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O terror Um Lugar Silencioso comprova o vigor das imagens no cinema

Diário de Pernambuco / 11:06 - 26/04/2018

Com enorme sucesso no Brasil e nos Estados Unidos, o filme de John Krasinski segue a tradição de uma série de longas


Há 35 anos, o cineasta Ettore Scola narrou um painel da história da França, em um filme sem diálogos, com trama passada dentro de um salão de dança (O Baile). Há mais de quatro décadas, o documentário O país do silêncio e da escuridão, de Werner Herzog, explorava (na linguagem de filme) a rotina de uma cega e surda, professora de deficientes à margem da sociedade. Na mesma linha dos filmes quase sem diálogos, o diretor John Krasinski (mais conhecido como ator de The office), emplacou o terror Um lugar silencioso, que no Brasil, já rendeu R$ 18 milhões nas bilheterias, desbancando até a aventura de Steven Spielberg Jogador número 1.
Nos Estados Unidos, atrás apenas do fenômeno Pantera Negra, o filme com orçamento inferior a US$ 20 milhões, já bateu a casa dos US$ 132 milhões, em dividendos. Protagonizado pela jovem atriz surda Millecent Simmonds e pela mulher do diretor (que também integra o elenco), Emily Blunt o filme emprega uma claustrofobia sonora do peso das vistas em O iluminado (1980), Sob a pele (2014), Eu sou a lenda e Os estranhos (ambos de 2008). Confira outros filmes, criados na calada de dias e noites:
Império dos sonhos (2007)
Sem ser esquemático, na narrativa, o diretor David Lynch radicaliza ao extremo neste filme semelhante a Cidade dos sonhos (também dele). Na base da sensação, uma atriz (interpretada por Laura Dern) fica à mercê da Los Angeles que quer engoli-la. Na base da ilusão da sétima arte, Lynch provoca, com longos silêncios.
O artista (2012) 
Vencedor do Oscar de melhor trilha sonora (além de melhor filme e de direção, para Michel Hazanavicius), o filme de produção contemporânea, mudo e em preto e branco, traz expressivas interpretações de Jean Dujardin (um galã invocado) e Bérénice Bejo, uma anônima lançada à condição de estrela. A trama é iniciada em 1927.
A estrada (2009)
Conhecido pelos longas A proposta e Os infratores, o australiano John Hillcoat adapta mais um sucesso literário de Cormac McCarthy, responsável pelo embrião de Onde os fracos não têm vez. Numa estrada acidentada e pesada (em termos de silêncio), o personagem de Viggo Mortensen tenta garantir o futuro do filho, num mundo pós-apocalíptico, ameaçado pela ação de canibalistas.
Gravidade (2013) 
O filme de Alfonso Cuarón impõe sobrevivência para a protagonista e imersão, para o espectador. Depois de um acidente, a personagem de Sandra Bullock (uma astronauta chamada Ryan Stone) de desprende de um satélite, que ela consertava, e fica à deriva. Pouco barulho (no enredo), por muito: a fita venceu sete prêmios Oscar, entre os quais o de direção, trilha sonora e tratamento de som (mixagem e edição).
Matança necessária (2010) 
O diretor Jerzy Skolimowski coloca Vincent Gallo (Taça Volpi de melhor ator, em Veneza), em situações desumanas, na pele de um homem que vaga, após ser capturado em ação criminosa no Afeganistão. O filme foi destacado com o prêmio especial do júri em Veneza.
 
Morte em Veneza (1971)
Idealizando o começo do século 20, o diretor Luchino Visconti adapta o livro de Thomas Mann, por sua vez, inspirado pela vida de Gustav Mahler. Dirk Bogarde vive, com esplendor, o compositor que vê no jovem Tadzio (Björn Andresen) uma razão para seguir vivendo, mesmo que de modo contemplativo e silencioso.
O pianista (2002)
Uma existência clandestina, durante a Segunda Guerra Mundial, é relegada ao pianista Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) que teve a vida adaptada para as telas, pelo talento de Roman Polanski. Filho de judeus poloneses, entre escombros, o pianista de sucesso ocupa o tempo e o desespero da morte iminente, dedilhando teclas de piano que não faz sequer barulho.
Corrida silenciosa (1972) 
Numa Terra sem vida, a órbita de Saturno contém restos preciosos dos terráqueos, sob vigilância do astrobotânico interpretado por Bruce Dern. Colaborador de Kubrick, o diretor Douglas Trumbull antecipou, na fita dos anos 70, o ano de 2008. A ecologia é tema central da fita que representa o isolamento absoluto de um ser humano.
A festa de Margarette (2002)
A universalidade da trama foi exaltada pelo diretor Renato Falcão: sem emprego, um homem quer festejar o aniversário da mulher. Orçado em US$ 100 mil, em preto e branco e mudo, o filme foi estrelado por Nico Nicolaiewski e Hique Gomes (ambos vistos na peça Tangos & tragédias).
 
A aventura (1960)
Numa viagem por ilha siciliana, Anna (Lea Massarini) é dada por perdida, junto ao grupo de amigos em que está ainda o namorado. Claudia (Monica Vitti), numa busca desenfreada pela amiga, progressivamente, toma o lugar dela. Um dos mais emblemáticos filmes do genial Michelangelo Antonioni.
Dersu Uzala (1975)
Muito silencioso, este longa de Akira Kurosawa, ambientado em fins do século 19, venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, tratando da amizade, na Sibéria, entre um cartógrafo (incumbido de registrar a localidade) e um caçador, mais do que adaptado à região.
Nosferatu — O vampiro da noite (1979) 
O expressionismo de W.F. Murnau (que adaptou a obra de Bram Stoker) tem quase garantida a imortalidade, na maneira pela qual vê prestada homenagem, neste filme de Werner Herzog. Em destaque, a representação do amor de um vampiro (Klaus Kinski) por Lucy (Isabelle Adjani) e cenas quase paradas se apoiam em estética que quase dispensa falas.
 
Rififi (1955) 
Um ousado plano de assalto a cofre de uma joalheria de Paris criou, nas telas, uma sufocante cena de tensão mais de 20 minutos em completo silêncio. A atmosfera noir explorada por Jules Dassin (do clássico Nunca aos domingos) rendeu a Palma de Ouro de melhor diretor ao cineasta grego, que teve entre os seguidores de estilo medalhões do porte de Quentin Tarantino.
Persona — Quando duas mulheres pecam (1966) 
No 27º filme de Ingmar Bergman, uma atriz (Liv Ullman) revê as emoções desgastadas no trabalho, numa isolada ilha em que, muda (por opção), goza apenas da companhia da enfermeira Alma (Bibi Andersson).

 


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