Bom Dia!, Segunda-Feira - 19 de Novembro de 2018

 

Galinhas são criadas no IFAL com sistema alternativo que visa à saúde humana e o bem-estar animal

Deisy Nascimento e Iracema Ferro - Repórteres / 1:57 - 31/10/2018

Voisin é um sistema racional de uso da pastagem que permite descanso do pasto de forma que ele não seja degradado pelo excesso de pisoteio e consumo


Um projeto voltado para a melhoria da qualidade na alimentação dos consumidores de galinhas e frangos vem chamando a atenção e tem sido destaque no Instituto Federal de Alagoas (IFAL), unidade Satuba. Além de serem criadas de forma alternativa e sem o uso de hormônios, as aves caipiras de postura são animais criados soltos e, por obrigatoriedade, precisam pastejar. São de postura os animais que põem ovos. Eles ficam no círculo de proteção por 15 dias, depois são mantidos no galpão até completar os 30 dias, quando podem ser liberados para o pasto em segurança.

A avicultura sofreu essa transformação desde que a professora e zootecnista Carla Cordeiro assumiu a disciplina, em 2015. Segundo ela, que é idealizadora desse sistema alternativo de criação de galinhas e frangos, existe o interesse em estender as demais espécies, porém a falta de estrutura dificulta a abrangência da prática. “A criação alternativa, onde as aves são mantidas soltas em pasto permite que elas desfrutem do bem-estar animal, onde são mantidas livres de estresse e podem expressar comportamento natural, como ciscar, caçar insetos e pastejar, por exemplo. A sociedade tem se tornado cada dia mais consciente da forma como os animais são criados e o sistema industrial causa aversão aos defensores dos animais, que, por vezes, deixam de consumir produtos desta origem pelos possíveis maus-tratos durante a criação. O sistema alternativo é uma opção aos que não compactuam de tais práticas, como muda forçada, debicagem, confinamento em gaiolas”, explica.

Sistema Voisin, debicagem e muda forçada

Voisin é um sistema racional de uso da pastagem que permite descanso do pasto de forma que ele não seja degradado pelo excesso de pisoteio e consumo. Nesse sistema, é possível que os animais tenham sempre pasto renovado e preservado de degradação.

A debicagem é a prática da eliminação de parte do bico das aves de postura no intuito de evitar seletividade dos grãos da ração, bicagem de ovos e canibalismo. Ela se faz necessária no sistema de criação industrial devido às condições de estresse às quais os animais são submetidos. A prática é dolorosa, causa danos à integridade dos animais e, quando realizada incorretamente pode provocar hemorragia, inapetência em função da dor e até mesmo a morte da ave. Por outro lado, manter o bico íntegro é uma forma de minimizar o sofrimento do animal, permitindo que o mesmo expresse comportamento natural de seletividade para caçar insetos, comer pedregulhos.

No caso da muda forçada esta é uma prática realizada na avicultura de postura comercial com o intuito de renovação do aparelho reprodutor.

A professora Carla Cordeiro disse que tem como características a redução do consumo de alimento, a perda de penas, a regressão acentuada no peso corporal e no trato reprodutivo. “É uma forma de se obter ovos maiores, tipo jumbo, que são comercialmente mais valiosos e elimina a necessidade de se adquirir novo lote de pintinhos para dar início a um novo ciclo de produção que é mais demorado que o processo de muda forçada”, assinala.

No método de criação alternativo, obrigatoriamente as galinhas e os frangos caipiras devem ser submetidos ao mesmo procedimento, porém como não se produz no IFAL com finalidade comercial, a professora Carla Cordeiro optou junto aos alunos por promover às aves comerciais as mesmas condições de bem-estar.

Já no sistema convencional, as aves são transportadas para as gaiolas 15 dias antes de iniciarem a puberdade, que acontece por volta das 16 semanas de vida, no intuito de adaptação às condições de estresse, evitando assim, prejuízo na produção de ovos pelas aves. Após a transferência para as gaiolas, elas serão mantidas ali até findarem a produção de ovos, quando estão com aproximadamente um ano e meio de vida. Daí opta-se pela muda forçada ou comercialização da “galinha velha”, como é vulgarmente conhecida.

O estudante do IFAL e técnico em agropecuária, José Adilson, 23 anos, que está no 2º período, disse ter aprendido muito durante as aulas de avicultura. “Desde o princípio acompanhamos como funciona a criação de galinhas e frangos de corte e de postura. Eu tinha curiosidade de saber como é a questão da aplicação de hormônios nas aves para se desenvolverem. Durante o estudo vi que é ‘mito’ essa questão de aplicação de hormônio no frango. Com o manejo, nutrição, genética e bem-estar animal, o frango consegue desenvolver um peso excelente sem o uso de nenhum aditivo. Participei de todo processo e agora sei como funciona”, conta.

Cícero Valério Santos trabalha em uma granja clandestina no Vergel do Lago e confirma que os animais são submetidos a condições que, segundo ele, até ser questionado pela reportagem de O Dia Mais, não havia parado para refletir. “São muitas galinhas juntas, há a aplicação de hormônio para que os animais cresçam mais rápido, ganhem peso e coloquem mais ovos. Sempre achei que elas eram estressadas por causa da quantidade de animais, mas agora, parando para pensar, a retirada de parte do bico [debicagem] deve mesmo trazer uma dor constante, já perdi as contas de quantas galinhas vi morrer depois deste processo”, assinala.

“Quando a gente está trabalhando só pensa no que tem que fazer, de acordo com o que nos foi passado. Toda vida encarei os animais como seres inferiores, mas agora começo a entender que elas, mesmo sendo irracionais, sentem dor, ficam estressadas sobretudo porque o local onde as gaiolas onde galinhas ficam é quente e elas não tem espaço para circular”, completa Santos.

O tratador conta que a granja raramente recebe a visita de um veterinário, apenas quando morre uma quantidade grande de galinhas ou quando os ovos estão estragando mais rapidamente.

Cícero lembra que a separação dos ovos é feita manualmente, sem uso de luva, e que as embalagens ficam guardadas em um galpão. “Não vejo muito cuidado com a higiene tanto quando estamos separando os ovos quanto quando estamos embalando e no armazenamento enquanto os carros ou os comerciantes que compram de nós para revender não chegam para buscar sua cota”, afirma.

Sobre hormônios

A administração de hormônios, além de ser terminantemente proibida no Brasil, não é viável na avicultura por motivos econômicos e fisiológicos. A carne de frango é a fonte de proteína animal mais democrática que existe para consumo.

“A administração de um mililitro sequer de hormônio inviabilizaria a comercialização da carne ao preço que é vendida, uma vez que o mililitro do hormônio de crescimento custa em torno de R$40. Ademais, após a administração contínua e injetável (o que também seria inviável para atividade manual – injetar ave a ave), seriam necessários 60 dias para os efeitos do hormônio surgirem. Considerando que as aves são abatidas aos 42 dias, não haveria tempo para atuação do mesmo, daí a inviabilidade fisiológica. Logo, nenhum frango possui hormônio. Pode consumir sem medo!”, esclarece Carla Cordeiro.

Sobre ovos vendidos nas ruas

Os ovos vendidos por aqueles carros que passam nas ruas são de aves poedeiras comerciais, muitas vezes criadas de forma indevida, com alimentação inadequada e passam por maus-tratos que vão além dos já praticados na avicultura industrial. “É necessário ficarmos atentos ao selo de inspeção dos nossos alimentos. Eles asseguram nossa segurança alimentar e a regulamentação dos sistemas de criação. Ovos não inspecionados podem oferecer riscos à saúde, como Salmonelose, por exemplo”, pontua a professora do IFAL.

É importante ressaltar que custos para promover o bem-estar animal são mais elevados. A área necessária para o sistema alternativo requer muito mais espaço, o que, na avicultura industrial, seria ocupado com mais galpões com capacidade máxima de aves. Nem todos estão dispostos a pagar mais caro por carne ou ovos para priorizar o bem-estar animal. Hoje, há um público crescente atento a essas práticas e disposto a pagar o preço, mas ainda um público seletivo.

A população de baixa renda, além da limitação cultural, sofre limitação financeira, o que inviabiliza a oferta de produtos mais onerosos. Os ovos da instituição são comercializados para a própria comunidade, uma vez que temos baixa produção e não visamos lucro.

De acordo com a zootecnista e professora Carla Cordeiro, seria a realização de um sonho se todos se conscientizassem de que os animais são merecedores de uma vida digna e se dispusessem a pagar o preço por essa mudança na criação animal. “Aos poucos vamos conquistando adeptos e todos nós ganharemos com isso, homens e animais. Os alunos aprendem a praticar as duas formas de criação: alternativa e a convencional, porém ficam encantados com a possibilidade de promover bem-estar aos animais e oferecer-lhes vida digna. O respeito pela vida do animal é um dos pontos mais notórios ao findar da disciplina”, finaliza.

Victor Carnaúba, médico-veterinário sanitarista, mestre em Análise de Alimentos e especialista em inspeção de produtos de origem animal e desaconselha o consumo dos ovos vendidos em carros ou mesmo em estabelecimentos comerciais sem os selos de inspeção.

“Sanitariamente falando não recomendamos o consumo deste tipo de ovos, porque não tem registro nos órgãos sanitários, são produtos sem procedência, ou seja, não se sabe qual o estado de saúde destas aves, se estavam infectadas com doenças contagiosas que poderia passar para os ovos, não sabe como esses ovos foram manuseados antes de serem vendidos, não sabe qual a procedência das embalagens que eles usam porque não existe um controle de qualidade”, analisa.

“É diferente daqueles ovos que compramos no supermercado, porque eles têm um selo do SIE, que é o Serviço de Inspeção Estadual, ou do SIF, que é o Serviço de Inspeção Federal. São ovos que são fiscalizados, registrados, que passam por uma inspeção criteriosa de um médico veterinário desde a fazenda na produção das aves até o momento da indústria, do manuseio, da embalagem. Por isso, quando há o selo o consumidor pode confiar porque passaram pelo controle de qualidade. Agora esses ovos dos carros, passe longe, que é um perigo, principalmente para quem usa para fazer outros preparados. É o barato que sai caro”, compara o veterinário.

(Reprodução internet)                                             (Reprodução internet)

Não mais e de jeito nenhum

A atendente Dayse Alves pratica atividades físicas regularmente, mas ignorando o risco a que está submetida, afirma que compra três bandejas de ovos por semana daqueles carros que vendem nas ruas do bairro onde mora. “Como oito ovos por dia. Comecei a consumir mais ovos após a dieta passada pelo professor da academia onde malho. Mas, confesso que ao saber que não tem selo de inspeção e posso ter algum problema de saúde, evitarei e só comparei daqueles lacrados que vem com o selo”, destaca.

Confeiteira há mais de dez anos, Rosana Martins não compra de jeito nenhum os ovos vendidos nos carros que passam circulando em Cruz das Almas, onde mora e tem seu ‘ateliê doce’. Ela revela que, desde que fez o curso de confeitaria, foi alertada pelos instrutores sobre a necessidade de conhecer a procedência dos ingredientes.

“Prezo muito pela qualidade dos produtos que uso para fazer meus bolos, cupcakes e doces. Eu sei que sairia mais barato se eu comprasse estes ovos vendidos na rua, mas a qualidade do meu produto estaria comprometida, assim como colocaria em risco a saúde dos meus clientes. Imagina esses ovos sem procedência e que ficam dentro de um carro quente, exposto ao calor o dia inteiro, com certeza que não há de fazer bem. Pago mais caro comprando apenas os ovos com o selo do SIE ou SIF, mas fico de consciência tranquila de que meus clientes nem meus parentes não vão adoecer, vão gostar das minhas delícias, comprar de novo e ainda indicar para amigos, vizinhos e parentes”, defende.


Comentar usando