Boa Tarde!, Domingo - 22 de Julho de 2018

 

Líderes do PCC em São Paulo comandavam tráfico em Alagoas

Redação com O Globo / 9:07 - 12/07/2018

Bilhetes recuperados em esgotos de presídios revelam uma disputa de facções em pelo menos outros 13 Estados


Resultado de imagem para PCC nas comunidades de Maceió

O Ministério Público de São Paulo denunciou 75 acusados de integrar o PCC, a organização criminosa que domina os presídios paulistas. Em Alagoas, as mensagens revelam que a facção paulista orientou seus comparsas a se infiltrarem de forma dissimulada nas favelas e comunidades de Maceió, onde outra facção  – a Comando Vermelho – aparecia no comando do tráfico de drogas.

 

Segundo as investigações do MP,  sete presos de um mesmo pavilhão na Penitenciária de Presidente Bernardes II comandavam ações em pelo menos 14 estados. Bilhetes recuperados na rede de esgoto do presídio revelam uma guerra aberta pela quadrilha contra facções locais, destinada a ampliar seu domínio pelo país.

O Comando Vermelho (CV) é citado 58 vezes na denúncia feita pelo Ministério Público de São Paulo. Os manuscritos revelam uma investida do PCC para dominar favelas comandadas pelo CV no Ceará na área conhecida como 3V (bairro Vila Velha), onde um traficante rival teria sido morto e queimado e outros expulsos.

Outra mensagem informa sobre a separação de integrantes do CV e do PCC em presídios de Alagoas e orientação para que os comparsas no estado passassem a se infiltrar de forma dissimulada nas favelas e comunidades onde o CV tinha o domínio do tráfico de drogas, misturando-se aos cidadãos comuns, a quem se referem como “zé povinho”. A estratégia foi suspender a cobrança de mensalidades de todos os traficantes que se aliem ao PCC no estado, para tornar a troca de facção vantajosa. Numa mensagem, dizem que CV cobra um percentual de 30% das vendas das drogas em Alagoas.

 Os manuscritos, que tiveram de ser remontados e desinfectados, já que haviam sido rasgados antes de serem descartados, registram ainda conversas sobre a morte de presos do CV no seguro do Centro de Detenção Provisória de Palmas, no Tocantins, e uma ameaça de “pegar” o diretor da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, onde dois “irmãos” teriam sido atingidos por balas de borracha durante um tumulto. Segundo a denúncia, trata-se do mesmo presídio onde presos do PCC mataram 33 rivais em janeiro de 2017.

São citados ainda assassinatos de presos do CV na Cadeia Pública de Várzea Grande, no Mato Grosso, e no município de Mosqueiro, no Pará – de acordo com as investigações, foi registrado um homicídio e uma tentativa dentro da Unidade Prisional de Mosqueiro.

Mensagens e manuscritos mostram ainda tensão gerada pela presença de integrantes do CV em Taubaté, no Vale do Paraíba (SP), mortes de comparsas na Vila União, no Rio, atribuídos à facção rival, e relatam o “batismo” de um novo integrante da quadrilha, que saiu de São João do Meriti (RJ) e passou a atuar em Poços de Caldas (MG).

O grupo dos sete, encabeçados por Cláudio Barbará da Silva (Barbará) e Célio Marcelo da Silva (Bin Laden), teria assumido o comando no fim de 2016, quando Marcos Willians Herbas Camacho, apontado como o líder do PCC, foi transferido para outro presídio da região.

Os documentos revelam a prática violenta do PCC na ocupação dos demais estados, como sequestros de pessoas de facções locais, que são “interrogadas” e mortas.

Nas conversas, foi possível ao Ministério Público identificar que o PCC estuda ainda expandir sua atuação para bairros de municípios do Mato Grosso do Sul, que segundo os próprios criminosos, são dominados em maioria pelo CV.

Em Santa Catarina, onde há confronto da facção com uma quadrilha local, o Primeiro Grupo Catarinense, foram descobertas ordens de remessas de armas e orientação de recuo, para evitar a possibilidade de prisão de integrantes do bando e o consequente fortalecimento dos opositores. Segundo dados do MP, no município de Joinville, as mortes violentas chegaram a 130 apenas em2016. Em Florianópolis foram registrados 13 assassinatos decorrente da disputa.

Para o Rio Grande do Norte, a quadrilha mandou R$ 3 mil destinado a pagar um criminoso que iria arremessar munições para dentro do presídio de Alcaçuz, alvo de várias rebeliões no início de 2017. Os investigadores registram que, de fato, um homem foi preso ao tentar arremessar munição para dentro da unidade.

Na Bahia, homens do PCC informam estar coletando informações sobre uma facção criminosa autodenominada “Bonde do Maluco”, assediada para integrar a quadrilha. No bilhete, falam em “trazer a massa para o nosso lado”. Em outra mensagem, os presos orientam que o envio de armas curtas (pistolas) será feito em ônibus e as armas longas (fuzis) enviadas por veículo com cofre – os compartimentos escondidos conhecidos como “mocó”.

No Paraná, o subscritor da mensagem pede a presença de um integrante de São Paulo e falam até em divulgar um site da facção. Fala ainda que integrantes de outros estados estão se deslocando para São Paulo para aprender montar bombas.

Os manuscritos revelam ainda que o Rio Grande do Sul o bando é minoria e que não tem um presídio específico para presos da organização criminosa.

Numa conversa interceptada em outubro de 2017, um dos presos na operação explica a um interlocutor que a facção Família do Norte (FDN) é aliada ao CV e que o PCC é inteligente, porque se alia a outras facções nos estados para se fortalecer, “caso específico do Espírito Santo”. Num dos manuscritos, há notícia de criação de uma base da quadrilha no Amazonas, cuja localização é considerada estratégica pelas divisas com Colômbia e Peru, grandes produtores de cocaína. Na denúncia, o MP relembra que 56 presos, a maioria do PCC, foram mortos pela FDN no complexo penitenciário Anísio Jobim.

Os denunciados também citaram, em conversas remanejamento e movimentação de armas em “paiol” de outros estados, como Pernambuco e Paraíba.

A denúncia, apresentada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), afirma que os manuscritos foram submetidos a exame grafotécnico, o que permitiu identificar os subscritores.

O documento afirma que a análise do material apreendido permitiu identificar participação dos 75 denunciados na organização e execução de homicídios, rebeliões, ataques a Fóruns, distribuição de armamento e drogas, atentados contra agentes públicos e órgãos do Estado e também no fomento da guerra entre facções nos estados brasileiros.


Comentar usando