Folhas de papel

Deraldo Francisco / 11:51 - 12/10/2016


Quer saber o poder de uma investigação mal feita? Que prende e apresenta pessoas inocentes para crimes bárbaros? Que acaba com vidas inteiras? Desestrutura as famílias e que, às vezes, leva até ao suicídio?

O teste é simples: pegue uma folha de papel, destas do formato A4 ou ofício, e rasgue-a em pequenos pedaços, os menores que as pontas de suas unhas puderem deixá-los. Vá colocando num cantinho para que permaneçam todos ali. Picotados, mas unidos. Quando terminar esta operação, coloque os pedaços de papel nas duas mãos, feche-as, espere um vento forte e jogue-os o mais alto que conseguir. Depois, recolha todos os pedaços de papel e tente reconstruir a folha de papel.

É isso que uma injustiça faz com a sua vida. Deve ser isso que, no momento, os irmãos Emerson Palmeira da Silva e Anderson Leandro estão vivendo agora. Foram presos, algemados, jogados no xadrez de uma viatura, apresentados à imprensa alagoana – que normalmente compra tudo que a polícia vende – acusados no sequestro e morte do professor Daniel Thiele.

A principal prova da polícia alagoana: o chip do celular da vítima que o verdadeiro criminoso retirou do aparelho e o descartou na rua. Um dos irmãos achou o chip, colocou no seu telefone, fez uma chamada para o irmão e pronto: os dois são os criminosos.

Depois da injustiça feita, a Polícia Civil diz que analisou as imagens das câmeras que ficam próximas ao local de trabalho de um dos irmãos e constatou que não seria possível, cronologicamente, ele ter cometido o crime. Só isso? E por que não apurou isso antes?

Que ao menos, nesses próximos cem anos, a Polícia Civil alagoana tente recompor a folha de papel que rasgou em pedacinhos. E que esqueça essa coisa de estar rasgando a vida das pessoas. Com a tecnologia a seu favor, a polícia ainda fica trabalhando com achismos.


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