O que espera quem espera Lula

Mariana Lima / 5:25 - 25/08/2017

Sentimento mais comum é de gratidão, mas há espaço para crítica construtiva e até “abraço a Moro”


lula penedo

Em Penedo, mulher entrou no Rio São Francisco para cumprimentar Lula antes mesmo que ele desembarcasse (Foto: Ricardo Stuckert)

Quando Lula desembarcou em Penedo, Arapiraca e Maceió esta semana, centenas de pessoas esperavam por ele. O mesmo foi visto na Bahia, em Sergipe e Pernambuco até agora. Mas quem são essas pessoas, o que as move a ficar horas em pé no sol ou dentro de um ginásio barulhento à espera de um político? Em geral, o sentimento é gratidão e apoio ao ex-presidente, o que não afasta defesa de que se investigue desvios e que culpados – de todos os partidos – sejam punidos.

Antônio Francisco saiu logo cedo de Campo Alegre na última quarta-feira (25) e foi com a mãe, esposa e sobrinhos para Arapiraca. Ele chegou antes das 7h para esperar a chegada do “meu compadre Lula”. Posicionou-se no trecho entre as arquibancadas do Ginásio João Paulo II para ter uma visão clara da frente da praça, onde se esperava que parasse o ônibus que trazia o ex-presidente.

“Eu quero filmar direitinho a hora que ele descer do ônibus e entrar aqui, quero ter isso guardado pra mim. O tempo dele foi muito bom e se pudesse, eu queria apertar a mão dele por tudo o que minha mãe conseguiu com saúde quando ele era presidente. Eu não tive nada dos projetos dele, nada, mas minha mãe aproveitou muito com remédio e tratamento de saúde”, contou o agricultor, enquanto o sobrinho confirmava com a cabeça.

“Não teve ninguém igual a meu compadre por nós!”, arrematou, enquanto ficava visivelmente emocionado. Se lágrimas iam rolar, não dá para saber, pois o som de atabaques, tambores e agogôs do Afoxé Mirim irrompeu ginásio adentro, chamando atenção do agricultor. Essas mesmas crianças tocariam na chegada de Lula e já apareceram em vídeos até nas redes sociais do petista.

Do lado de fora do ginásio, pouco depois das 9h, a estudante Renata Tenório aguardava ansiosa a chegada de professores e amigos do campus da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em Santana do Ipanema, criado na política de expansão do ensino superior do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Vim como fã mesmo, por tudo o que ele é e o que ele fez. Vim lá de Palmeira dos Índios, sozinha, saí 7h debaixo de chuva, só avisei a meu pai ‘vou ali’”. Pergunto se o pai sabe que ela foi ver Lula, ela nega. “Sabe nada, perguntou ‘oxe, onde vai tão cedo?’, mas ele ia achar perda de tempo, só que eu ia vir de qualquer jeito”. Pergunto, então, o que ela diria aos críticos e opositores de Lula. “Só uma coisa: relaxem, porque ele vai voltar”, e ri.

“Todo mundo tinha comida”

Outro grupo que estava logo cedo no ginásio em Arapiraca era o casal Antônio e Ivone Ribeiro, junto com a amiga Maria Aparecida Alves. Prestes a completar 80 anos, Antônio Chico, como é conhecido, estava ansioso pela chegada do “presidente”, como se referiu a Lula a cada momento.

“Eu estou aqui para agradecer, só agradecer. Não por mim, que graças a Deus não precisei dos programas que ele trouxe, mas pelo que ele fez pelos outros. As pessoas tinham uma casa, tinham o que comer. Quem antes tava na porta do meu supermercado pedindo dez centavos depois tinha dinheiro pra comprar comida ou conseguiu ter o que comer e não precisar ficar nesses empregos perigosos ou se humilhando. Não senhor, cada um tinha o seu e todo mundo conseguiu melhorar de vida”, relatou.

Maria Aparecida, Ivone e Antônio não queriam foto, apenas "dar forças" a Lula (Foto: Cacá Santiago)

Maria Aparecida, Ivone e Antônio não queriam foto, apenas “dar forças” a Lula (Foto: Cacá Santiago)

Dona Ivone também estava animada. “Só saio quando eu puder vê-lo. Meus filhos estão no trabalho e vão tentar dar uma fugida ou sair mais cedo para vê-lo também”, contou.

Estavam da arquibancada, sabiam que não iam conseguir uma foto com o presidente ou apertar sua mão, mas apenas vê-lo bastava. “Quero mandar força para ele. Para o Lula, só desejo graças e coisas boas”, desejou Dona Ivone, esperançosa e com um largo sorriso, compartilhado pelo marido e pela amiga.

Mas e se o juiz Sérgio Moro chegasse aqui também, Dona Ivone? Só assim o sorriso dela some. “Dele eu quero distância”, conta, mas o marido não concorda. “Eu daria um abraço nele!”. A mulher não entende, a amiga recrimina, alguém logo atrás faz o sinal da cruz.

Mas Antônio Chico explica. “Eu daria sim um abraço nele, porque o juiz Moro ta fazendo o trabalho dele que é julgar e punir quem deve. Só que eu ia dizer a ele pra ver os dois lados da moeda, porque ele ta vendo e julgando um lado só. A justiça e a punição tem que ser a mesma para os dois lados”, defendeu o comerciante.

Nova e antiga militância

Pablo (camisa rosa) e Nina com Sandro, amigo militante (Foto: cortesia)

Pablo (camisa rosa) e Nina com Sandro, amigo militante (Foto: cortesia)

O sentimento da autocrítica e reconhecimento de erros também era compartilhado pela arquiteta Nina Magalhães, 30. Moradora de Maceió, ela preferiu estar na quarta-feira em Arapiraca, sua terra natal. “É histórico ter o Lula em minha cidade, é uma coisa que vai ficar marcado mesmo e eu tinha que estar aqui”.

Militante e filiada ao PT, ela também não concorda com algumas ações do partido e lembra que o próprio Lula já reconheceu erros e fez autocrítica, porém, assim como Antônio Chico, é preciso olhar para todos os partidos em busca de justiça. Por isso concorda: Lula precisa sim fazer esta Caravana, uma viagem para reabastecer forças.

“Recarregar as energias dele e as nossas, também. Porque quem milita na cultura e nos movimentos sociais está vivendo um momento difícil, de discussão muito pesada, de embates violentos. Então isso é bom par anos. Vê-lo aqui, na minha terra, vai recarregar minhas energias também, porque a luta continua e ano que vem promete”, desabafou.

Amigo de Nina, o também arquiteto Pablo Fernandes,36, também preferiu sair de Maceió com a mãe – “uma médica de esquerda, olha que coisa rara”, conta – para prestigiar a solenidade do título de Honoris Causa de Lula. De bandeira em punho, ele observava a movimentação e também os jovens do movimento estudantil, o qual ele já integrou. “Lula é Lula, é uma grande figura e a gente quis estar aqui em Arapiraca pelo momento, a cerimônia e o que representa”, disse Pablo.

Duas gerações de estudantes

Pregentino, seu cartaz e o colega de faculdade Emanuel, à espera de Lula (Foto: Cacá Santiago)

Pregentino, seu cartaz e o colega de faculdade Emanuel, à espera de Lula (Foto: Cacá Santiago)

Os presentes para Lula e cartazes já são figurinhas carimbadas nesta Caravana da Esperança. Em Alagoas não foi diferente. Desde cedo, Pregentino Severino César Neto, 43 anos de idade, morador de Girau do Ponciano, segurava alto ou em cima da cadeira, de forma bastante visível, uma cartolina onde se lia “Obrigado Lula pela Ufal Arapiraca”. Ele queria uma oportunidade para agradecer pessoalmente o presidente.

“Antes a gente não tinha condição, a única coisa que me deram na mão foi uma enxada. Então quando chegou a Ufal em Arapiraca, foi aquela coisa. Fui da primeira turma de Agronomia, em 2006, ia e voltava de Girau todo dia para aula depois do trabalho, e hoje eu sou Mestre em Agronomia. Isso eu devo a ele, foi o Lula quem me deu essa chance”, contou enquanto lágrimas apareciam no canto dos olhos.

Mas esse não é o único item na lista de agradecimentos de Pregentino. “Minha filha Édyla passou com 18 anos em Serviço Social, no campus da Ufal em Palmeira dos Índios, já concluiu o curso e hoje trabalha na área. Ela saiu da escola direto para a faculdade, teve a oportunidade que não tive, assim como outras pessoas puderam aproveitar essa chance de uma faculdade perto de casa. Esse aqui do meu lado, mesmo, já é Doutor, e começou comigo no campus de Arapiraca”, contou, apontando apontando o amigo Emanuel Henrique, de 30 anos, recém Doutor pela Ufal em Maceió.

Quando Lula entrou no Ginásio João Paulo II, a multidão foi ao delírio e um grupo que estava na área interna avançou até o palco. Pregentino também foi, de cartaz em punho. Quando a organização conseguiu controlar a situação e as pessoas começaram a voltar a seus lugares, foi possível ver o pai de Édyla, Mestre em Agronomia, mostrando o cartaz e conversando com Lula. Um aperto de mãos e um abraço efusivos depois, Pregentino voltava a seu lugar, sorriso largo no rosto.

Lula chega ao ginásio e Pregentino ergue seu cartaz em meio à multidão (Foto: Cacá Santiago)

Lula chega ao ginásio e Pregentino ergue seu cartaz em meio à multidão (Foto: Cacá Santiago)

 


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