Romaria e fé: a força que move as pessoas

Iracema Ferro e Deraldo Francisco - Texto // Cacá Santiago e Jessyka Soares - Fotos / 6:04 - 16/10/2017

Peregrinação à Igreja da Pedra em Dois Riachos traz um pedaço de Juazeiro do Norte ao Sertão de Alagoas


 

Com fé, até raiz de urtiga cura

Dona Maria José

Dona Maria José

A fé do povo nordestino mostra que um simples chá de urtiga cura doenças que os médicos ainda não descobriram. A dona de casa Maria José de Lima, de 50 anos, esteve em julho passado na “Igreja da Pedra”, onde fica o santuário do Padre Cícero, em Dois Riachos, a 190 km de Maceió, no Sertão de Alagoas, para agradecer mais uma vez pela graça alcançada: a cura de uma doença misteriosa que acometia sua filha, ainda bebê, com apenas nove meses. “Naquele dia, fui dormir e pedi ao meu padrinho [Padre Cícero Romão Batista] que, em sonho, me mostrasse a cura para a minha filha. No sonho, ele mandou que eu arrancasse três pés de urtiga que tinha na frente da minha casa, fizesse o chá só da raiz e desse à minha filha”, conta a mulher. No outro dia, cedo da manhã, Maria José foi ao terreiro, arrancou os três pés de urtiga, lavou as raízes, fez o chá e deu à filha. “No dia seguinte ela já não sentia mais nada. Comia direitinho e não chorava de dor. Ele [Padre Cícero] curou a minha filha”, conta a devota do santo nordestino. “Como prova da minha fé, todo ano venho à igreja acompanhada da minha filha, que já está com seis anos”, relata. Mas a fé de Maria José ainda lhe colocou numa situação meio embaraçosa com o santo padre. Ela conta que, após dois ou três anos da primeira graça recebida, sua filha teve outro problema de saúde e, antes mesmo de procurar assistência médica para a criança, ela fez novamente o pedido para sonhar com o Padre Cícero. “Dessa vez ele me deu uma bronca. Disse que eu já sabia o que fazer”, conta. Ao amanhecer, Maria José foi ao terreiro, pegou mais três pés de urtiga e fez todo o processo novamente. Ela conta que e menina melhorou e, nunca mais teve “problema misterioso” de saúde. “Como eu posso desprezar uma graça dessas? Foi meu padrinho que curou a minha filha. E, pelas graças alcançadas, visito todo ano a Igreja da Pedra no aniversário de morte dele”, comenta. O aniversário de morte do Padre Cícero é 20 de julho e, este ano, fez 83 anos de sua morte.

Dona Maria José e a filha após mais uma demonstração de fé e gratidão

Dona Maria José e a filha após mais uma demonstração de fé e gratidão

 

Igreja da Pedra 

A “Igreja da Pedra” do Padre Cícero foi construída há 60 anos pelo agricultor José Antônio de Lima por ter recebido uma graça. Ele nunca revelou, nem mesmo aos familiares, que graça foi essa. O segredo foi “sepultado” com ele, em abril de 1988. O corpo de José Lima está sepultado na capela do Padre Cícero, que fica no santuário, construída porque os padres se negaram a rezar missa do alto da “Igreja da Pedra”, alegando insegurança.

O local é um pedacinho do Juazeiro do Norte/CE, encravado no Sertão de Alagoas. “Pedacinho, não. Aqui é um grande pedaço de Juazeiro. A romaria aqui é muito grande e a fé, maior ainda”, corrige a romeira Girlene de Almeida Ferreira, de 63 anos. Ela visita o santuário há mais de 20 anos. “Essa data é a mais séria da minha vida. Esteja onde estiver, fazendo o que for, deixo tudo e programo a minha visita ao meu padrinho”, comenta.

16fenda

Nesta fenda, só passa quem não tem pecado

Além das duas capelas, o local santo tem ainda o velário, espaço para receber os artigos das promessas e a fenda nas rochas “por onde quem tem pecado não consegue passar”. Há quem passe pela fenda apenas como parte atrativa do santuário. Mas, no geral, os romeiros acreditam mesmo não ter pecado quando alcançam o outro lado da fenda. Aliás, não basta passar uma única vez pela brecha na rocha. Para ratificar a limpeza da alma, a pessoa tem que passar três vezes pela fenda.

“Graças a Deus consegui passar três vezes. Faço isso todo ano, mas acho que estou ficando velho. Tive mais dificuldades este ano”, conta o romeiro Aloísio Alves da Silva, de 52 anos. Ele acredita que a prova da fenda lhe garante em dia com os preceitos da sua igreja. “Procuro seguir as recomendações da minha religião, fazendo o bem, respeitando ao próximo e buscando a igreja sempre”, disse o romeiro Aloísio Alves.

A escada que leva os romeiros até a capela com as imagens do Padre Cícero, no alto da pedra, tem um lance de 30 degraus, com subida e descida. Há romeiros que, de acordo com a graça alcançada, a penitência é subir descer a escada de joelhos. Ou seja: 60 degraus. Esta é a principal entre as penitências, mas há ainda o oferecimento de partes – em madeira – do corpo pela graça alcançada, oferta das roupas usadas na viagem e até fotos de pessoas que, a partir da fé de seus familiares, foram curadas de uma doença grave, passaram num concurso público, ou apenas conseguiram um emprego.

 

Pedido para chover no Sertão

Os irmãos Alves

Os irmãos Eugênio e Expedita Alves

É comum encontrar entre os romeiros aqueles que pediram apenas para chover no Sertão, principalmente em épocas em que a seca é mais severa que o de costume. É o caso dos irmãos Eugênio e Expedita Alves, de 72 e 70 anos, respectivamente. Eles têm uma propriedade rural em Batalha e, no ano passado, pediram ao Padre Cícero para fazer chover este ano no Sertão de Alagoas, diante do quadro desolador que transformou tudo em torrão seco e duro.

“Este ano, no mês de maio, em mais um dia de sol forte, eu estava sentada no alpendre e, de lá, grudei os olhos numa plantação que estava seca. Lembrei-me da minha promessa e, pouco tempo choveu tanto nesse mundo e, não parou mais até hoje. Olhe para o céu. Estamos no Sertão brabo e está chovendo”, disse Expedita Alves, com “chuva” nos olhos.

A reportagem encontrou algumas promessas curiosas. “Eu vim pagar a minha promessa por ter pedido muito ao meu padrinho [Cícero Romão] e ter conseguido a minha aposentadoria”, contou Maria Antônia dos Santos, que mora em Olivença.

 

A cura do menino Gabriel

Quando tinha seis anos, o pequeno Gabriel da Silva (hoje com 9) foi atropelado por um caminhão, perto de casa, em Limoeiro de Anadia. Ele passou vários dias entre a vida e morte na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital em Arapiraca. A família foi desenganada pelos médicos e se esperava apenas o dia da morte do menino. Foi quando a sua avó materna, Rosita Maria da Conceição, de 62 anos, romeira do Padre Cícero resolveu pedir a ajuda do “santo nordestino” e dobrou os joelhos no chão. “Comecei a rezar, pedir a ajuda do meu padrinho e, no final eu disse que, se fosse da vontade dele, que pudesse levar o meu neto. Mas que a minha vontade era vê-lo brincando novamente, como era antes do acidente”, disse a romeira.

Ela contou que, a partir deste momento, Gabriel só teve melhora no seu quadro clínico e, após, várias cirurgias na cabeça, recebeu alta e foi para casa. “Hoje, meu neto está bem. Estudando, brincando e não ficou com nenhuma sequela. Apenas essas cicatrizes na cabeça que, para mim, é para mostrar o poder da fé que eu tenho no meu padrinho”, contou Rosita.

Cicatriza de Gabriel é prova da fé em Padre Cícero

Cicatriz de Gabriel é prova da fé em Padre Cícero

Pela graça alcançada, a promessa da avó é levar o menino Gabriel à Igreja da Pedra todo dia 20 de julho, enquanto ela tiver vida. “O pagamento da promessa deve continuar depois que eu morrer. Por isso, venho sempre com ele”, disse.

Quem também atribui a cura do filho ao Padre Cícero é a dona de casa Adriana Xavier dos Santos, de 39 anos. Ela conta que Jheivison Xavier Acioli, de 16 anos, estava acometido por uma doença que tinha sintomas parecidos com a epilepsia. “Ele se desligava de tudo. Ficava paralisado como se estivesse dormindo, mas com os olhos abertos, em pé e imóvel. Por exemplo: se essa coisa desse nele durante o momento em que estivesse atravessando uma pista, seria fatal porque ele simplesmente ficava parado”, contou Adriana Xavier.

Na promessa que fez ao Padre Cícero pela cura do filho, ela prometeu visitar a Igreja da Pedra todos os anos, descalça e vestida de preto. O sacrifício também deve ser feito pelo filho que, há dois anos, após a graça alcançada, acompanha a mãe no pagamento da promessa. Para concluir a penitência, os dois têm que subir os 30 degraus da escada que levam à Igreja da Pedra. Mas o adolescente, beneficiado com a graça, deve fazer o percurso de subida de joelhos. Adriana Xavier segue atrás dele, para conferir o pagamento correto da promessa.

Mãe e filho unidos na fé

Mãe e filho unidos na fé

 

Dentro da capelinha só cabe a fé

Lá em cima da pedra, dentro da capelinha, não cabe mais que quatro pessoas, espremidas numa espécie de altar. O romeiro espera o ano inteiro para um momento breve, de pouco mais de um minuto de frente com as imagens do Padre Cícero. Ali ocorre a química espiritual entre o “santo” e o romeiro. Em geral, agradece-se pela graça alcançada e se pede mais saúde e proteção para o romeiro e familiares. Não dá tempo para uma oração mais demorada. Centenas de pessoas estão na fila aguardando a sua vez do encontro com o “local santo”.

Na capelinha, só cabe a fé

Na capelinha, apenas uma oração rápida

Outrora, foram celebradas missas com o padre do alto da pedra. Mas, diante das reclamações de alguns deles, a Diocese de Palmeira dos Índios, responsável pela paróquia, proibiu a celebração das missas com o altar na Igreja da Pedra. Por conta disso, foi construída outra capela em terra firme. Mas o imbróglio com a Igreja continuou porque a Diocese exigia a administração da capela. No entanto, os familiares de José Lima fincaram o pé e disseram que, daquele santuário, eles tomariam conta.

Desta forma, as visitas ocorrem sem a realização de missa. São rezados apenas os terços. As missas para os romeiros acontecem na capelinha de Mãe Rainha, que fica a cerca de 500 metros do santuário, também às margens da rodovia BR-316. Ou seja, isso representa um transtorno para os romeiros porque eles se deslocam de lugares distantes e, mesmo existindo uma capela com estrutura para a realização de missas, isso não acontece devido à “burocracia religiosa”.

Capela da Mãe Rainha, onde ocorrem as missas

Capela da Mãe Rainha, onde ocorrem as missas

 

Vende-se de tudo no santuário, menos bebida

A família do fundador do santuário, José Antônio Lima, é quem organiza e disciplina a visitação dos romeiros. No local, nem no entorno, não é permitida a venda de bebidas alcoólicas. Uma faixa afixada na entrada da feira adverte sobre a proibição e a multa pesada para quem descumprir essa ordem: R$ 1.500,00, conforme a Lei Federal nº 11.705 que diz, em seu Art 2º: “São vedados, na faixa de domínio de rodovia federal ou em terrenos contíguos à faixa de domínio com acesso direto à rodovia, a venda varejista ou o oferecimento de bebidas alcoólicas para consumo no local”. Na verdade, a lei não tem a ver com o santuário, mas pelo local onde ele fica: às margens de uma rodovia federal.

Faixa alerta: local de fé, não de bebida

Faixa alerta: local de fé, não de bebida

No dia 20 de julho passado, a reportagem esteve lá acompanhando a romaria e, de fato, não foi vista uma única latinha de cerveja sendo comercializada. No entanto, como chega gente a todo instante e toda hora, pode ocorrer de um ou outro romeiro mais afoito levar bebida.

A romaria ocorre no dia 20, mas, normalmente, o movimento no local começa no dia anterior. Os primeiros a chegar ao santuário são os comerciantes. Eles vêm de todos os lugares e vendem de tudo, com destaque para os artigos religiosos. Da mesma forma como acontece em Juazeiro/CE que tem comércio e feiras. Muito embora, no santuário de Dois Riachos haja apenas uma feira.

Comerciantes também são presença certa durante as romarias

Comerciantes também são presença certa durante as romarias

Os romeiros consideram os preços acessíveis e compram de tudo para quem ficou em casa. A tradicional rapadura do Juazeiro do Norte/CE e as fitinhas coloridas do Padre Cícero são encontradas em grande parte da feira.

 

Caminho cheio de pedra e areia

Um trecho de um bendito de romeiro diz o seguinte: “…oh que caminho tão longo, cheio de pedra e areia…”. Mas, para romeiro de verdade não existe destino distante nem empecilhos pelo caminho. Quanto mais sacrifício na missão de cumprir a promessa, mas bem paga ela será. Todo mês de julho, é natural que chova muito, mesmo no Nordeste. E a pista molhada e visibilidade baixa deixam a viagem mais tensa. Mas essa tensão passa com uma oração sobre a cabeça do motorista e a imagem do Padre Cícero no para-brisas do ônibus.

Oração no motorista, para assegurar que todos cheguem bem

Oração no motorista, para assegurar que todos cheguem bem

Não importa de onde venha, mas, cada romeiro teve muita dificuldade para sair de casa. Seja pelas condições de saúde – uma vez que há uma grande parcela de idosos entre os romeiros -, por dificuldades financeiras ou até mesmo pela falta de condução. Com chuva na estrada ou sem chuva, eles saem a pé, a cavalo, de bicicleta, de motocicleta, carro, ônibus ou caminhão. A todo instante, as caravanas chegam ao santuário durante o dia 20 de julho. A grande concentração de romeiros ao redor da Igreja da Pedra obriga a Polícia Rodoviária Federal a disciplinar o trânsito naquele trecho da BR-316. Os carros trafegam lentamente para evitar acidentes.

Romeiros chegam em cavalgada

Romeiros chegam em cavalgada

Como não há dificuldades para quem tem fé, o número de visitantes só aumenta a cada ano. Estima-se uma visitação na ordem de 50 mil pessoas. São pessoas que vêm de toda parte de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Bahia e até de estados fora do Nordeste. Como fica às margens de uma rodovia, é natural que a capelinha, que foi construída sobre uma pedra, seja visitada até por estrangeiros, mas que não se enquadram na condição de romeiros. Trata-se, obviamente, de um monumento religioso que chama a atenção. 

Padre Cícero no para-brisa para guiar os caminhos dos romeiros

Padre Cícero no para-brisa para guiar os caminhos dos romeiros

 

Padre Cícero, o santo nordestino

Seja no Juazeiro do Norte/CE, em Dois Riachos/AL, onde houver uma estátua do Padre Cícero sempre haverá a peregrinação dos romeiros. No Nordeste, o dia 20 de julho, quando se registra o aniversário de morte do Padre Cícero, mesmo sem ser feriado – e isso mostra a força da fé desse povo – é tão dedicado à fé quanto outras datas oficiais da Igreja Católica.

A saudação do romeiro

A saudação do romeiro

Os romeiros não se importam com a posição do Vaticano em relação ao Padre Cícero. Eles não querem saber de beatificação ou canonização. Já adoram o Padre Cícero como um santo e a fé dispensa as formalidades do Clero.

Em 2015, o Vaticano fez a reconciliação do Padre Cícero com a Igreja. Quando morreu, o padre estava cumprindo punição de suspensão aplicada pela Igreja, por conta de alguns “equívocos”, sendo o principal deles o “milagre da hóstia”, no final do século XIX. Os fiéis disseram, à época, que a hóstia dada pelo padre Cícero virou sangue na boca de uma beata.

A batalha pela reconciliação do Padre Cícero com a Igreja Católica foi iniciada pelo bispo do Crato/CE, Dom Fernando Panico. Contudo, o perdão do Vaticano só veio nove anos depois do pedido. Ocorre que, desde que o Padre Cícero morreu, em julho de 1934, as romarias e as devoções ao santo nordestino só crescem. Ou seja, Padre Cícero é santo na fé do povo nordestino há décadas, com ou sem o perdão do Vaticano.

Nas conversas que tinha com os fiéis, normalmente, o Padre Cícero dizia que: “quem matou não mate mais… quem roubou não roube mais… romeiros de verdade vivem na fraternidade”. Essas palavras viraram música e se transformou num dos principais benditos cantados nas romarias Brasil afora.

 


Comentar usando