… mas os velhos inimigos permanecem

Letícia Sant'Ana / 9:31 - 10/10/2016


**O nome de nossas personagens foi trocado para preservar suas identidades

Ao trabalharmos sobre o aumento do número de mulheres e garotas nos games, percebemos que o preconceito é só um dos inimigos que elas tem que enfrentar. Casos de assédio direto ou indireto são relatados como parte da vida online da mesma forma que no mundo real. Homens e garotos aproveitam o falso anonimato e a distância física do jogo para agir de forma grosseira e invasiva, indo de cantadas a pedidos de fotos nuas.

“A grande moda em alguns jogos é justamente bancar o ‘macho alfa’ e dar presentes pras jogadoras meninas. Eles têm uma mania incessante de querer flertar com você”, revela Flávia.

“Os jogadores fazem propostas nojentas, como tirar a roupa no Skype, oferecendo em troca recarga no jogo. Já aconteceu comigo e com uma amiga próxima, eu neguei, só que ela aceitou e foi bastante exposta”, diz Raquel. Os boatos sobre as trocas sexuais que a amiga realizava foram se espalhando no servidor e os competidores costumavam xingá-la no global (chat pelo qual os competidores se comunicam). Com o tempo, a moça abandonou o game.

Casos de assédio são comuns nos jogos online (Foto: reprodução)

Marcela, viciada em games, afirma que as ofensas são extremas. “Uns te atacam por machismo e outros querem doar itens, daí pedem fotos nuas no chat ou perguntam se é mesmo uma mulher e não um homem jogando com nick [apelido] feminino”, explica.

Enquanto as mulheres precisam se proteger com apelidos neutros, o uso de um nome feminino às vezes é pura estratégia dos homens. Em jogos do tipo MMORPG (Massively Multiplayer Online Role-Playing Game), que permitem a criação de um protagonista personalizável, tanto em aspectos visuais quanto em atributos e características como força e magia, as mulheres já têm “fama” de ganhar itens para sair na frente da competição, o que gera o chamado “shemale”, quando um homem utiliza uma personagem feminina visando vantagens dentro do jogo.

O que se torna grave neste caso é o uso indevido da identidade de alguma amiga. Algumas jogadoras denunciam esse sistema de troca de itens recorrente dentro dos jogos online

“Meus amigos usavam minhas fotos para conseguir itens no Tibia. Já apareci na webcam pra os outros jogadores acreditarem que eles eram mulheres mesmo”, revela Alice. Na escola, Alice disse que uma amiga mandava fotos nuas para jogadores. “Ela tinha uns 14 ou 15 anos na época, o colégio inteiro sabia disso, mas ela nunca confirmou. É um assunto muito constrangedor”, fala.

Para interferir no comportamento dos jogadores e promover um ambiente menos hostil, alguns desenvolvedores e comunidades de jogos criaram regras duras para combater o assédio. Em jogos como Habbo, competidores podem ser banidos do game ao pedirem ou oferecerem favores sexuais em troca de algum benefício do jogo ou ao se envolver em conversas e pedidos de contato sexual via webcam e sites pornográficos.

Em outros jogos online, em que há interação por chat, é possível fazer uma denúncia. Porém boa parte das garotas revelou que sempre ignora ou costuma mudar de sala no jogo quando algo as incomoda, mas não utiliza o recurso.

Segundo Marcela, que também já sofreu com xingamentos por parte dos jogadores, a falsa impressão de anonimato faz as pessoas se exporem mais, seja agredindo verbalmente outro competidor ou expondo o próprio corpo. “Boa parte do grupo que joga são nerds ou excluídos de alguma forma. Eles acabam descontando o que sofrem naquelas que eles acham que são minoria, no caso, nós mulheres”, relata.

Com relação ao assédio, Marcela é critica em relação à mercantilização do corpo e a objetificação da mulher na sociedade, fatores que atribui às causas do machismo e da opressão dentro dos games.

Alerta

A psicóloga Priscila Guimarães afirma que esse tipo de troca e exposição surge em meio a tantas outras como um mal contemporâneo trazido pela alteração das relações sociais.

“Atualmente vemos em variadas esferas distúrbios sociais ocorrerem, como o excesso de trabalho, a busca pela diversão incessante pela geração mais jovem e a efemeridade presente nas relações sociais contemporâneas. Com os jogos eletrônicos não poderia ser diferente”, aponta.

Segundo ela, ao contrário da vida real, nos jogos os objetivos costumam ser bem delineados. O participante sabe o que precisa fazer para ganhar e as recompensas vêm rapidamente. Dessa forma, proezas grandiosas tornam-se acessíveis a todos e ele precisa conquistá-las a qualquer custo.

“As consequências negativas dessa inversão são óbvias: o indivíduo esquece-se de si mesmo, podendo se envolver em situações extremas. Por ser uma atividade que proporciona prazer, o vício psicológico é sempre uma possibilidade, devendo o jogador que perceber que se tornou compulsivo pelo jogo, ou que este está atrapalhando aspectos de sua vida, procurar ajuda de familiares e mesmo de profissionais”, explica.


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