Parceria com o Conselho Britânico faz CT&I de Alagoas alçar voos internacionais

Mariana Lima / 11:55 - 30/05/2017

Após sucesso das primeiras ações, pesquisadores alagoanos estão entre os que mais se candidatam a editais para pesquisa na Europa


Em 1866, os produtores de algodão em Alagoas fundaram a Associação Comercial de Maceió para mediar a venda do produto para os ingleses, que empregavam nossa matéria-prima nas tecelagens que moviam a Revolução Industrial. Era preciso organizar os fardos, controlar pesagens, assegurar pagamento igualitário a todos os produtores e fiscalizar o embarque do algodão no Porto de Maceió. A criação da entidade tinha muito mais a ver com controle, mas acabou por impulsionar o desenvolvimento das relações comerciais na cidade e no estado. Lá se vão 151 anos e Alagoas encontra-se mais uma vez diante de uma nova realidade em termos de negócios com a Inglaterra, que também detém potencial para desenvolvimento sem igual.

Parece exagero, mas não é. Desde 2015, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) firmou um termo de cooperação de pesquisa com o Reino Unido, representado pelo British Council (BC), ou Conselho Britânico, para pesquisas e eventos que promovam a cooperação entre cientistas alagoanos e britânicos. Os custos são divididos de forma paritária, pagos pelo Newton Fund e recursos do Governo de Alagoas. A parceria já rendeu ao estado dois workshops, um programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD) na Costa dos Corais, uma pesquisa de dois anos entre o Instituto de Computação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a Universidade de Newcastle sobre o Zika Vírus e – talvez o resultado mais importante – o estímulo aos pesquisadores alagoanos a buscar intercâmbios científicos internacionais.

O Newton Fund chegou em terras brasileiras em 2014 com o prognóstico de investir 45 milhões de libras esterlinas em mobilidade e intercâmbio de pesquisadores, pesquisa e inovação até 2019, através de editais para submissão de projetos. Para saber onde mirar e buscar os melhores resultados, o British Council procurou o Conselho Nacional das Fundações de Apoio à Pesquisa (Confap) para sondagens iniciais. Foi lá que o caminho de britânicos e alagoanos se cruzou.

Arte: Thalita Chargel

Arte: Thalita Chargel

“Esse fórum tem ganho cada vez mais importância, pois é um espaço onde discutimos o que está acontecendo em termos de políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), ficamos sabendo onde estão os recursos, conhecendo novas políticas dos outros estados e a nível federal”, explicou o professor Doutor João Vicente Lima, diretor executivo de CT&I da Fapeal. “E, também, o Confap tem atuado fortemente na parte de intercâmbio internacional, tem uma assessoria que foca neste tipo de tema e foi justamente essa assessoria que fez a ponte com o British Council”, completou.

A apresentação dos britânicos não poderia ter vindo em melhor hora: com a crise econômica, o governo federal e, por consequência, os estaduais, cortaram recursos em áreas como Cultura, Educação e Ciência e Tecnologia antes de avançar sobre outras searas. Apesar de o Estado de Alagoas ter sido praticamente o único no país a não seguir este caminho, os mecanismos de produção científica nas universidades sofreram impacto com este corte no orçamento. A possibilidade de pesquisa internacional com grandes centros do Reino Unido não era algo para se deixar passar.

A primeira chamada do Newton Fund no Brasil foi lançada em setembro de 2014 e recebeu mais de 300 submissões de propostas de vários estados, das quais foram aprovadas 71. “É uma grande oportunidade para nós FAPs [Fundações de Amparo à Pesquisa], porque o intercâmbio internacional é um quesito muito caro – muito, muito caro. Alguns projetos do Research Links e Institutional Links custam, às vezes, 50 a 70 mil pounds [libras esterlinas], que, na cotação de um mês atrás, dá 210 mil reais. Então separar um recurso desses para dar à ação de um grupo entre as centenas de grupos que existem em Alagoas para um intercâmbio é uma coisa realmente fora da nossa realidade”, argumentou João Vicente Lima.

E, de fato, a crise não permitiu que alguns estados honrassem seus pagamentos e eles foram ficando pelo caminho. Enquanto isso, Alagoas conseguiu atender aos chamados já em 2015, conquistando uma oficina de inglês para produção científica no Centro Universitário Tiradentes (UNIT), executada em 2016. Em seguida, veio a aprovação do PELD para pesquisa ambiental com equipe multidisciplinar na Costa dos Corais e a seleção do projeto da Ufal na pesquisa da Zika. Outra vitória foi o evento “Researcher Links Workshop: Higher Education for All”, organizado pelos alagoanos e realizado em um hotel na Praia do Francês, em março de 2017, com grandes mentes nacionais e internacionais.

João Vicente Lima é pesquisador e diretor científico da Fapeal (Foto: Assessoria)

João Vicente Lima é pesquisador e diretor científico da Fapeal (Foto: Ascom Fapeal)

“Para nós é de extrema importância e muito enriquecedor contar com a parceria do estado do Alagoas, e ter pesquisadores alagoanos como beneficiários. Temos certeza que a parceria conosco, para eles, é de suma importância para internacionalização das instituições. No programa Researcher Connect, ano passado recebemos proposta de duas universidades e uma foi contemplada com workshop em outubro. Nesse ano tivemos um workshop do Researcher Links, proposta submetida em conjunto pela Ufal e University of Warwick, com cerca de 20 pesquisadores britânicos e 20 pesquisadores brasileiros”, relatou Luca Magri, do escritório do British Council no Brasil, localizado em São Paulo.

Ele não é o único a comemorar bons resultados. “Do ponto de vista dos ingleses, a executiva que cuida dos projetos tem relatado que chama muita atenção o fato que enquanto muitos estados têm se retirado da parceria, estados com potencial muito maior de colaboração, Alagoas tem mantido e ampliado sua iniciativa. Isso chama muita atenção deles”, celebrou o diretor científico da Fapeal.

O interesse britânico

Ao leigo, pode causar desconfiança esse grande interesse que o Reino Unido dispensa a lugares tão longe de sua ilha. Porém, para quem já se orgulhou em dizer que “o sol não se põe no Império Britânico”, tamanha a extensão de seu domínio nos “tempos áureos” da colonização, a resposta é até bem simples: os britânicos querem manter-se na vanguarda do conhecimento, e o conhecimento é universal.

Arte: Thalita Chargel

Clique para ampliar (Arte: Thalita Chargel)

Os modelos de trabalho do Newton Fund são o Researcher Links e o Institutional Links. O primeiro custeia a realização de workshops científicos que sirvam como plataformas para a colaboração entre cientistas brasileiros e britânicos, com 3 a 5 dias de duração. O segundo são as pesquisas científicas em si, com meses ou anos de duração, que possuem temas específicos para submissão de projetos (como no caso do Zika Vírus) ou que apenas determinam uma grande área, como o edital ainda em aberto na Fapeal para Desenvolvimento Rural e Biodiversidade. Os valores variam de acordo com a especificidade e o edital, mas as chamadas em Alagoas, no momento, lançam recursos de R$ 100 mil e £140 mil, respectivamente.

“Os britânicos jamais colocariam dinheiro ou pensariam um projeto que tomassem o tempo deles se não vissem uma oportunidade para aprender e crescer. Eles jamais fariam isso. Além da expansão do conhecimento deles sobre o mundo, tem um dado importante que temos ouvido: o ganho que eles têm interagindo com o pesquisador brasileiro. O brasileiro tem um certo complexo de vira-lata, de achar que ele não tem muito o que dizer de forma qualificada sobre determinados temas, o que não é verdade”, informou João Vicente Lima.

Como exemplo, o diretor científico da Fapeal apontou para o olhar que Institutional Links lança para o semiárido alagoano, um grande desafio em termos econômicos e de políticas públicas. A convivência com a seca para além da subsistência é um dos principais temas para o planeta hoje, abrangendo também a fixação das famílias no território. Apesar de não ter um espaço geográfico de semiárido, a Inglaterra é um grande destino para imigrantes e refugiados da seca dos países africanos, em apenas um exemplo pontual do impacto desse tema para a população mundial.

“Entender o sertão e o semiárido é estar na fronteira de um debate mundial. O processo de desertificação, como reutilizar a água e o solo, como organizar melhor a gestão dos recursos naturais, as energias renováveis. Em verdade, é uma região que hoje se coloca muito no centro do debate mundial. Algumas das soluções sobre como podemos viver melhor nesse planeta se aplicam muito mais rapidamente ao semiárido”, defendeu João Vicente.

“É de interesse ao Reino Unido expandir seu impacto positivamente ao redor do mundo em relação ao desenvolvimento social, econômico e científico para países em desenvolvimento. Os recursos que entram, pelo Newton Fund, no Brasil são recursos ODA (Official Development Assistance), ou seja, é dinheiro de imposto do Reino Unido, destinado a países em desenvolvimento, e obrigatoriamente deve ser investido em projetos que gerem desenvolvimento social e econômico. Todas as propostas que financiamos devem apresentar claramente como o projeto trará desenvolvimento regional neste sentido”, confirmou Luca Magri.

Os britânicos, o alagoano e o russo

Desta forma surgiu, em 2016, a chamada para a pesquisa sobre o Zika Vírus, em parceria ainda com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e que contemplou projetos em Pernambuco (2), Paraíba (1), Rio de Janeiro (2), Minas Gerais (1), Distrito Federal (1) e Alagoas (1). Foi destinado até 100 mil libras por estado, em cofinanciamento, para propostas que promovam a troca de conhecimentos científicos e acadêmicos, metodologias, protocolos e programas de treinamento sobre o vírus, buscando diminuir impactos sociais e na saúde.

O projeto alagoano foi a primeira grande pesquisa local aprovada na parceria entre Fapeal e British Council. Com o tema “Combinando gamificação e redes sociais para melhorar a prevenção e controle do Zika”, uniu dois velhos pesquisadores conhecidos do mundo acadêmico, mas que nunca haviam trabalhado juntos: o professor Doutor Baldoíno Fonseca, do Instituto de Computação (IC) da Ufal, e o pesquisador Alexander Romanovsky, Pós-Doutor (PhD) em Ciências da Computação pela St. Petersburg State Technical University e atual líder do “Secure and Resilient Systems Group” da Escola de Ciências da Computação da Newcastle University, no Reino Unido.

Baldoíno Fonseca já tem outras experiências de intercâmbio internacional par pesquisas (Foto: Cacá Santiago)

Baldoíno Fonseca já tem outras experiências de intercâmbio internacional par pesquisas (Foto: Cacá Santiago)

“Eu tenho um outro projeto na área de Computação aprovado pelo H2020 e lá tenho colegas que conheciam o Romanovsky, aí foi surgindo essa parceria. Participamos de comitê de programas, de conferências, já temos trabalhos em conjunto. Estávamos conversando sobre a situação da Zika no Brasil, da relação que estava tendo com a microcefalia e do medo que estava causando nas famílias, e vimos que era uma área boa de investigação a ser trabalhada”, relatou professor Baldoíno, que vai conduzir sua parte da pesquisa do próprio IC, onde dá aulas.

Ele é um “pesquisador novo”, como se define, por ter terminado o doutorado em 2012, mas que já mostra o perfil de pesquisador em rede que o diretor da Fapeal apontou antes. O projeto citado por Baldoíno como H2020 é o Horizon 2020, programa de Pesquisa e Inovação da União Europeia aberto a cientistas de várias origens com o intuito de “derrubar barreiras e criar um genuíno mercado único de conhecimento, pesquisa e inovação”, como se define.

Apesar de se conhecerem há quase três anos, este é o primeiro projeto de pesquisa oficial entre Baldoíno e Romanovsky, preparado especialmente para o edital do Newton Fund. A proposta é usar mineração de dados e gamificação para identificar focos de proliferação do mosquito Aedes aegypti e facilitar seu combate, evitando o crescimento da Zika e suas consequências, como as doenças congênitas em recém-nascidos (confira mais detalhes no quadro abaixo).

O projeto tem 24 meses de duração, iniciado em 1º de abril de 2017 tanto na Inglaterra como em Alagoas. Com um pouco mais de um ano, uma versão do aplicativo deve ser disponibilizada para testes, para verificar reposta e engajamento da população.

“Um workshop está sendo planejado aqui em Maceió, na Ufal, para julho, com a presença do Romanovsky para apresentar o projeto aos órgãos públicos, autoridades e assim por diante, para ter mais adesão. Em 2018, devem vir alunos e outros professores de Newcastle”, informou Baldoíno, que também embarca para a Inglaterra no próximo ano, para troca de informações com a equipe britânica.

Ser pioneiro tem um gosto especial para Baldoíno, que procura incentivar seus alunos, colegas e outras pessoas que o procuram para saber como foi o processo seletivo. “Depois que tive esse projeto aprovado, vários outros professores, não só do IC, mas de outros estados também, vieram perguntar como foi o processo. Então você percebe que depois que tem um aprovado, o pessoal vê que é possível e começa a procurar. Eu dou todo o guia que segui, meu projeto é aberto, qualquer um pode chegar na Fapeal e pedir para dar uma olhada”, incentiva.

Atualmente, a Fapeal está com quatro editais para colaboração internacional, sendo três para o Reino Unido e um para União Europeia. Por impacto do sucesso de Baldoíno Fonseca ou não, curiosamente é de Alagoas o maior número de candidatos na Chamada para Expressão de Interesse (ERC) do Conselho de Pesquisa Europeu. A Confap havia recebido até 18 de maio, data da divulgação dos resultados prévios, 57 propostas de 12 estados, sendo 15 apenas de Alagoas, seguidas por nove do Rio de Janeiro.

A fixação de gênios

Foto: Ascom Fapeal / Arte: Thalita Chargel)

(Foto: Ascom Fapeal / Arte: Thalita Chargel)

Para o professor não é surpresa que cada vez mais cientistas alagoanos procurem expandir suas conexões em redes internacionais. No campo da Computação, é possível hoje deixar o estado para pós-graduação (mestrado e doutorado) e voltar a viver em Alagoas trabalhando para grandes empresas e instituições de pesquisa através de home office (escritório em casa). Ao invés de uma fuga de gênios, está se fazendo o caminho oposto e pesquisadores muito qualificados voltam para fincar raízes.

“Antigamente, aquele que queria fazer um curso de computação e ficar aqui no estado, o salário não era bom ou era difícil trabalhar para uma empresa à distância. Hoje em dia pode ser que o salário ainda não seja bom trabalhando aqui, mas ele pode trabalhar para uma empresa de fora. Muitos colegas estão trabalhando para empresas americanas recebendo em dólar, para empresas europeias recebendo em euro e morando aqui, então isso é uma realidade para hoje e ajuda a impulsionar esse cenário que agora vocês percebem”, disse, referindo-se ao sucesso dos editais de pesquisa científica no estado.

A fixação dos gênios é um cenário pretendido pela Fapeal ao continuar investindo em editais e financiamento de produção científica em Alagoas. “É preciso fixar esses pesquisadores, esses doutores por aqui, principalmente no interior do estado. Só em Arapiraca, tivemos a saída de 80 doutores nos últimos seis anos. Se eles não tiverem condições de continuar produzindo, entre outros atrativos, eles dificilmente fixam residências nos municípios do interior e esse investimento na formação de pessoas qualificadas não dá os resultados esperados, como refletir na qualidade da graduação dos futuros profissionais”, instigou João Vicente Lima.

A exemplo do Porto Digital que floresceu no estado vizinho de Pernambuco, é possível que Alagoas aproveite parcerias como esta que se apresenta através do British Council para desenvolver sua área de pesquisa aplicada e serviços em CT&I. O estado já conta com um dos melhores ecossistemas para startups no país, demonstrando que as soluções dos problemas nas pesquisas estão encontrando uma tradução em propostas de negócios. O Polo Tecnológico que toma forma no bairro de Jaraguá, em Maceió, e os polos Agroalimentares no interior são outros sinais positivos, porém, é preciso “paciência”.

“Eu não tenho dúvida nenhuma que isso é um grande incentivador e eu acho que deveria se investir cada vez mais na parte tecnológica, porque o retorno dela é muito grande. Temos vários alunos interessados em montar startups com tecnologias que estamos criando, mas isso não acontece de uma hora para outra, tem que ter paciência. Vocês observam essas conexões, pesquisadores vindo para Maceió, alunos fazendo intercâmbio facilmente e assim por diante, mas para que isso acontecesse, teve toda uma trajetória. Professores à época alunos que saíram e fizeram sua formação, voltaram e assim por diante”, assinalou Baldoíno Fonseca.

Foto: Cacá Santiago / Arte: Thalita Chargel)

(Foto: Cacá Santiago / Arte: Thalita Chargel)


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