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Mulheres e quadrinhos: avanços no campo de batalha

Mariana Lima / 1:15 - 08/03/2016

Assim como em outros campos sociais e do mercado, leitoras e artistas ganham espaço na 9ª arte


Histórias em quadrinhos não são produtos apenas para crianças ou para homens adultos fãs de super heróis. A produção de quadrinhos é vasta e extremamente diversificada, abrangendo desde as grandes publicações americanas de Marvel e DC Comics, com seus Homem Aranha e Batman, até o Salsicha em Conserva, site brasileiro sobre “quadrinhos de boteco e outras histórias”, conduzido pela cartunista Carolina Ito, indicada ao Troféu HQ Mix 2015, principal premiação brasileira para quadrinhos.

Chega a soar um chavão dizer que a internet está agitando as coisas no mundo dos quadrinhos, mas é verdade. Não se pode negar o poder que Marvel e DC têm sobre o mercado – afinal, seus quadrinhos estão pautando cinema, TV e Netflix – mas há muita produção em tirinhas, zines, sites especializados, editoras menores e produções com financiamento coletivo (feitas com apoio de fãs e seguidores). Nesse espaço, as mulheres vêm demonstrando uma força enquanto leitoras e enquanto cartunistas que, finalmente, chamou atenção das grandes editoras.

É icônico o resultado de uma pesquisa de público realizada pela DC Comics, já nos anos 2010, sobre seu público consumidor de revistas. Sim, 93% deles eram homens e estavam na faixa dos 25-40 anos, como ela e a Marvel vinham mirando, porém os 7% apenas de mulheres mostrou uma outra vertente.

Mesmo para a criadora da Mulher Maravilha, era preciso parar de usar as personagens femininas apenas para atrair os homens. O mundo mudou e aquelas consumidoras femininas também queriam se ver nas histórias, serem igualmente representadas como heroínas.

O resultado? Tanto Marvel quanto DC mudaram o foco de algumas personagens e deram mais espaço para títulos com mulheres e garotas. A Batgirl perdeu o ar de “a garota que acompanhava o Batman” e ganhou ares e roupas mais adolescentes (leia-se não tão justas e menos sérias), ligada nas redes sociais e empoderada, gerando identificação com adolescentes e público jovem feminino. O mesmo público que lançou uma efusiva resposta a uma polêmica envolvendo Batgirl e Coringa e uma situação de abuso sexual, que fez o autor da capa e a DC retratarem-se. O girl power, ou poder feminino, em ação.

Novo unifrome foi apenas uma das mudanças que aproximaram a Batgirl das adolescentes

Novo unifrome foi apenas uma das mudanças que aproximaram a Batgirl das adolescentes

Kamala Kahn de Miss Marvel

Kamala Kahn de Miss Marvel

Do lado da Marvel, uma grande surpresa foi o quadrinho solo da Miss Marvel em 2014/2015. Kamala Kahn tem 16 anos, mora em Nova Jersey, é filha de imigrantes paquistaneses, muçulmana e descobre ter super poderes. Ela então resolve ”salvar o dia” assim como fez Carol Danvers, a Miss Marvel original e de quem Kamala é fã.

Atenção: o que foi descrito acima não é apenas o pano de fundo de uma história em quadrinhos, mas um movimento que o público, masculino e feminino, busca em seus heróis, que é a identificação e representatividade.

Outro aspecto muito importante sobre a Miss Marvel de Kamala Khan, mais um espelho de representatividade, é que sua editora, a americana Sana Amanat, também é muçulmana, filha de imigrantes e teve que batalhar seu caminho no mercado de trabalho da indústria gráfica da mesma forma que outras mulheres ganham espaço em outros mercados.

O mercado dos quadrinhos

Como dito no primeiro parágrafo, há no Brasil uma grande premiação voltada para os profissionais dos quadrinhos no país, o Troféu HQ Mix. Em 2015, o prêmio já havia gerado controvérsia ao ter apenas 13% de mulheres entre seus indicados, quando lançou como arte de divulgação peças explorando o corpo feminino e o convite “venha bombar”. A resposta também veio em peso de cartunistas, blogs e sites especializados. A organização teve que se retratar.

Tirinha de Carolina Ito em resposta ao "venha bombar" da HQ Mix

Tirinha de Carolina Ito em resposta ao “venha bombar” da HQ Mix

O “só 13%” voltou à tona no começo de 2016, quando o Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, um dos mais tradicionais na área, anunciou seus 30 finalistas para o Grande Prêmio. Nenhuma mulher entre os indicados.

Esses casos levantaram a questão no Brasil e no mundo: há poucas mulheres fazendo quadrinhos ou há pouco espaço para essas profissionais e suas obras?

Uma breve pesquisa na internet revela que há garotas e mulheres fazendo quadrinhos, sozinhas ou em coletivos, impressos e virtuais. Elas trabalham em projetos próprios ou para outros autores. É o caso da maceioense Luana Lins, de 26 anos, que trabalha como ilustradora de livros e histórias em quadrinhos.

Luana Lins, ilustradora em Maceió (foto: cortesia)

Luana Lins, ilustradora em Maceió (foto: cortesia)

“Como ilustradora, acredito que hoje já é bastante comum mulheres trabalharem nessa área. Ainda encontramos mais homens, só que o trabalho é sobre o traço, depende muito se o cliente procura determinado traço para o seu projeto”, conta Luana.

Grande fã de quadrinhos, mangás e miniaturas, guarda suas aquisições no quarto que serve como studio de trabalho. Essa diversidade também se aplica ao seu trabalho.

“Curto ilustrar todos os tipo de histórias quadrinhos. Recentemente eu trabalhei em um livro infantil com 20 páginas, todas ilustradas, e atualmente estou colorindo um livro que vai ser uma mistura de quadrinhos e livro infantil”, diz Luana, antes de aproveitar e dizer que a loja Mondodalua entra no ar em breve, com perfis no Facebook e Instagram.

Estudante de Design, Luana também aponta que os homens são maioria na sala de aula. “Estou terminando a faculdade e na minha turma são 5 mulheres e 30 homens. Acredito que poucas mulheres buscam essa área, mas a cada dia cresce o número”.

Studio de Luana, onde seus trabalhos ficam lado a lado de suas HQs

Studio de Luana, onde seus trabalhos ficam lado a lado de suas HQs

O público feminino

Essa diferença do público feminino e masculino também foi percebida por Luana no ano em que trabalhou em uma loja de quadrinhos em Maceió. A maioria do público ainda é formada por homens, colecionadores de HQs que já sabem o que vão comprar quando chegam à loja.

Para Márcio Omena, dono da loja Comic Land, o público feminino está presente sim, mesmo que menor. O grupo de whatsapp para divulgação de novidades da loja tem 20% de mulheres, ávidas consumidoras. No entanto, ele destaca que elas preferem o mangá.

“Os japoneses foram muito espertos nessa área de direcionar suas obras, bem mais espertos que os americanos. Eles têm mangás voltados especialmente para o público adolescente masculino, público adolescente feminino, para homens e para mulheres. Assim eles conquistam os leitores. O grande interesse das clientes adolescentes aqui na loja é o mangá”, conta Márcio, que, por sinal, é o autor do livro que Luana Lins ilustra atualmente.

Sobre o interesse de garotas por quadrinhos, ele é enfático em dizer que tudo depende da apresentação e direcionamento. “Quando criança, o pai direciona o menino para os super heróis, mas não fazem o mesmo com as meninas. Elas vão muito para a Turma da Mônica e, quando crescem, abrem os olhos para os mangás”.

Protagonistas femininas em títulos presentes na Comic Land

Protagonistas femininas em títulos presentes na Comic Land

Quanto à questão da representatividade e crítica à exploração do corpo feminino nos quadrinhos, Márcio concorda que há exageros, porém não se pode depositar a responsabilidade totalmente nos editores.

“Existe a sexualização do corpo feminino da mesma forma que existe a cobrança do homem bombadão. O público não quer um herói barrigudo e mal acabado, ele que todo mundo com o corpo perfeito. Mas a questão do corpo feminino realmente chama mais atenção”, disse.

Vendas virtuais

Nas prateleiras da loja, algo que acontece com quem segue o mercado: mais espaço para o que chama mais atenção. Marvel, DC, mangás, Vertigo e algumas editoras menores, porém conhecidas dos quadrinhos. Há presença de personagens femininas fortes, porém destes selos maiores ou mais famosos.

Retomando a questão levantada sobre a produção e o espaço de quadrinistas mulheres no Brasil (e no mundo), ainda é mais fácil encontrar suas obras em eventos especializados de quadrinhos, como o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) ou a Comic Com Experience (CCXP), que realiza em São Paulo um evento similar à Comic Com de San Diego, o maior e mais famoso evento da cultura geek do mundo.

Muitas dessas obras não chegam às bancas de revista, lojas de quadrinhos (comic shops) e livrarias. As vendas acabam sendo feitas online e dependem da propaganda boca a boca de leitores, fãs e sites ou blogs especializados. Foi assim que Mayara e Anabelle alcançaram o sucesso.

Capa de Mayara & Anabelle, volume 1

Capa de Mayara & Anabelle, volume 1

Não se engane ou se espante: esse quadrinho de “girl power, magia e katana” foi feito pelo cearense Talles Rodrigues e o alagoano Pablo Casado, ou seja, dois caras que contam as aventuras de duas mulheres jovens, servidoras do órgão do governo que cuida das atividades fora do comum, controlando demônios nas ruas brasileiras.

O que podia parecer forçado e um tiro pela culatra conquistou o público feminino pela força da representatividade. De acordo com Talles, “as meninas”, como são chamadas carinhosamente, são fortemente baseadas em pessoas que eles conhecem na vida real. O fato de falarem e se vestirem como mulheres normais de Fortaleza e de São Paulo, com suas gírias e comportamentos, também cativou o publico.

“Quando do lançamento do volume 1 na CCXP em 2014, uma moça folheou a HQ e comentou conosco que tinha achado interessante, pelo pouco que leu ali, algo protagonizado por duas mulheres e produzido por dois homens que não soava forçado. E esse discurso foi o de diversas outras leitoras. Então eu imagino que sim, pode ter rolado uma resistência, mas que não se confirmou, visto o tanto de identificação que as personagens conseguem gerar entre o público feminino”, completou Pablo.

“Mayara e Anabelle” publicou o volume 2 em 2015, após uma bem sucedida campanha de financiamento coletivo. O volume 3 está em andamento, para alegria dos e das fãs.”Para os financiadores as meninas foram muito bem vindas. O público de M&A são leitores de HQ que recebem de braços abertos a diversidade de gêneros e de localidade que existe em M&A”, diz Talles.

A imersão no universo feminino de suas personagens e, agora, de suas fãs, colocou Pablo e Talles em contato direto com a discussão sobre representatividade feminina na cultura pop como um todo (HQs, filmes, jogos, seriados). Mesmo sendo homens, eles ficam felizes em ver que seu trabalho tenha sido abraçado pelas mulheres e contribua para o debate.

“A carência de personagens femininas não estereotipadas não é algo acessório, é uma necessidade de representatividade e de mercado. As mulheres consumem cultura pop e querem se ver nas histórias, mas não apenas como coadjuvantes e interesses românticos/sexuais. Tratar o protagonismo feminino com respeito e seriedade foi algo que aprendi com Mayara & Annabelle e nossas leitoras”, defende Pablo Casado.

Já Talles destaca a representatividade. “Sempre fui muito fã de personagens de quadrinhos, séries, desenhos, etc. A gente se apropria desses personagens e utiliza esses arquétipos pra gente, seja pra explicar coisas da nossa própria vida ou como identificação. Mayara & Annabele me mostra como isso acontece do outro ponto de vista. É muito legal ver as leitoras e leitores de M&A se enxergando nas meninas e construindo em cima disso, através de fanarts e coisas assim”.

Outras leituras

Orphan Black foi sucesso de vendas em 2015

Orphan Black foi sucesso de vendas em 2015

A lista de heroínas que chamaram atenção nas publicações americanas em 2014 e 2015 se estende: Thor “virou” mulher, a Mulher Aranha engravidou (e teve que enfrentar críticas por continuar trabalhando), duas revistas estreladas por mulheres, Orphan Black e Dark Knight III, entraram para a lista das revistas mais vendidas no século XXI.

Entre os quadrinhos brasileiros, muitos nomes, muitas obras e também organização: as buscas são facilitadas por páginas como Mulheres nos Quadrinhos (Facebook e Tumblr), Lady’s Comics e Minas Nerds, com seus Guia dos quadrinhos das minas na internet, apenas para começar.

A batalha segue em curso.


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