, Sábado - 23 de Junho de 2018

 

Pantera Negra e o racismo no universo nerd

Carta Capital / 12:11 - 15/02/2018

Com elencos predominantemente negros, novas produções impulsionam discussões sobre representatividade e preconceitos na cultura pop


T’Challa, mais conhecido como Pantera Negra, é um rei-guerreiro da nação africana fictícia de Wakanda. O herói de rosto africano, interpretado por Chadwick Boseman, é a estrela do filme Pantera Negra, a primeira grande produção cinematográfica derivada dos quadrinhos da Marvel em 20 anos a trazer um protagonista (e um elenco principal) negro para o centro da tela.

Com estreia marcada para 15 de fevereiro no Brasil, o filme, cujo elenco também conta com Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Letitia Wright e Forest Whitaker, já se consolida como um marco da representatividade e levanta questões sobre os desafios e a importância de se discutir questões raciais na cultura pop.

Antes mesmo da chegada da obra à tela grande, o frisson fez Pantera Negra bater o recorde de pré-vendas de ingressos nos Estados Unidos, levou à organização de sessões “black”, prioritariamente voltadas para pessoas negras, e também gerou reações contrárias, com grupos se organizando para dar notas baixas em plataformas de avaliações de filmes como o “Rotten Tomatoes”, em um gesto de incômodo mal-disfarçado com a chegada definitiva da diversidade ao mundo dos super-heróis. Até pouco tempo, este era um meio majoritariamente branco e masculino.

Com mais de três mil membros, o grupo, batizado de “Down With Disney’s Treatment of Franchises and its Fanboys” (“Abaixo o tratamento da Disney para suas franquias e seus fãs” em inglês), já havia se organizado para dar notas baixas ao filme Star Wars – Os Últimos Jedi, por avaliar que a franquia incorporou ideias de “esquerda”. A ideia era fazer o mesmo com o Pantera Negra, mas a iniciativa foi barrada pela própria plataforma, que alegou não existir espaço para “discursos de ódio” no site.

“Respeitamos as opiniões de nosso público, mas não referendamos discursos de ódio. Nossa equipe de segurança e de redes seguem monitorando as nossas plataformas e quaisquer usuários que estiverem engajados em atividades desta natureza serão bloqueados do nosso sistema e seus comentários serão removidos o mais rápido possível”, informou o Rotten Tomatoes.

“Acredito que hoje em dia temos mais espaço para discutir, mas a crítica e a reflexão fazem com que muitos saiam da zona de conforto, é sempre muito complicado”, afirma Anne Caroline Quiangala, criadora do blog Preta, Nerd & Burning Hell, dedicado a discutir a cultura pop de um ponto de vista de intersecção de identidades sociais.

Para muitos outros, porém, a representatividade é bastante bem-vinda.

Nos Estados Unidos, campanhas de financiamento coletivo reunidas sob a hashtag #BlackPantherChallenge já levantaram 260 mil dólares, dinheiro destinado para realização de sessões de cinema gratuitas para crianças afro-americanas.

“É muito legal para as crianças verem heróis e heroínas negras no cinema”, explica Ana Paula Evangelista, que organizou, ao lado do marido, uma sessão fechada do filme voltada para o público negro em São Paulo. “Nós lutamos por isso todos os dias, para que as crianças já cresçam com a visão de que esses heróis e heroínas negras existem”, afirma ela, que espera o comparecimento de cerca de 300 pessoas, de crianças a idosos.

A jornalista Catarina Ferreira, de 21 anos, conta que cresceu cercada de quadrinhos por influência do pai, que era fã, mas dificilmente se via representada em meio aos protagonistas brancos. “Eu já assisti [ao Pantera Negra] e achei incrível. Toda a estética do filme é negra: a cultura de Wakanda, as roupas, os cabelos dos atores”, exemplifica.

O filme mostra o retorno de T’Challa à sua terra natal, a isolada nação de Wakanda, após a morte de seu pai, com as missões de sucedê-lo no trono e retomar seu lugar de direito como rei. A aparição de um antigo inimigo coloca, no entanto, o futuro da nação africana (e do mundo) em risco.

Subvertendo os estereótipos que frequentemente cercam o continente africano, Wakanda nunca foi colonizada. É extremamente desenvolvida, dona de uma secreta tecnologia avançada cuja existência é mantida escondida do restante do mundo, e cuja estética bebe diretamente da fonte do afrofuturismo. A trilha sonora foi idealizada pelo rapper Kendrick Lamar e, na versão brasileira, conta com músicas do Emicida. 

“Wakanda é uma espécie de utopia negra em nossa luta contra o colonialismo e o controle imperialista de terras negras e pessoas negras pelos brancos”, afirmou ao The New York Times a fundadora do evento Black Comic Book Festival, Deirdre Hollman.

T’Challa foi o primeiro super-herói negro a adentrar o universo mainstream dos quadrinhos. Sua primeira versão foi criada por Stan Lee e Jack Kirby em julho 1966, poucos meses antes da fundação do grupo militante Partido Pantera Negra. Atualmente, os roteiros das HQs são assinados pelo jornalista e escritor Ta-Nehisi Coates e ilustrados por Brian Stelfreeze, ambos artistas negros.

Pantera Negra não é a única produção da cultura pop que coloca a questão da representatividade em evidência no momento.

Na plataforma de streaming Netflix, há a série Black Lighting, que traz o herói da DC Raio Negro em uma trama com alta voltagem política, Luke Cage e também a nova série da franquia Star Trek: Discovery, cuja protagonista é uma mulher negra: Michael Burnham, interpretada por Sonequa Martin-Green. Esta última não escapou da fúria dos haters.

Em maio de 2017, após o lançamento do primeiro trailer de Discovery, alguns fãs repudiaram a presença de uma mulher negra como protagonista, bem como a de uma capitã asiática (Phillipa Georgiou, interpretada por Michelle Yeoh). Alguns chegaram a acusar a série de “genocídio branco no espaço”, ainda que existam muitos outros personagens brancos no elenco.

Algo semelhante ocorreu com Star Wars: O Despertar da Força (2015), que trazia um homem negro como um dos principais personagens (Finn, interpretado por John Boyega).

Outro ponto que evidencia a problemática do racismo na cultura pop é a prática de fazer cosplay –fantasiar-se do seu personagem favorito. O fenômeno é comum em feiras e eventos dedicados a celebrar o universo nerd, como a CCXP, a maior feira do gênero do Brasil, que ocorre em São Paulo. A presença negra nos cosplays ainda é, entretanto, a exceção.

Fernanda Alcântara, ex-editora da revista Raça e pesquisadora de quadrinhos na Universidade de São Paulo (USP), observa que não se viu, por exemplo, cosplays do personagem Finn, do Star Wars. “Não encontrei nenhum no CCXP e isso me incomodou bastante. Porque a última franquia do Star Wars trabalha com a diversidade e conversa com esse novo público, mas ainda assim você não consegue atingir essa representatividade. Não vi cosplays do Finn, mas do Paul Dameron (Oscar Isaac), que é um personagem menor em comparação, vi muitos”.

O escritor Fábio Kabral lembra que, por muito tempo, ele não sei via representado na cultura nerd. “O racismo no mundo nerd já começa nas histórias, é tudo muito europeizado, aí já começa o problema. Daí, quando a pessoa vai fazer cosplay, por exemplo, não pode porque os personagens são brancos. Eu nunca fiz cosplay quando era moleque por causa disso. Não tinha personagem para mim. Hoje, quando vejo a questão do Pantera Negra com muita gente preta interessada, empolgada, é natural, porque não tinha como se empolgar antes mesmo”, explica ele, que colabora com o blog O Lado Negro da Força. 

Para Fernanda Alcântara, os produtores de conteúdo pop, como a Marvel ou a DC Comics, estão tentando trabalhar a questão da diversidade já há algum tempo, mas tais ícones têm dificuldade de chegar até a ponta. Ela explica que o mercado da cultura pop no Brasil foi historicamente voltado para a classe média alta, então é compreensível que o público brasileiro tenha sido, por muito tempo, majoritariamente branco.

“Com o avanço da cultura pop como mercadoria e a ascensão da internet,  esse nicho cresceu. Hoje há a presença negra nesses eventos e o debate precisa ser feito. É preciso fazer o debate até onde eles não estão, porque você precisa entender como funciona o racismo no Brasil”, afirma ela, que é mestranda em Ciências da Comunicação na USP. “Aqui, por conta do mito da democracia racial, a gente finge que não precisa discutir isso”.


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