas eventuais, como acidente, invalidez, morte, problemas de saúde temporários – cirurgias, fisioterapia com necessidade de afastamento, problemas de coluna – que venham impossibilitar você de continuar com a sua vida normal. Para cada evento, pode chegar a um ano de cobertura, ou 365 diárias”, explica Luciana Lima, corretora há três anos, que atua como consultora na área de seguros, representando a Mongeral Aegon Seguros e Previdência.

Fazendo uma extrapolação para fins ilustrativos, um professor pode segurar a sua voz, um advogado pode garantir-se por problemas na coluna, um dentista ou cirurgião protege suas mãos e ombros, por exemplo. Não é bem como o famoso gracejo do “seguro das pernas da Cláudia Raia”, mas o intuito é proteger seu “instrumento de trabalho”. Não à toa, o perfil do contratante do DIT, de acordo com os dados estatísticos da Mongeral, é de médicos clínicos (23%), advogados (14%) e cirurgiões dentistas e dentistas (13%), embora o seguro tenha adesão também de cabeleireiros, taxistas, esteticistas e fisioterapeutas.

Preocupação com a família

A Mongeral pôs o DIT no mercado em 2006, tanto para pessoas físicas quanto empresas dispostas a contratar o seguro para os funcionários. Apesar de não divulgar números – a informação oficial foi “falta de tempo hábil para reunir os dados no prazo solicitado”, embora, durante o primeiro contato, tenha alertado à reportagem de O Dia Mais que talvez não fosse possível liberá-los por serem estratégicos para o mercado –, a companhia garante que as adesões crescem a cada ano, especialmente entre os profissionais autônomos da área da saúde.

“A cobertura de Diária de Incapacidade Temporária tem como principal foco o profissional liberal, uma vez que muitas vezes ele não está coberto pela Previdência Social. A base de segurados da Mongeral Aegon com esta cobertura contratada retrata isso”, informou Rafael Rocha, gerente do Escritório da Mongeral Aegon em Maceió.

Desse público, 55% dos segurados são homens e 54% são casados. “Desta forma, é fundamental que este perfil se planeje financeiramente em caso de afastamento temporário do trabalho e, consequentemente, proteja a sua capacidade de gerar renda”, completou o gerente.

Fugindo desse perfil, mas exatamente com o mesmo objetivo, a professora Poly Evelyn Lourenço Alencar, de 26 anos, contratou o DIT há mais de um ano em busca de uma garantia para sua filha, já que é a provedora de sua família.

“Optei pelo contrato por ser mãe, pensando na minha filha e na minha profissão. Por ser professora, preciso da minha voz e da minha saúde, pois hoje o INSS não me dá essa garantia de me afastar do trabalho por motivos de saúde. Ou até se perder minha voz comprometo minha renda. Caso eu fique doente, quebre a mão, tenha um problema na coluna, perca a voz, eu vou precisar me afastar por alguns meses e esse seguro me garante que vou ter uma renda mensal”, expôs a professora, que leciona Redação e Filosofia a turmas do ensino fundamental, médio e supletivos em escolas particulares de Maceió.

“São Tomé”

Poly Evelyn já apresentou e recomendou o seguro a vários colegas de trabalho e amigos, assim como o fisioterapeuta Thyago Correia o contratou para a própria esposa. A propaganda boca a boca é uma parte considerável na divulgação da existência de um “seguro que cobre LER” e também tomou conta de uma família de dentistas em Maceió, mas foi preciso primeiro ter um susto e conferir a eficácia do resgate para que houvesse uma nova adesão ao DIT.

A dentista Luana Crespo Moré tomou conhecimento do DIT durante uma especialização em Endodontia, onde os professores já reclamavam de dores nos braços e ombros devido aos movimentos repetitivos. Comentou em casa com o marido Daniel, sem sucesso, e com a cunhada Mariana, que demonstrou interesse e marcou visita com a corretora.

Os irmãos Daniel e Mariana, ambos dentistas, aderiram ao DIT para garantir segurança em caso de afastamentos por LER no futuro (Fotos: Thalita Chargel)

Após Mariana ter acionado o seguro com facilidade, seu irmão Daniel foi convencido a aderir ao DIT  (Fotos: Thalita Chargel)

Meses após aderir ao DIT, Mariana, de 33 anos de idade e 3 na profissão, precisou acionar o seguro não para um problema do trabalho, mas para a retirada de um nódulo no seio, descoberto em exames preparatórios para outro procedimento médico.

“Tirei um nódulo e depois entrei com a papelada toda. Em um mês eles me pagaram. Era 45 dias [de afastamento], mas 10 dias eram carência, aí eles pagaram 35 dias, recebi sem problemas”, relata a dentista, que optou pelo seguro pensando em se garantir contra lesões nos membros superiores que a impedissem de trabalhar.

“Não tenho nenhuma outra garantia, não pago INSS, nada. De repente eu quebro um braço, como fico? Eu dependo de mim, se me machucar ou alguma coisa, não posso trabalhar”, argumenta Mariana Moré.

Só assim o irmão mais velho, Daniel, se convenceu de que contratar o seguro era uma boa ideia, “e porque a mulher ficou em cima, vamos fazer, vamos fazer”. Curiosamente, é ele o cliente perfil da Mongeral no DIT, embora a iniciativa tenha partido das mulheres da família.

Principais reclamações de dores por parte de dentistas (Ilustrações: Reprodução Internet)

Principais reclamações de dores por parte de dentistas (Ilustrações: Reprodução Internet)

“A desconfiança vem na questão de pensar ‘será que é aquilo mesmo?’. Eu tenho seguro de carro há 10, 15 anos e nunca utilizei, todo ano a gente paga aquele seguro. O país vem passando por uma crise e muita gente está cortando algumas coisas, e querendo ou não é uma mensalidade que tem que estar sempre colocando em pauta, manter sempre aquele pagamento. Mas achei muito interessante, principalmente quando a minha irmã recebeu o seguro dela. Eu falei ‘olha, é de verdade’”, conta, rindo da situação, mas convencido de que tomou a decisão correta.

“É essencial cada vez mais você ter um seguro ou estar garantido em caso de alguma eventualidade. Eu, por exemplo, ando muito de moto e você sabe que, na queda, a primeira coisa que vai usar para se proteger são as mãos. Acho que para moto e outros aspectos a gente vai tendo uma segurança. E hoje em dia ainda tem a tendinite, bursite, problemas na coluna que são eventuais da própria profissão. Então é muito interessante e necessário, na minha opinião, fazer um seguro das mãos”, defende Daniel, que, com 10 anos de consultório, tem quase um ano de seguro DIT.

Trabalho de conscientização

Adalberto de Souza em ação como mestre de cerimônias (Foto: Arquivo Pessoal)

Adalberto de Souza em ação como mestre de cerimônias (Foto: Arquivo Pessoal)

“Já tinha visto aquela notícia de que as pernas de Cláudia Raia são seguradas e valem uma fortuna, mas confesso que sempre achei que isso era uma coisa muito distante de mim, que eu não poderia fazer seja porque era caro, seja porque de fato eu não precise tanto da minha voz como eu acho que eu preciso”, reconhece Adalberto de Souza, relações públicas e mestre de cerimônias em Maceió.

Como a maioria dos profissionais autônomos, ele não possui nenhum tipo de salvaguarda em caso de emergências e sequer tinha conhecimento de um seguro para “meros mortais”.

“Saber que existe seguro para profissionais liberais que não necessariamente são grandes artistas já é uma novidade. Eu não tinha ideia de que, por exemplo, um dentista pode fazer um seguro para as mãos. Alguém já tinha dito que eu deveria colocar minha voz num banco de dados para que as pessoas procurassem quando precisassem fazer algum tipo de spot para rádio, mas não sabia que a minha voz poderia ser segurada”, acrescenta o cerimonialista.

A ideia de ter uma garantia em caso de sinistro é bastante sedutora, mas ainda não o suficiente para vencer medos e tabus arraigados no imaginário do brasileiro, tornando o trabalho de corretores quase missionário no aspecto da conscientização do público sobre os benefícios de um seguro.

“O profissional autônomo normalmente não se preocupa. Nós corretores temos um trabalho de conscientizar, mostrar que há a necessidade de se cuidar também. Ele fica descoberto e a sua renda comprometida em caso de afastamento do trabalho por doença, acidente ou um tratamento”, alerta Luciana Lima.

As resistências são várias. “O primeiro medo que se tem é não receber o pagamento, porque o banco é um dos maiores fantasmas que existe, muitas vezes você tem que entrar na justiça para receber seu seguro. Isso ficou marcado na mente das pessoas. Quando eu vou ofertar o seguro, perguntam logo de que banco é, mas a Mongeral é uma empresa privada, está há 181 anos no mercado, os próprios bancos se inspiraram nela para começar a oferecer seguros”, revela a corretora.

Outra barreira a ser vencida é a questão do preço, que, para o senso comum, é caro. “Não é. Diante do capital que você quer segurar, pode-se pagar o prêmio como se fosse uma conta de luz, um bujão de gás, o valor de um condomínio, porém para que você se resguarde para o futuro. E os ajustes, que em alguns lugares são anuais, no DIT são feitos de acordo com a faixa etária, a cada cinco anos”, completa Luciana.

Parte do trabalho de Luciana Lima é desmistificar o mundo dos seguros para as pessoas (Foto: Cortesia)

Parte do trabalho da corretora Luciana Lima é desmistificar o mundo dos seguros para o público  (Foto: Cortesia)

“Acredito que mesmo que o profissional liberal tenha algum pagamento ao INSS, diante do déficit previdenciário, sempre com modificações que vem lesando as pessoas que trabalham, o DIT é essencial. Porque se hoje eu contribuo para o INSS no pagamento mínimo e a minha renda é 5 mil, caso eu fique doente vou receber um salário mínimo, não vai suprir as minhas necessidades”, destaca.

E, ao contrário do caso apresentado no início da matéria, esta não é uma casa de ferreiro. “Eu, Luciana, optei pelo seguro pelo fato do INSS não suprir minha necessidade e eu estar ciente que estou exposta a qualquer risco. Tenho dependentes e sei que na minha falta a situação vai pesar. Imagina se eu ficar inválida, a situação se inverte e eles é que terão dificuldades para poder me manter, seja de forma temporária ou permanente”.

Contudo, para ela, vale mais a possibilidade de uma pausa estratégica para manter a saúde. “Com o meu seguro privado, eu sei que vou receber em pouco tempo e que vou garantir o tempo para que possa me recuperar, ao contrário do que ocorre muito por aí, de pessoas que ficam com problemas de coluna, LER ou DORT, porém precisam suportar a dor para poder trabalhar e manter suas finanças. Com o seguro, você pode se afastar, se cuidar para não chegar a uma invalidez permanente, que é o mais importante”, arremata Luciana Lima.


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