Lula: Brasil tem uma dívida histórica com o Nordeste

Iracema Ferro / 9:29 - 23/08/2017


Depois de ser recebido em Penedo na última terça-feira (22), receber o título de doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) no começo da tarde desta quarta-feira (23) em Arapiraca, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a passagem de sua “Caravana da Esperança” no Clube Fênix, em Maceió, com movimentos sociais e a comunidade local.

Lula foi recepcionado com coro de “Lula, guerreiro do povo povo brasileiro”, alternado com “Ole, ole, ole, ola, Lula, Lula” e uma apresentação de capoeira. Recebeu homenagem do mestre Nelson da Rabeca com uma mini apresentação e um repente do mestre Procópio.

Dezenas de bandeiras do Partido dos Trabalhadores (PT) e de movimentos sociais, como o Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento de Moradia de Alagoas e Movimento Terra Livre (MTL), eram agitadas pelos representantes das entidades.

Lula foi recebido com euforia e, do tempo que desceu do ônibus até chegar ao palco do Clube Fênix demorou mais de meia-hora. Motivo? Lula é Lula e por isso não negou os pedidos de abraços, apertos de mão, fotos e selfies, o que fez com que o percurso curtinho se tornasse tão demorado.

Visivelmente cansado e com a voz mais rouca do que o habitual, Lula, que em nenhum momento foi chamado de “ex-presidente”, alternando de “o melhor presidente” ou “o maior presidente”, disse inicialmente que sua fala seria breve, porque teria que poupar a voz para o restante da jornada intensa da caravana, mas não resistiu e se alongou.

“Sai do interior de Pernambuco com minha mãe, dona Lindu, e seguimos para São Paulo, para fugir da fome. Eu não vou deixar as pessoas voltarem a tomar café que nem eu tomava, que era café com farinha. Eu só fui comer pão com sete anos de idade. Eu saí do Nordeste com sete anos e hoje não posso permitir que o povo daqui volte a carregar lata d’água na cabeça”, conta ele ao recordar sua infância difícil.

Lula afirma que o Nordeste não quer mais ser apontado por suas mazelas, mas pelas conquistas. “O Nordeste não quer ser mais conhecido porque tem mais analfabetismo, maior evasão escolar, mortalidade infantil. Nós nordestinos não queremos tirar nada de ninguém, mas queremos o que é nosso. O direito de ter os mesmos investimentos, as mesmas universidades. É por isso que nosso governo o Nordeste passou a ter 1,6 milhão de alunos na universidade”, lembra, destacando que o país possui uma dívida histórica com a região.

“Não sei quem disse para a elite que pobre não gosta de viver bem. Nós gostamos das coisas boas, queremos morar bem, queremos viajar de férias, fazer mestrado, doutorado, ter emprego que pague bem. Quem disse que queremos comer mal e se vestir mal?”, questiona.

O ex-presidente mencionou as conquistas que o Brasil teve durante o seu governo, como quadruplicar o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), quintuplicar o orçamento de educação, instalar cisternas e avançar na resolução do problema da seca, retirar o país do mapa da fome. Ele destacou que quer conversar com os pequenos produtores, com os pequenos empreendedores individuais, com a população LGBT, com a organização de mulheres, quilombolas.

“Chegamos a ser a 6ª economia do mundo em 2008. A elite não sabe governar. Fica claro que não precisamos de alguém que saiba de economia, mas da cabeça e do coração do povo. Precisamos nos unir para provar novamente que esse país só tem conserto quando o povo brasileiro puder participar da governança”, disse.

Lideranças locais

Débora Nunes, líder do MST, afirmou que a caravana serve para reafirmar e reconhecer os avanços que o povo nordestino teve durante o governo Lula, além de convocar o povo para a resistência ao governo golpista.

“Lula é um homem que saiu desse chão, retirante, que ajuda a construir esse país e volta como presidente para que as riquezas sejam socializadas com quem também produz”, disse.

“Golpistas não passarão. Precisamos convocar nosso povo à luta, ter disposição e empenho em nome da democracia. Se os golpistas acham que nos derrotaram, precisamos provar que não”, completa Débora.

Ricardo Barbosa, presidente estadual do PT, avalia a passagem de Lula por Alagoas como excelente. “A receptividade foi maravilhosa, calorosa. Em Penedo, o Lula para andar 100 metros demorou um hora, de tanta gente que queria abraçar, beijar, cumprimentar. Sabíamos que ele era uma pessoa muito amada, mas agora dimensionamos. Temos que ver como reconstruir esse projeto. Aqui encerramos com chave de ouro”, defende Barbosa.

Sobre a tentativa de oposicionistas em evitar que Lula recebesse o título de doutor honoris causa pela Uneal, o presidente estadual do PT acredita que o fato “só revela a pequenez, o caráter tacanho de quem pensou em impedir o título para quem deu acesso à educação superior à tantas pessoas”.

Judson Cabral, superintendente da Serveal e ex-deputado estadual, defende que “Lula tem uma relação com a população que está acima do que criaram, que ele construiu, essa receptividade é a prova. A liderança do Lula é solidificada. Quem não acompanhou a história usa fatos isolados para criar em cima deles e tirar os méritos de Lula na história completa de transformação social”.


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