, Quarta-Feira - 19 de Setembro de 2018

 

O tapa

Redação O DIA ALAGOAS / 11:37 - 13/05/2018


Eis que um pesquisador experiente da renomada Fundação Getúlio Vargas (FGV) descobre por acaso no “Portal da Transparência” dos Estados Unidos um documento sobre uma reunião do presidente do Brasil com seus assessores de inteligência. A situação já seria polêmica em si, mas piora quando o teor da conversa registrada em 1974 pela famosa central de espionagem americana, a CIA, revela como o presidente Geisel autorizou a manutenção da política de assassinatos a adversários políticos da ditadura iniciada por seu antecessor, o general Médici. E ganha contornos ainda mais estarrecedores quando um pré-candidato à presidência em 2018, no Brasil democrático, compara a situação a um “tapa no bumbum de um filho”.

O tapa aqui é outro e não é nada leve. É o choque ao termos provas sobre assassinatos políticos através de medidas democráticas de transparência de outra nação. Um país, por sua vez, que apoiou governos tirânicos por toda América Latina para manter seu quinhão de terra intacto da influência comunista e que segue idolatrado como modelo a ser seguido – ironicamente – por uma parte da população brasileira que defende a volta da ditadura militar. Essa mesma flagrada autorizando políticas de exceção contra inimigos “subversivos e terroristas”.

Cada vez mais é preciso olhar para a História para evitar cometer os mesmos erros. O tal pré-candidato diz que o documento é falso e um factoide contra a campanha dele. Pediu que mostrassem o documento. Pois está lá, em uma postagem pública no Facebook do pesquisador Matias Spektor de 10 de maio, o link para o relato original no site do Departamento de Estado americano. Ali, a prova pedida, a transcrição da conversa onde Geisel toma conhecimento de 104 assassinatos, mantém a política e diz que as execuções precisam ser aprovadas por João Figueiredo, o general que viria a sucedê-lo como presidente.

A mesma internet e o mesmo Facebook estão quase intransitáveis com os defensores do tal pré-candidato da ditadura chamando tudo de farsa, de desespero dos outros grupos, que bom mesmo era na ditadura e que “gente de bem” não morria. Olhando para tudo isso, surge uma parte engraçada nessa história: imaginar como e quando vai ser o momento em que essas pessoas perceberem que na vida em uma ditadura, como eles tanto querem, a primeira coisa a cair vai ser o acesso fácil e ilimitado à internet. A censura na comunicação não é apenas da imprensa, mas entre eles mesmos. Será outro tapa, dessa vez na cara deles. E aí, vão chorar aonde?


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