, Quarta-Feira - 19 de Setembro de 2018

 

Revirados: 10 anos da retomada do Maracatu em Alagoas

Mariana Lima – texto // Thalita Chargel – vídeos e edição audiovisual / 1:52 - 31/12/2017


Em 2017, completou-se a primeira década da volta do Maracatu de Baque Virado ao estado de Alagoas após o silenciamento provocado pelo Quebra de Xangô de 1912. Dez anos desde que o percussionista Wilson Santos promoveu uma oficina de ritmos de maracatu no Centro de Belas Artes de Alagoas (Cenarte) e cerca de 40 pessoas, de diversas idades, credos e origens sociais se juntaram para batucar. O que começou como um grupo percussivo sem nome evoluiu e fez surgir outros grupos em apenas dois anos, entre eles a primeira Nação de Maracatu do estado de Alagoas no século XXI. Das divergências do convívio humano que provocaram um racha entre os batuqueiros, o maracatu, ao invés de sumir novamente, multiplicou-se em novos grupos percussivos, ganhando espaço e reconhecimento dentro e fora do estado. Uma conquista atribuída à força contagiante da música, mas há quem lembre que tudo isso vem de uma determinação maior.

Os 10 anos desta retomada foram celebrados dentro da Semana da Consciência Negra, durante o I Encontro de Maracatus de Baque Virado – Maceió 2017, evento promovido por aquele primeiro grupo formado a partir da oficina do Cenarte, o Grupo Percussivo Maracatu Baque Alagoano. Este evento congregou nomes importantes do estudo e vivência do maracatu no estado, como o próprio Wilson Santos; Pai Elias (Doté Elias), Rei da Nação do Maracatu Acorte de Alagoas; os professores universitários e pesquisadores da história e cultura negras Zezito Araújo e Bruno César Cavalcanti; e Nações de Maracatu convidadas de Pernambuco. Foram dias de debate e partilha sobre o caminho percorrido até chegar aqui – onde “aqui” tem um lugar e um peso diferente a cada personagem nesta narrativa. O que há de comum é o ponto de ruptura que denota a necessidade do termo “retomada do Baque Virado”: a destruição dos terreiros de candomblé em 1912, episódio que entrou para a história como o Quebra de Xangô.

O Quebra

Euclides Malta, o pivô de toda crise (Foto: Reprodução internet)

Euclides Malta, o pivô de toda crise (Foto: Reprodução internet)

Um entrevero político entre aqueles que mandavam e aqueles que queriam mandar em um estado monopolista, rural e altamente conservador, mas que almejava o progresso e a civilização. Em resumo, este foi o pano de fundo do começo do século XX em Alagoas, que manipulou e fomentou a construção de um ódio direcionado aos terreiros de candomblé em Maceió e às representações da cultura africanas, como o maracatu e seus grandes tambores.

Para destituir o então governador Euclides Malta, que vinha se perpetuando no poder desde 1900 – terminou seu mandato em 1903, elegeu o irmão, retornou em 1906 e queria fazer sucessor em 1912 –, seus opositores, liderados pelo político Fernandes Lima e apoiados nos jornais da época, em especial o Jornal de Alagoas, começaram uma forte campanha de difamação. Construíram a imagem de que Malta se mantinha no poder graças a feitiçarias executadas nos terreiros de candomblé da capital. Alimentavam que a relação era tão próxima que o governador tinha sua bruxa particular, Tia Marcelina, e era conhecido como o “Soba” de Mata Grande (o termo vem do quimbundo e quer dizer “chefe”).

Imagine isso cotidianamente, no boca a boca e nos jornais, apenas 20 anos depois da abolição da escravatura no Brasil, enquanto vigorava uma ideologia positivista de “ordem e progresso” rumo à civilização das terras brasileiras. E, como sempre, o ideal civilizador era o europeu. Este fator também explica a evolução de uma resistência na imprensa local contra o maracatu nos carnavais.

Em 1901, o primeiro registro de grupos negros no carnaval dava conta de “um magote de negros, bons e sacudidos” que se arregimentou sob o nome de Cavalheiro do Prazer em Atalaia. Em 1902, o jornal “A Tribuna” registrou a saída de grupos de maracatu do Centro de Maceió, deixando as ruas “cheias de povo”.

Uma alegria que durou pouco. Em 1903, o mesmo Tribuna já se referia ao maracatu como música cansativa, enquanto o jornal “Gutenberg” fazia comentários depreciativos quanto sua presença no carnaval das ruas. Este sentimento foi sendo alimentado nos anos seguintes da Era Malta, como ficou conhecido o governo de Euclides e seus apoiadores, a ponto de construir o clima ideal de um bode expiatório contra a comunidade afro-religiosa.

Daí, na madrugada de 1º para 2 de fevereiro de 1912, em plena celebração de Oxum e preparação para o carnaval nos dias seguintes, a turba popular liderada pela Liga dos Republicanos Combatentes seguiu pelas ruas de Maceió invadindo, quebrando e incendiando terreiros. Manifestações religiosas indígenas, como a jurema, também entraram no rol do ódio e preconceito. O Quebra continuou nos dias seguintes em outras cidades alagoanas. Os tambores silenciaram naquele carnaval. E nos anos que se seguiram.

A Liga, os Morcegos e o tambor

Um ponto que chega a ser irônico é que o grupo que liderou o Quebra, a Liga dos Republicanos, é praticamente o mesmo do maior grupo de carnaval da época, o Clube dos Morcegos. Eles, inclusive, dividiam a mesma sede, a residência de seu fundador, Manoel Luiz da Paz. Não há como não fazer a pergunta: por que um grupo de carnaval foi se envolver em política, e logo um episódio tão brutal contra pessoas que compartilhavam as mesmas ruas de folia com eles?

Antropólogo Bruno Cavalcante (Foto: MBA/Arquivo)

Antropólogo Bruno Cavalcanti tem vasta pesquisa sobre os negros e o carnaval alagoano (Foto: MBA/Arquivo)

“Os Morcegos tinham em sua composição ex-combatentes da Guerra do Paraguai. Eles não foram criados para o carnaval ou para combater algum movimento social, eles já tinham um vínculo anterior. Uma coisa que precisamos considerar era como se dava a segurança pública nesse período, sem as instituições policiais com as características que temos hoje. Você tinha muitas milícias de bairro, pessoas que cumpriam função de ‘pôr ordem’, quase uma terceirização para a sociedade civil dessas atitudes moralizadoras”, explica o antropólogo Bruno César Cavalcanti, cujas pesquisas sobre carnaval e cultura negra sedimentam parte importante deste debate hoje em Alagoas (confira um exemplo clicando aqui).

E ele prossegue. “O Quebra se explica por uma luta política, sem dúvida nenhuma, agora essa relação com as culturas subalternas era ambígua. As pessoas que participaram do Quebra não eram necessariamente aversas ao candomblé, [porém] elas eram conscientes de que os valores afrobrasileiros em disseminação não eram exatamente os valores desejados [de civilização] quando se pensavam nos valores culturais europeus como modelo. Porque nas sociedades hierarquizadas, qualquer que sejam elas, as classes que são superiores têm uma hegemonia de valores, de impor suas vontades e modelos”.

O silêncio dos terreiros se estendeu gradualmente nos anos seguintes a qualquer manifestação da cultura negra movido pelo medo. Qualquer coisa que soasse como “terreiro” era combatida e afastada. Isso recaiu sobremaneira ao maracatu de baque virado, cuja batida em muito se assemelhava aos toques religiosos, além de ter personagens, danças e vestimentas que remetiam à coroação dos Reis do Congo, com toda sua simbologia. Sua ligação com o candomblé se dava ainda pelo contexto religioso da manifestação (Maracatu Nação) e por compartilharem participantes.

Mesmo assim, pequenos ecos daquela brincadeira ainda eram ouvidos. Uma das imagens mais emblemáticas dos antigos carnavais promovidos em Maceió por Bonifácio Magalhães da Silva, mais conhecido como Major Bonifácio, conta com uma foto de algum momento da década de 1930 onde ele aparece em destaque sob uma sombrinha, mas os tambores ao fundo é que chamam atenção.

Major Bonifácio em um de seus carnavais; as cordas que amarram o tambor lembram a amarração das alfaias do maracatu (Foto: reprodução internet)

Major Bonifácio em um de seus carnavais; as cordas que amarram o tambor lembram a amarração das alfaias do maracatu (Foto: reprodução internet)

“Eles são muito grandes e olha a amarração dos tambores. Isso me leva a acreditar que são alfaias, tambores de maracatu, e pelo menos 20 anos após o Quebra”, defende o professor Bruno César.

Perpetuação no folclore

Assim, o Maracatu de Baque Virado e seus toques, vestimentas e cortejos deixou de ir às ruas em Alagoas. Há na literatura registros de maracatu nos carnavais de Maceió, mas ele passa a ter nova roupagem, diferente daquela que seguiu florescendo no Recife.

“Em 1940, 1950, vamos ter referências via Théo Brandão, por exemplo, de um maracatu que não seria exatamente de Baque Virado, de alfaias, [mas] com uma sonoridade diferente. Não digo que conscientemente essa tentativa foi disseminada por várias pessoas, mas o que existiu foi a tentativa de expressão do maracatu como um folguedo, como folclore alagoano, o que é diferente de uma expressão musical e dançante de uma comunidade ligada a terreiros”, assinala o antropólogo Bruno Cavalcanti.

Tal passagem foi, na verdade, em 1952, durante a IV Semana do Folclore Nacional, que o médico e folclorista alagoano Théo Brandão conseguiu organizar no estado, aponta Cadu Ávila, antropólogo também dedicado ao estudo do maracatu – ele mesmo participou do grupo Baque Alagoano e ajudou a fundar o Coletivo AfroCaeté, nos anos da retomada da manifestação em Alagoas.

“Théo Brandão tenta organizar um maracatu com pessoas de outros folguedos e ele mesmo fala que vai ser sucesso. Criaram, organizaram a corte, tocaram, mas depois daquilo não continuou, não se perpetuou, foi só aquele momento da Semana do Folclore. Isso já era Theo Brandão tentando recriar os maracatus que viu na cidade quando criança, mas sem sucesso”, pondera Ávila.

Esta abordagem como folclore dissociou o maracatu das religiões de matriz africanas na metade do século XX, lhe atribuindo características que podiam até lembrar um Maracatu de Baque Solto, como havia nas áreas rurais de Pernambuco – uma brincadeira diferente em personagens, dança, roupas e especialmente na forma de tocar, onde a percussão é acompanhada por um conjunto de instrumentos de metal.

“Deu a ele outro panteão, entra em uma outra lista de expressões culturais locais, menos identificada como uma expressão de um grupo específico étnico ou religioso, e mais como um patrimônio genérico. Talvez isso seja um caminho para compreender essa distinção”, arremata Cavalcanti.

A diferença pode ser percebida no seguinte áudio, extraído do CD “Folclore Alagoano: Folguedo e Danças”, resultado de um levantamento do pesquisador Ranilson França com cantos e folguedos do estado, gravado nas sedes dos grupos ou em apresentações públicas e lançado em 22 de agosto de 2002.

 

A música acima é faixa do CD para o maracatu na forma como ele fazia parte do folclore alagoano, cantado pelo Mestre Arthur Morais e, de acordo com anotações do projeto, registrado em 1987 – ou seja, 20 anos antes da oficina do Cenarte que retomou o baque virado em Alagoas. Na capa do álbum, Ranilson França descreveu assim o maracatu:

Capa do CD (Reprodução internet)

Capa do CD (Reprodução internet)

 

MARACATU – Dança processional e cortejo real, parte dos reisados dos congos. A palavra maracatu é de origem africana que significa dança ou batuque. O maracatu pernambucano penetrou em Alagoas e criou formas alagoanas dessa manifestação, assim como as cambindas, o samba-de-matuto, as negras da costa, baianas e as caboclinhas.

 

 

Destaque-se um ponto interessante nesta descrição: “o maracatu veio de Pernambuco para Alagoas”. É ponto pacífico que a manifestação cultural surgiu no século XVIII em terras pernambucanas. Há de se pontuar, porém, que naquela época os dois estados eram um só território – seria Alagoas o tal “sul de Pernambuco” onde teria nascido o maracatu, a partir da resistência nas senzalas e quilombos? Mesmo diante de tão poderosa teoria, os alagoanos reconhecem mais como “suas” outras expressões populares que surgiram a partir do maracatu. O silêncio decorrente do Quebra e a grande reverência que Pernambuco demonstra por suas tradições ajudaram a alicerçar o maracatu como algo estrangeiro aos alagoanos.

A oficina do Cenarte

Apesar da grande propaganda proveniente do Mangue Beat no Recife na década de 1990, o maracatu de baque virado só começaria a encontrar seu caminho de volta a Alagoas no século XXI. Tudo começou em 2004, com o surgimento da Orquestra de Tambores de Alagoas, no quintal da casa do percussionista Wilson Santos, tocando os ritmos de matriz africana como banto, jêjê e nagô.

“A grande maioria do pessoal que começa a Orquestra são ogãs, filhos de santos, inclusive filhos biológicos de mães de santo. Ela surge pela necessidade dessas pessoas saírem do ambiente de terreiro e praticarem sua musicalidade de uma maneira criativa a partir dos elementos que elas tinham. A ideia não era nem tocar nos palcos da cidade, era trabalhar a criatividade em cima daqueles ritmos, refazer os saberes a partir de um olhar contemporâneo”, revela Wilson. No candomblé, cabe aos ogãs o toque dos atabaques para chamar os orixás.

Uma nova geração de pessoas de santo já colhia frutos da mobilização do Movimento Negro – incluindo o reconhecimento da importância da Serra da Barriga e do 20 de Novembro – e da volta e reorganização das ialorixás e babalorixás a Alagoas, em especial a Maceió, que se deu a partir da década de 1950. Ao lado disso, adolescentes e jovens adultos que não possuíam contato direto com as religiões afro seguiam encantados com o maracatu pernambucano e seu “filho”, o Mangue Beat. Desta vez, a tempestade perfeita estava indo na outra direção.

Recontando os idos de 2007, Wilson ainda revelou outros detalhes sobre o processo de convencimento de seus colegas da Orquestra em busca de parceiros para realizar a oficina. “Eu falei pra gente investir nosso cachê de Fortaleza na confecção dos instrumentos, porque com certeza ao final dessa oficina, as pessoas iam querer montar um grupo de maracatu e a gente faz o quê? Vende os instrumentos! Mas eles não quiseram conversa e eu entrei nessa sozinho. Aí, no meio da oficina, o Rômulo levanta a mão e pergunta quem queria montar um grupo de maracatu”, lembrou Wilson, aos risos.

Outras pessoas reunidas a cada sábado naquela oficina ao longo de março de 2007 também possuíam o desejo de seguir tocando e montar um grupo de maracatu, contudo, Rômulo Fernandes, então com 36 anos, foi a primeira pessoa a verbalizar o interesse a seus pares. Aliás, como ele mesmo explica, já foi para o Cenarte com a intenção de montar um grupo de maracatu, apesar de não saber tocar o ritmo. Rômulo já tinha experiência com música e participado de algumas bandas, além de ser amigo dos integrantes da Dr Charada – banda de rock detentora das “duas únicas alfaias em Maceió”, como apontara Wilson – e chegou à oficina através de uma marcação no Orkut, a grande rede social da época.

“No primeiro dia de oficina tinha um mundaréu de gente, eu não imaginava que ia ter tanta gente e nem o próprio Wilson imaginava isso. E aí quando começou a conversa veio aquela parte das apresentações. Wilson pediu para cada um dizer o nome e porque tinha ido à oficina. Eu me lembro que fui a penúltima pessoa a falar, estava em pé lá atrás, e me apresentei, disse que sempre tinha tocado em banda e que fui porque vi ali a possibilidade de formar um grupo. Quando disse isso, aí um monte de gente se virou e falou ‘vamos lá’ e tal”, recordou Rômulo que, apesar de um sentimento típico da “megalomania” dos pernambucanos, é natural de Palmeira dos Índios.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Nas palavras do batuqueiro, “as coisas simplesmente aconteceram”. Após quatro sábados, jovens e adultos, garotos e garotas, resolveram que não iam ficar só naquilo e queriam, de fato, seguir batucando. “No último sábado, o Wilson encerrou a oficina e fizemos uma reunião, pois tinha muita gente interessada em criar um maracatu, e decidimos continuar. No sábado seguinte nós iniciamos com o projeto percussivo. Aí virou um misto de aprendizado e ensaio, o Wilson passou a conduzir como mestre, ficou com a gente por um tempo. Em 21 de abril de 2007, aconteceu uma grande reunião e decidiu-se pela criação do grupo”, relembra Rômulo.

Kizumbayan, o 1º maracatu

Guardando o mesmo rigor, o primeiro grupo de maracatu de baque virado formado a partir da oficina do Cenarte chamou-se Kizumbayan, “festa de Ayan”, uma homenagem ao orixá do tambor, nome sugerido pelo próprio Wilson Santos.

“Das primeiras sagas, essa foi uma das que mais marcou”, assume Rômulo Fernandes, pois começou a apontar como eram distintas as pessoas que agora reuniam-se em torno das alfaias, caixas, gonguês, agogôs e xequerês que formavam aquele grupo percussivo. Enquanto algumas queriam exaltar a ligação com a religiosidade afro, outros queriam ressaltar a alagoanidade e outros não queriam nada disso.

O nome durou apenas uma semana, o próprio Wilson voltou atrás e deixou que o grupo fizesse uma nova votação. Aí veio o Baque Alagoano, sem o “Maracatu”. Foi mais um ano até que o Grupo Percussivo Maracatu Baque Alagoano fosse realmente assim batizado. Antes mesmo dessa decisão, eles já haviam sido convidados por Achiles Escobar para tocar com o Bloco Jaraguá é o Bicho nas prévias de carnaval de 2008, no Jaraguá Folia.

Jaraguá Folia de 2008, quando o maracatu voltou a celebrar o carnaval em Maceió

Jaraguá Folia de 2008, quando o maracatu de baque virado voltou a celebrar o carnaval em Maceió (Foto: Rômulo Fernandes/Arquivo pessoal)

“Nos reunimos em frente ao ateliê dele bem cedo, entre 19h30 e 20h. O Achiles saiu com o Jaraguá dele e a gente tocando. Ele vinha, passava pelo meio do grupo, mas depois sumiu. E aí continuamos, saímos tocando as três músicas que sabíamos tocar e assim terminamos [o cortejo]”, conta Rômulo sobre o primeiro grande convite recebido pelo Baque Alagoano e o início de uma nova tradição nas prévias de carnaval da cidade. Desde então, o maracatu sempre tem estado presente nos carnavais de Maceió.

Foi na medida em que tais convites chegaram que os batuqueiros perceberam a importância do que estavam fazendo. Eles não conseguem afirmar em qual ponto perceberam que as batucadas semanais – que nem local próprio tinham – era a retomada de algo que havia passado quase 100 anos adormecido, mas puderam perceber o impacto que estavam causando no cenário cultural urbano de Maceió à medida que chegavam pessoas querendo se envolver com o grupo de maracatu, mas também opinar e até conduzir os trabalhos.

O cenário de disputas de origem e representação não foi apenas externo. Logo depois do segundo cortejo do grupo nas prévias de carnaval, o Maracatu Baque Alagoano rachou e os batuqueiros dissidentes fundaram o Coletivo AfroCaeté em 10 de fevereiro de 2009. Os dois grupos percussivos ainda viram surgir aquele ano o Maracatu Nação Acorte de Airá, ligado ao terreiro de Doté Elias, na Grota do Arroz, em Cruz das Almas – a primeira Nação de Maracatu surgida em Alagoas desde o Quebra de 1912.

Apesar das diferenças, os três maracatus estiveram unidos em novembro de 2011 durante a coroação de Pai Elias como Rei, na escadaria da Igreja de Bom Jesus dos Martírios, em Maceió. Essa união através da música faz começar a florescer a cena do maracatu em Alagoas, algo que já foi até objeto de estudo acadêmico como o “Novo Maracatu Alagoano”.

Outros maracatus

A evolução dos batuqueiros foi acompanhada pelo surgimento de novos grupos de maracatu, quase sempre percussivos, voltados para a música e dança, sem necessariamente vínculo religioso –  a exceção é o Maracatu Raízes da Tradição, no bairro do Eustáquio Gomes, que desenvolveu-se a partir do terreiro Abassá de Angola Oya Igbalé, de Mãe Vera.

Foram iniciativas formadas apenas por mulheres, como o Batuque Yá, surgido em 2012 e sem atividades desde 2016, ou ainda por jovens no ensino médio, como o campus de Marechal Deodoro do Instituto Federal de Alagoas (IFAL) vê desenvolver-se os grupos Maracutaia e o Batuque ao Redor.

Quadro Maracatus

Outros ainda surgiram por influência direta, como o Coletivo Maracatod@s. “A gente foi para o aniversário de 5 anos do Baque Alagoano e vendo aquela festa bonita, a galera tocando, decidimos que, já que eles sabiam tocar, vamos montar um grupo entre as pessoas que não sabem tocar e aí a gente aprende”, conta Élida Miranda, jornalista e sócia-fundadora do Maracatod@s, que também esteve presente em novembro, no I Encontro de Maracatus de Baque Virado – Maceió.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Um ponto a se destacar nessa história é que, além da mobilização pela música, a imprensa se mostrou uma grande parceira da difusão do maracatu e seus grupos neste ressurgimento, com espaço para divulgação de oficinas, apresentações e eventos dos distintos grupos da cidade.

No aniversário do Maracatu Baque Alagoano citado por Élida, por exemplo, a emissora oficial do Estado de Alagoas, a TV Educativa, fez a cobertura especial da festa na Praça Marcílio Dias, no Jaraguá, para uma edição do programa “Vida de Artista”. Grande diferença considerando que 100 anos antes, o Governo do Estado de Alagoas se omitia diante do Quebra de Xangô.

Nenhum tipo de inquérito policial foi instaurado para apurar a violência e um pedido oficial de perdão só foi feito em 2012. Nenhum de seus executores, intelectuais ou materiais, foi punido – pelo contrário, Fernandes Lima dá nome à principal avenida da capital alagoana. Neste sentido, os tambores ainda precisam soar mais forte.

 

*Matéria editada em 27/05/2018 para acréscimo de card e podcast

Comentar usando