, Quinta-Feira - 15 de Novembro de 2018

 

Muito mais que educação: os desafios para a reciclagem

Mariana Lima / 9:00 - 14/05/2018

O acesso à informação tem grande peso nessa jornada, porém reciclar exige conscientização, infraestrutura, mudança de comportamento e disciplina


Pergunte a uma criança de 4 anos e ela vai saber o porquê de desligar a torneira enquanto escova os dentes: para não desperdiçar água. A partir dos 6, ela já pode saber o conceito de reciclagem como o reaproveitamento de coisas que poderiam ir para o lixo, mas podem ser usadas de outra forma. Aos 8, certamente ela já viu na escola que dá para reciclar produtos de papel, plástico, metal e vidro, separando do lixo comum que é levado no caminhão pelos garis. A geração pós ECO-92 teve conteúdos de educação ambiental na escola, mas isso não foi traduzido em mudança de comportamento real para a sociedade brasileira.

Em algumas pessoas, há a vontade de “fazer diferente”, porém os meios para este fim ainda parecem difíceis ou, literalmente, distantes. Outras até convivem com estrutura para coleta seletiva básica (separação entre o lixo seco, reaproveitável, e o lixo molhado, orgânico), mas não o fazem por falta de tempo/disciplina/interesse, as desculpas são várias. No último ano, a capital alagoana se tornou um caso de estudo interessante sobre o porquê de, na prática, ser tão difícil reciclar.

Em 24 de maio de 2017, a Prefeitura de Maceió assinou um contrato com quatro cooperativas de catadores de recicláveis para realizar a “coleta seletiva de porta a porta” na cidade. Por mais que hajam críticas à dimensão e aplicabilidade desta proposta, dois fatos a seu respeito não podem ser negados: houve aumento considerável no volume de resíduos sólidos coletados pelas cooperativas e, ao mesmo tempo, muitos moradores sequer sabem que há coleta seletiva na cidade.

Na prática
“É mais difícil do que se imagina fazer reciclagem. Por exemplo, nem todo plástico é reciclável, borracha não é, tem que ter um cuidado para limpar a embalagem antes de colocar na lixeira. São muito mais detalhes do que apenas lixo seco e lixo molhado, aí a gente vai tentando se educar”, explica o publicitário Anderson Costa, morador de um condomínio no Barro Duro que passou a contar com a coleta seletiva neste último ano.

Código de cores internacional para reciclagem (Foto: reprodução internet)

Código de cores internacional para reciclagem (Foto: reprodução internet)

Anderson não lembra ao certo há quantos meses convive com essa novidade positiva e trabalhosa, apenas que tenta a cada dia acertar. “Minha esposa participou de uma reunião no prédio, recebemos um folheto sobre o que é e não é para reciclar e procuramos separar em casa e colocar na lixeira certa aqui no condomínio, mas isso é mais difícil com a nossa funcionária, por exemplo. A gente explica sobre a separação, como faz, a importância, mas ela acaba juntando tudo no lixo orgânico e quando a gente vê, já é tarde. Eu queria dizer que aqui em casa nós fazemos a separação para coleta seletiva, mas ainda é um processo em andamento”, revela o publicitário, de forma realista e sincera.

A cada semana, o condomínio de Anderson Costa é visitado por integrantes da Cooperativa dos Recicladores de Alagoas (Cooprel) – Benedito Bentes dentro da coleta seletiva domiciliar acordada com a Prefeitura de Maceió. E isso, em si, já burla as “normas oficiais” propostas. No papel, 11 bairros da capital – os arredores da orla, da Avenida Menino Marcelo e o Benedito Bentes – foram divididos entre as quatro cooperativas para esta fase inicial da reciclagem, e a vizinhança de Anderson ficou a cargo da outra unidade da Cooprel, na própria Serraria. Aí entra outra dificuldade prática sobre a reciclagem: apesar do nome “coleta domiciliar”, é preciso que o responsável do prédio ou casa ligue para uma cooperativa que atenda sua área para que o material seja coletado. Os catadores vão aonde são chamados e, se preciso, estendem um pouco as fronteiras estabelecidas no convênio. Sem ligação, não há coleta ou reciclagem.

É por isso que algumas pessoas – leigos e estudiosos sobre a questão – dizem que a coleta seletiva em Maceió é “para inglês ver”. Tom Ferreira, arquiteto urbanista e especialista em Educação e Meio Ambiente, mora na Ponta Verde e não vê atividade das cooperativas em sua vizinhaça. Seu prédio é atendido não devido ao convênio, mas a uma parceria de “três ou quatro anos” com a Cooperativa dos Catadores da Vila Emater (Coopvila), coincidentemente a mesma responsável por sua área junto à prefeitura.

“Não enxergo um plano de coleta em Maceió, o que vejo são as cooperativas indo fechar planos de coleta individual e de forma bem rudimentar, separando apenas orgânico de inorgânico. Não há uma proposta de educação ambiental para reciclagem ou uma campanha de conscientização efetiva por parte da prefeitura. Só temos uma ou outra disciplina na escola ou então ações pontuais. É preciso mais que isso para mudar comportamentos e, sinceramente, são poucas as crianças que conseguem fazer seus pais mudarem o comportamento em casa”, argumenta.

Ferreira também aponta que outro aspecto a se considerar em todo o estado, e não só na capital, é a forma rudimentar como a reciclagem é abordada enquanto atividade econômica.

“Seria interessante que Alagoas tivesse centros de reciclagem propriamente ditos. Não só a separação para aproveitamento, mas um local que realmente fizesse a transformação das garrafas PET em uma nova folha de plástico para servir de matéria-prima à indústria, por exemplo. Porém, reconheço que é uma atividade cara, que demanda expertise e equipamentos, e que é preciso ponderar a viabilidade ambiental porque utiliza um grande quantidade de recursos, como água e energia. Sabemos que o preço a longo prazo é barato, pois estamos lidando com recursos naturais finitos em nosso planeta”, alerta Tom Ferreira.

Em busca de um carroceiro

Rose junta os recicláveis em casa, mas não sabe onde entregar (Foto: Cacá Santiago)

Rose junta os recicláveis em casa, mas não sabe onde entregar (Foto: Cacá Santiago)

No mesmo contexto do consumo consciente e preservação da natureza, a estudante de Geografia e artesã Rose Lima realiza a separação do seu lixo seco. Desde 2009, ela conseguiu empenhar a mãe e a tia nesse caminho. Tudo é separado em um canto do quintal (e organizado de forma a não acumular água para proliferação do Aedes aegypti): caixas de longa vida, plásticos, vidros, latas. Quando a pilha fica grande, as três mulheres partem em busca de um carroceiro. Moradoras do bairro do Vergel e sem carro próprio, esta foi a forma que encontraram para poder reciclar.

“Nos tempos que tinha um galpão de reciclagem aqui perto, a gente até vendia, mas em geral acordamos às 5h e ficamos rodando as ruas aqui perto atrás de um carroceiro, pedindo que ele recolha as coisas. Às vezes levam tudo, às vezes não e volta uma parte para formar pilha do quintal. Também separamos pilhas, aliás, e eu colocava numa caixinha lá na Reitoria”, conta Rose.

Apesar de navegar entre acadêmicos do meio ambiente, Rose e a família não sabiam que havia coleta seletiva domiciliar em Maceió ou como acionar uma cooperativa para buscar o material em sua casa. Uma novidade que lhes poderia ser útil é o Ecoponto do Dique Estrada, uma estrutura para receber pequenas quantidades de resíduos que se situa a alguns metros de sua casa, mas da qual ela não tinha conhecimento até esta matéria.

“Quando isso foi inaugurado? Não tem nenhuma divulgação no bairro, nenhuma sinalização”, argumenta. A resposta para sua pergunta é 18 de janeiro de 2018, com a presença do próprio prefeito Rui Palmeira e o então superintendente de Limpeza Urbana (Slum), Davi Maia. O espaço funciona das 7h às 18h e recebe restos de podas de árvores, até 1 metro cúbico de resíduo de construção civil e restos de móveis. Em tese, é ponto de entrega também de material reciclável – é o último item na grande placa explicativa do Ecoponto – porém, na prática, isso não acontece.

“A gente era pra receber recicláveis, mas ainda não tem uma definição sobre qual cooperativa ia vir buscar, então não estamos recebendo. Aqui funciona bem com o material de poda, que a empresa [Viva Ambiental] leva pra fazer estrume, e para construção civil, metralha. Temos um cadastro dos carroceiros e eles têm que cumprir a meta de 75 viagens pra cá ao invés de jogar lixo na rua pra ganhar uma cesta básica da prefeitura no fim do mês e eles cumprem direitinho. Mas material reciclável a gente não recebe ainda não”, revelou um dos funcionários do Ecoponto do Dique Estrada, que é bastante organizado, com acessibilidade para carroças e funciona ao lado da Guarda Municipal no bairro, de domingo a domingo.

Ecoponto do Dique Estrada recebe materiais diversos, menos recicláveis (Foto: Cacá Santiago)

Ecoponto do Dique Estrada recebe materiais diversos, menos recicláveis (Foto: Cacá Santiago)

Rose não aceitou muito bem a notícia. “Gente, então é a mesma coisa que não ter coleta! Ao menos eles recebem entulho e poda de árvore”, desabafa a moça. No fim, a solução para seu caso, dentre as possibilidades ofertadas pela Slum e a Prefeitura, seria o Ponto de Entrega Voluntária (PEV) instalado na Praça da Faculdade, porém isso não é viável em termos de logística.

“Não tenho carro e já imaginou ter que levar essas coisas de ônibus até lá? Ainda deixo uma coisa ou outra, pequena, se estou andando por aquela área, mas não é tão perto da minha casa para levar material, seja qual for a quantidade”, conta. Por hora, ela segue em busca de um carroceiro para recolher suas duas sacolas de plásticos, caixas longa vida, vidros e latas.

Vontade versus viabilidade

Sofia (nome alterado a pedido) conhece muito bem esse sentimento de frustração. Querer fazer algo, porém não ter a estrutura para executar. Sempre utilizou “papa-pilhas” em um local conhecido para descartar pilhas e baterias, doou notebooks antigos, cabos, mouse e fios diversos para a Bio Digital, organização que recolhe lixo eletrônico em Maceió para destinação adequada. Bem informada, ela e alguns colegas tentaram instalar a coleta seletiva no trabalho, mas esbarraram na falta de apoio geral: da chefia, dos demais colegas e dos servidores terceirizados que fazem a limpeza.

“Foi um esforço muito grande educar o pessoal para a separação do lixo. E, mesmo assim, quando a gente conseguia que separassem, já tinha mudado os terceirizados e eles iam lá e misturavam tudo na hora de recolher. Tentamos duas vezes ao longo de três anos, sem sucesso. Quando não há o interesse das pessoas ou ao menos uma determinação da direção para que algo seja feito, as pessoas não se interessam”, relembra a jovem, sem esconder o desapontamento.

Essas tentativas em vão desanimaram para que ela puxasse iniciativa similar em seu prédio. “Moro no Pinheiro, não tem cooperativa que atenda esta área na coleta da prefeitura. Falamos com alguns vizinhos em outras ocasiões e não vimos interesse. Nós sabemos da importância e não fazemos nada, por mais que seja feio dizer isso. Em casa ainda aproveito o lixo orgânico e o papel, mas é só”.

Assim como Rose, Sofia não possui carro e não tem como levar seu material para o PEV da Praça Centenário de ônibus. Desanimada e com uma vida atribulada para dar conta, ela segue sua rotina habitual, enquanto a apenas duas ruas de distância, uma iniciativa de coleta seletiva voluntária já tem quase 10 anos.

Tião, o gato reciclado e seu jardim feito de materiais reaproveitados (Foto: Mariana Lima)

Tião, o gato reciclado, e seu jardim reaproveitado (Foto: Mariana Lima)

“Aqui até o gato é reciclado, adotamos o Tião depois de ouvir seus miados desesperados do outro lado da rua”, conta Geanne Cardoso, relações públicas e moradora do condomínio Parque das Mangueiras. Sua casa conta com vasos feitos de embalagens de margarina, jardim de palets e carretéis aproveitados de restos de construção e muito mais.

“Um dos motivos que contribuiu para nossa decisão por esse apartamento foi o fato de ter coleta seletiva”, completa. A mãe, Lenildes, do alto dos seus 70 anos, concorda. “Não foi difícil para adaptar, é só separar o lixo orgânico em outra lata do que o papel, plástico, vidro…”.

O que Geanne e Lenildes relatam com tanta facilidade foi uma conquista construída a duras penas. O Parque das Mangueiras foi um dos primeiros condomínios no Farol a ter coleta seletiva e isso deveu-se em grande parte à insistência de uma antiga síndica, Leila Pacheco. Professora de Enfermagem na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), hoje aposentada, ela sabia e vivia a importância do tratamento adequado do lixo, uma vez que isso tem impacto em diferentes searas: higiene, meio ambiente e até social.

“Anos atrás me dava uma agonia porque, como nossa lixeira era para fora, tinha até criança lá dentro no fim do dia catando coisa para vender. Quando virei síndica, mudamos isso aos poucos: coloquei um cadeado nas lixeiras e conversei com os mesmos carroceiros para que eles viessem buscar o material na portaria, de forma organizada e sem as crianças. Fiz uma reunião, conversei com os moradores e colocamos isso em prática, de separar minimamente o nosso lixo”, relata dona Leila.

Pouco tempo depois, “em 2005 ou 2007, não lembro ao certo”, ela conheceu o trabalho de uns catadores na Vila Emater e combinou que eles fariam a coleta nos prédios. Quando se organizaram na forma de uma cooperativa, a Coopvila, a parceria seguiu.

“Eles vinham buscar a cada semana, aí às vezes ficavam sem o combustível no caminhão. Outras vezes me chamavam, mesmo que eu não fosse mais a síndica, para conversar porque o pessoal descuidava e o lixo ia muito misturado. Reciclagem é uma questão de educação e manutenção, tem que ficar voltando sempre”, comenta.

Geanne mostra o container para plásticos e vidros no Parque das Mangueiras (Foto: Mariana Lima)

Geanne mostra o conteiner para plásticos e vidros no Parque das Mangueiras (Foto: Mariana Lima)

A quem diz que Dona Leila tem “mania de limpeza”, ela confirma com veemência. “Eu sou teimosa, bato nessa tecla do lixo para que os moradores também façam sua parte na separação. Vamos encarar, quem é que lava o copinho do iogurte, tira o resíduo do pote de margarina? A empresa que terceiriza os zeladores não dá nenhum tipo de treinamento sobre a separação ou manipulação do lixo, a cada funcionário que chega temos que explicar tudo de novo. Maceió é uma cidade muito suja, também, a prefeitura ainda precisa fazer muita coisa”, arremata.

De fato, sair do automático e mudar costumes, mesmo diante de uma causa nobre como o meio ambiente, exige conscientização, disciplina e mudança de comportamento. Não é algo rápido e, raramente, voluntário. É preciso uma grande comoção – o abandono do CFC diante do buraco na Camada de Ozônio – ou uma forte punição – multas para uso do cinto de segurança e cadeirinha de crianças – para que os brasileiros saiam de sua zona de conforto.

“Muitas vezes, se subvaloriza o papel da conscientização enquanto trabalho de longo prazo, mas é com educação e conscientização que se muda a cultura do fazer algo negativo para fazer algo positivo. O trabalho precisa acontecer de modo contínuo, a informação precisa chegar cada vez mais para as pessoas – tanto sobre como, quanto do porquê de se reciclar -, e esse movimento não pode parar. Com o tempo, ao perceber a importância e ao ver exemplos positivos, as pessoas incorporam isso em sua rotina e percebem que não há dificuldades ou perdas, apenas ganhos”, enfatiza a psicóloga Heloísa Sapucaia.

Notificação e susto

Como síndica, Dona Leila deu um choque de realidade em seus vizinhos e conseguiu, a longo prazo, implantar mudanças. Carlos (nome alterado a pedido) passou por um susto tão grande em fevereiro deste ano que quer distância do tema coleta seletiva. Síndico de um prédio na Ponta Verde, ele se espantou no dia em que recebeu do porteiro uma notificação da prefeitura.

Documento entregue no condomínio de Carlos (Foto: Mariana Lima)

Documento entregue no condomínio de Carlos (Foto: Mariana Lima)

“Compareci à Slum e me disseram que Maceió agora tinha coleta seletiva e eu tinha 30 dias para implantar essa separação no prédio, ter uma lixeira para lixo seco e outra para lixo molhado. Eles falaram que depois desse prazo iam passar para fiscalizar a nossa situação e seríamos multados por não cumprimento da legislação caso a reciclagem não fosse implantada”, relata o síndico.

Por sorte, o prédio havia passado por uma reforma recente e a lixeira já tinha a separação em duas partes. Carlos foi a uma loja de construção e comprou dois adesivos, “lixo seco” e “lixo molhado”, colou nos devidos espaços, chamou uma reunião com os moradores e relatou a situação. “Eu falei na Slum que a gente tinha feito a reforma e o funcionário que veio aqui com a notificação falou que seria mesmo mais fácil de implantar, por ter esse espaço. Pedi que eles me dessem uns panfletos que explicava o que é e o que não é reciclável, distribuí para todo mundo e começamos a separar”.

Só que nenhuma cooperativa apareceu para coletar o material. “Vai tudo no caminhão de lixo comum mesmo. O pessoal na Slum disse que eles iam indicar qual seria a cooperativa na fiscalização dos 30 dias, mas nunca vieram aqui. Acho que viram que não iam arrecadar dinheiro com multa e foram para outro lugar”, alfinetou o síndico.

Informado pela reportagem de O DIA MAIS que ele mesmo poderia acionar uma das cooperativas – no seu caso, a Cooperativa de Recicladores de Lixo Urbano de Maceió (Cooplum), de acordo com a divisão estabelecida no convênio – e concretizar a coleta para qual já estavam separando o lixo, Carlos não escondeu o trauma. “Para ser sincero, eu nem quero mais ouvir falar em coleta seletiva”.

Panfletos sobre reciclagem estão expostos na comunicação oficial do prédio, mas nenhuma cooperativa apareceu para recolher material (Foto: Mariana Lima)

Panfletos sobre reciclagem estão expostos na comunicação oficial do prédio, mas nenhuma cooperativa apareceu para recolher material (Foto: Mariana Lima)

Procurada sobre a situação, a Slum confirmou as notificações, mas não se manifestou sobre eventuais multas. “Em relação aos prédios na parte baixa de Maceió, a Slum está notificando os prédios para que tenham locais adequados para a destinação correta dos resíduos e, junto a esse trabalho, está intensificando o trabalho de implantação da coleta seletiva, junto com as cooperativas de Maceió”, informou, através de sua assessoria.

Um ano de sucesso

Traumas e frustrações dos moradores à parte, o fato é que as cooperativas de catadores de material reciclável não podiam estar mais felizes nesse primeiro ano de contrato com a Prefeitura de Maceió. A área que passaram a atender abrange 16 mil unidades domiciliares, um grande ganho de terreno, que conseguem percorrer graças à injeção de R$ 40 mil em recursos públicos para custeio das operações, equipe administrativa – que inclui um engenheiro ambiental – e pagamento de um salário mínimo aos cooperados, dando mais dignidade ao trabalho.

“Mudou muito, da água para o vinho. Deixamos de ganhar pouco, tipo 500 reais por catador, para termos um salário mínimo, pagar INSS, pagar combustível do caminhão de coleta, comprar equipamento de proteção individual (EPI) para todo mundo ao invés de esperar alguma empresa doar. Todo mundo uniformizando e a prefeitura olhando pro nosso trabalho com dignidade”, afirma Patrícia Ramos, presidente da Cooprel do Benedito Bentes.

Patrícia (segunda em pé, da esquerda para direita) e os catadores da Cooprel Benedito Bentes em seus uniformes (Foto: Arquivo pessoal)

Patrícia (segunda em pé, da esquerda para direita) e os catadores da Cooprel Benedito Bentes em seus uniformes (Foto: Arquivo pessoal)

A resposta também está presente em números. “Antes do contrato, a gente fazia 15 toneladas por mês, hoje é 25 a 30 toneladas. Em dinheiro, era R$ 12 mil, hoje é R$ 17 ou 18 mil só do que a gente vende, fora o dinheiro que vem da prefeitura para custeio”, enumera Patrícia.

Esses números podem ser estendidos às demais cooperativas da Região Metropolitana de Maceió e não se devem apenas à entrada de recursos municipais. Nos últimos três anos, todas elas passaram por um trabalho de aperfeiçoamento da infraestrutura e gestão através de um projeto da Cadeia Produtiva da Química e do Plástico, realizado pela Braskem (onde recebeu o nome de Ser+ Realizador) e pelo Sebrae em Alagoas. Após ganharem “corpo”, técnica e gestão, as cooperativas de catadores de recicláveis puderam sentar à mesa com a Prefeitura de Maceió e serem encaradas como um negócio. Em si, uma grande vitória para a causa socioambiental.

A Cooprel tem um trabalho muito forte para coleta de óleo de cozinha com as donas de casa do Benedito Bentes e atendem chamados de condomínios em outros bairros (Tabuleiro, Colina, Farol e Barro Duro, como dito antes, com Anderson Costa), mas ainda não conseguiram entrar nos diversos prédios lá instalados.

“A prefeitura já está notificando os prédios na Ponta Verde e informaram que depois vai ser no Benedito Bentes, então é só uma questão de tempo para a coleta começar aqui”, informa Patrícia, sobre a mesma medida da qual Carlos não quer nem ouvir mais falar.

A Slum também está fazendo contas deste primeiro ano e revelou aumento de 37% no volume de materiais recicláveis coletados. Dados individualizados, contudo, são um pouco mais difíceis de se obter – através de sua assessoria, informou que um paralelo entre abril de 2017 e abril de 2018 não pode ser feito pois o volume de material reciclável coletado no último mês ainda não terminou de ser contabilizado.

Jean Carlos Gomes - Superintendente da SLUM Foto:Marco Antônio/Secom Maceió

Jean Carlos Gomes (Foto:Marco Antônio/Secom Maceió)

“Mas são recolhidas, em média, 100 toneladas de recicláveis por mês. Desse número, em média, 67 toneladas de papel/papelão; 16 toneladas de plástico; 15 toneladas de metal e 21 toneladas de vidro”, revelou a assessoria, de forma geral.

A meta da Prefeitura de Maceió é aumentar o número de residências atendidas na coleta seletiva para 60 mil nos próximos anos. “Um primeiro passo, importantíssimo, foi dado: a contratação das cooperativas existentes na cidade. Com isso, a renda dessas pessoas dobrou e estamos avançando na sustentabilidade da cidade. Estamos incentivando a criação de novas cooperativas em Maceió e investindo em educação ambiental. A população se mostra aberta a essa ideia, mas precisamos avançar mais na conscientização”, declarou Jean Carlos Gomes, superintendente Slum.

Em divulgação do projeto Ser+ Realizador de janeiro deste ano, foi revelado que de junho a outubro de 2017, a quantidade de recicláveis devidamente processados e vendidos (ou seja, ainda houve material descartado por alguma contaminação ou separação indevida) atingiu o patamar de quase 700 toneladas. O volume coletado de plástico aumentou em aproximadamente 5 toneladas em apenas três meses, período no qual os metais foram de 10 toneladas para 50. Porém, nada se compara ao salto na coleta de vidros, que foi de menos de 20 toneladas para mais de 140 toneladas em seis meses.

Há mais que demanda reprimida para a coleta seletiva em Maceió. Segundo a própria Slum, 40% de todo material que vai para o aterro sanitário de Maceió podia ser reciclado, fazendo girar novamente a roda da economia. Esta é uma situação onde não há um culpado e um inocente, pelo contrário: é preciso ação coletiva de todos os atores sociais para inserir um novo padrão de comportamento que informe, estimule, viabilize e mantenha a separação de material reciclável em pauta.

“Creio que a separação, bem como a reciclagem e a diminuição na produção do lixo no nosso dia-a-dia, seja uma mudança muito mais cultural do que apenas individual. Se cada um se sentir responsável e, ao mesmo tempo, fizer seu papel, culturalmente nos tornamos uma sociedade diferente e a reciclagem será apenas mais um hábito dentro de um rol de condutas educadas com relação ao lixo, que vão desde não jogar lixo na rua, produzir menos lixo, até chegar à separação do lixo que se produz”, arrematou a psicóloga Heloísa Sapucaia.


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