Marisqueiros aterram mangue e ameaçam próprio sustento

Mariana Lima / 12:02 - 06/05/2017

Pescadores no Povoado Cadoz, em Coqueiro Seco, vivem dilema: não conseguem dar destino às cascas do massunim, nem possuem outra forma de trabalho ou condições de mudar cenário sozinhos


Marisco massunim, ainda fechado na casca (Foto: Jessyka Soares)

Marisco massunim, ainda fechado na casca (Foto: Jessyka Soares)

Se há uma coisa que a humanidade foi percebendo ao longo dos séculos, com os avanços dos sistemas produtivos, foi que mais dia, menos dia, o homem é forçado a lidar com as consequências do impacto de seu trabalho no meio ambiente. Foi assim com o esgoto nos rios, a chaminé das fábricas e o CFC na camada de ozônio. Os catadores de massunim no Povoado Cadoz, município de Coqueiro Seco, às margens da Lagoa Mundaú, parecem estar vivendo um desses momentos de virada na sua história.

Para cada quilo de massunim descascado que é vendido ao consumidor, são deixados na beira da lagoa 7 a 10 quilos de casca e, ainda, resíduos orgânicos, como restos de marisco não retirado. “Hoje em dia, um pescador fraco tá tirando 50 kg de massunim por dia de trabalho”, estima José Cícero, mais conhecido como Irmão Tito, pescador e marisqueiro nascido e criado no Povoado Cadoz.

Ele completa a conta: no Cadoz, estão registrados 69 pescadores, mais os 20 que conseguiram se aposentar. Só no ponto onde trabalha, são 25 marisqueiros vivendo quase exclusivamente do massunim. A casca branquinha, bem mais clara que a concha do sururu, é bastante resistente e, de longe, até pode embelezar um pouco a vista, porém aquela “areia branca” na beira da lagoa, na “orla” em frente ao ponto de pesca, dá a dimensão do problema: as cascas estão aterrando o mangue e alterando mais que o cenário local.

Pedaço de mangue resiste espremido entre cascas de massunim, à esquerda, e sururu, à direita (Foto: Jessyka Soares)

Pedaço de mangue resiste espremido entre cascas de massunim, à esquerda, e sururu, no canto direito (Foto: Jessyka Soares)

Ao criar camadas sobre a lama, as cascas esquentam a terra e afastam animais típicos do mangue, como o aratu e os caranguejos chié e uçá. Como não têm outra destinação a não ser serem espalhadas ao longo da beira da lagoa, já criaram “pedaços de terra” após a lama, entrando lagoa adentro. No ponto de Irmão Tito, estacas dentro d’água marcam o limite até onde as cascas podem ir. Em um espaço da Lagoa Mundaú que antes era fundo, é possível caminhar alguns metros com água pouco acima do calcanhar.

Na lógica de um sistema produtivo, é a fábrica quem deve lidar com os restos de sua produção. Quem processa tem a responsabilidade do descarte. O problema ambiental que há muito se anuncia e agora se apresenta com mais clareza no Cadoz evolui de um problema social: a falta de instrução dos pescadores e marisqueiros. Conversando com eles, fica evidente que não possuem conhecimento de que a responsabilidade pela correta destinação das cascas do massunim é deles, enquanto produtores. Estão sempre à espera de alguém que venha buscar, seja a Prefeitura de Coqueiro Seco, a Secretaria de Agricultura do Estado ou o “condomínio”.

Cascas na construção civil

Irmão Tito mostra as pilhas de cascas resultantes das vendas para a Quaresma (Foto: Jessyka Soares)

Irmão Tito mostra as pilhas de cascas resultantes das vendas para a Quaresma (Foto: Jessyka Soares)

“Casca de massunim é melhor que brita. Pra fundação de uma casa, não tem melhor”, conta empolgado Irmão Tito. A declaração vem na resposta à principal história na região, de que um condomínio de luxo que vai se instalar em Coqueiro Seco irá aos pontos de pesca para recolher as cascas dos mariscos e usar no asfalto da pista de acesso e até em alguns blocos de construção.

Este condomínio tem até nome. “É o Alphaville, aquele lá de São Paulo. Eles vieram aqui há uns anos, apresentaram o projeto na escola, disseram que não iam mexer com ninguém que mora lá em cima e que iam usar as cascas no asfalto”, contou Irmão Nildo, marisqueiro do mesmo ponto de pesca que Tito. Outros moradores do Cadoz reforçam a história e ainda reclamam da demora do condomínio em vir buscar as cascas. O terreno, inclusive, já estaria em fase de demarcação de lotes.

O problema é que Alphaville não reconhece nenhum condomínio do grupo em Alagoas, muito menos a promessa feita aos marisqueiros. “A Alphaville Urbanismo esclarece que ainda não há confirmação de um empreendimento da empresa em Maceió, sendo impossível apresentar qualquer previsão sobre obras. No entanto, a empresa ressalta o interesse em investir na cidade por conta de seu alto potencial imobiliário”, comunicou, através da Assessoria de Imprensa.

O que acontece naquele pedaço de lagoa não é algo exclusivo do Cadoz. Os restos da extração de massunim e sururu aterram espaços de orla lagunar em diferentes pontos de Maceió, Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte e até da turística Massagueira. Em todos, também o sentimento comum de que a responsabilidade em lidar com as cascas é de outro que não o marisqueiro – os governos municipal e estadual como os mais indicados.

Sem planos de contingência

Um dos papéis do poder público é regular as atividades comerciais enquanto responsabilidade difusa sobre o bem comum. Mas o que fazer quando não há estruturas organizadas, seja para orientar ou punir?

“Hoje o IMA [Instituto do Meio Ambiente] não penaliza aquele pessoal porque não tem quem penalizar, uma forma de organização. Talvez [puna] a Prefeitura de Coqueiro Seco, porque eles [os marisqueiros] não poderiam processar aquele massunim na beira da lagoa, só para começar. Não apresenta estrutura adequada”, considera Edson Maruta, engenheiro agrônomo e assessor técnico da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura (Seagri).

Barracas em estrutura precária competem por espaço com verdadeiros montes de cascas (Foto: Jessyka Soares)

Barracas em estrutura precária competem por espaço com verdadeiros montes de cascas (Foto: Jessyka Soares)

Da mesma forma, não há, dentro do Governo do Estado, algum projeto ou programa para dar destinação às cascas dos mariscos, segundo Edson. “Há uma empresa privada tentando se estabelecer em Maceió que vai aproveitar a casca do sururu como fonte para ração animal e adubo, mas esse é um interesse mais voltado para a situação ali no Dique Estrada”, explica.

É através da secretaria que Edson Maruta conhece a realidade no Cadoz, de um trabalho que a Seagri começa a implantar, com apoio da Prefeitura de Coqueiro Seco, para organizar os pescadores e marisqueiros enquanto cadeia produtiva. Já foram conduzidas duas reuniões – uma delas com a presença do próprio secretário Álvaro Vasconcelos e da prefeita Decele Dâmaso – para conversar sobre a comercialização do massunim e sururu.

“Começamos a mostrar a potencialidade do produto final, com limpeza adequada e aparência agradável. Chamamos alguns deles para participar da Feira do Peixe Vivo sem custos – todo mundo paga pela barraca e eles foram de graça, já que eram iniciantes – e eles viram como podem ganhar muito mais dinheiro cuidando da apresentação final, limpo e sem terra, do que vendendo para atravessadores, que é o que fazem hoje”, defende o assessor da Seagri.

Cascas aterram lagoa, enquanto estaca (canto esquerdo) marca ponto máximo onde material pode chegar (Foto: Jessyka Soares)

Cascas aterram lagoa, enquanto estaca (canto esquerdo) marca ponto máximo onde material pode chegar (Foto: Jessyka Soares)

Foi na segunda reunião com o grupo do Cadoz que o tema “cascas” veio à tona. Enquanto os pescadores pediam que o Estado ou a prefeitura trouxessem caminhões para levar as pilhas de cascas que ali se acumulam, Edson tentou alertar que a responsabilidade era deles enquanto produtores. Se não tinham como arcar com isso, podiam usar os restos da produção em soluções criativas, como o artesanato.

“De cara, é o mais rápido e o de maior valor agregado. Eles gastam um real para produzir um objeto pequeno, com 10 ou 20 cascas, que pode sair a três ou quatro reais, repassando a quem venda, ou mais, se vendido direto em algum ponto, já que aquela é uma região turística. Outra opção seria uma baiana com a saia toda rodada de cascas de massunim, que usa mais em quantidade e tem maior valor agregado. Talvez não mitigasse o problema, mas mostraria que aquilo tem um valor”, propôs o assessor da Seagri.

A sugestão, contudo, foi recebida com desdém pelos marisqueiros. “Imagina quanto tempo e quanta galinha a gente ia ter que fazer para dar conta desse monte de casca?”, ironizou Irmão Tito. Enquanto isso, eles seguem pagando a outros trabalhadores diárias de R$ 50 para espalhar as cascas pelo mangue. “Não tem para onde ir mais. A gente não joga na lagoa, mas o dono do sítio aqui atrás não quer as cascas por lá, porque como massunim é quente, se fica no pé de um coqueiro já deixa de uma cor diferente, seco”.

“Falta empreendedorismo”

Marisqueiro do Cadoz em sua barraca de trabalho (Foto: Jessyka Soares)

Marisqueiro do Cadoz em sua barraca de trabalho (Foto: Jessyka Soares)

A reação à ideia do artesanato não foi gratuita. “Eles são muito resistentes à mudança e estão desacreditados no poder público, pela descontinuidade dos trabalhos e políticas que chegam a eles. Ali tem que ser feito um trabalho muito forte, de base, para mudar alguma coisa”, completa Edson.

Outro ponto de dificuldade é o fato de que os pescadores não possuem instrução escolar “nem querem, porque acham que já chegaram a um ponto da vida que não precisam mais ou não conseguem aprender mais nada”, ainda segundo o assessor. A mudança de postura é e será essencial para que qualquer mudança seja iniciada.

“Falta empreendedorismo a esses pescadores. Se eles atravessarem a lagoa em seu próprio barco, podem vender o mesmo produto no Mercado da Produção por dez reais, mas ficam no mesmo lugar, vendendo para atravessador por cinco reais. Aquele macarrão ao vôngole, que pagamos caro para comer em restaurante, nada mais é do que macarrão com nosso massunim, mas com uma apresentação diferente, qualidade na entrega”, disse Edson, no tom provocativo que usa na tempestade de ideias (brainstorming) que conduz nas reuniões com o grupo do Povoado Cadoz.

À espera da prefeitura

A reunião contou com outras sugestões por parte do “japonês da Seagri”, como Edson Maruta ficou conhecido entre os marisqueiros. Uma delas era que as cascas fossem espalhadas pela estrada de terra que dá acesso ao povoado, a partir da AL-401. Ideia já descartada pela Prefeitura de Coqueiro Seco.

“A possibilidade de usar essas cascas nas estradas de acesso ao Cadoz não é viável, pois não temos estudos concretos em relação a este recurso nesse tipo de trabalho. Ao tempo em que as obras do calçamento, que estavam paradas, foram retomadas com essa nova gestão e terá continuidade em toda a extensão do Cadoz”, informou a Prefeitura através de nota.

Outra cobrança que os pescadores e marisqueiros têm para a prefeitura municipal é a promessa de campanha de Decele Dâmaso – hoje eleita – de que os pontos de pesca receberiam estrutura adequada, incluindo o recolhimento das cascas.

“Ela disse que ia organizar as barracas, fazer a limpeza, todas num padrão só, tudo bonito e organizado. Mas virou janeiro e a gente nem vê, é o ser humano. Eu ainda acredito que ela [a prefeita] volta aqui, tenho confiança nela, mas é difícil ver para cobrar isso. Ela passa no carro fumê, nem dá pra ter certeza que é ela lá dentro”, brinca Irmão Tito.

Ponto de pesca, na verdade, já é espaço aterrado pelas cascas ao longo dos anos (Foto: Jessyka Soares)

Ponto de pesca, na verdade, já é espaço de mangue aterrado pelas cascas ao longo dos anos (Foto: Jessyka Soares)

Perguntada sobre a estruturação dos pontos de pesca e alguma proposta no auxílio à destinação das cascas, a administração municipal deu resposta em outra direção.

“A Prefeitura Municipal de Coqueiro Seco vem trabalhando a possibilidade de transformar em adubo as cascas de sururu e massunim, sendo assim uma das melhores formas de reaproveitamento das cascas, servindo para o uso em viveiro de mudas do município e das hortas comunitárias”, enviou na mesma nota, que ainda foi completada com uma palavra do secretário municipal de Meio Ambiente, Redson Cavalcante. “Já tivemos também em contato com algumas outras experiências no sentindo do beneficiamento da casca dos mariscos para ração animal, mas nada concreto no momento”, informou o secretário.

Nesta história, apenas uma coisa é certeza para todas as partes envolvidas: é preciso fazer algo com as cascas de sururu e, especialmente, de massunim antes que os estragos ao meio ambiente sejam irreversíveis.

Pescador do Povoado Cadoz e sua canoa na Lagoa Mundaú (Foto: Jessyka Soares)

Pescador do Povoado Cadoz e sua canoa na Lagoa Mundaú (Foto: Jessyka Soares)

“Tá aterrando, tá ficando perigoso. A solução não é parar o povo [os pescadores], é vir com tudo, com caçamba, caminhão, tirar tudo daqui e deixar o mangue como era antes”, pede o pescador aposentado José Crispim dos Santos, 67 anos, vivendo a Lagoa Mundaú desde os 17.

Porém, mais que caminhões e caçambas, é preciso que todas as pessoas que também vivem a lagoa se insiram na solução do problema.

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