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Família Boiadeiro deixa rastro de sangue em Alagoas

Editoria de Poder / 8:00 - 12/03/2018

Integrantes do clã são acusado de envolvimento em 42 mortes; entre as vítimas, crianças, idosos, mulheres, policiais e um promotor de Justiça


A família Boiadeiro – radicada no Sertão de Alagoas – com as suas principais fazendas em Batalha – costuma resolver as suas diferenças à bala. Os números de inquéritos policiais, processos criminais, condenações, prisões e de vítimas mostram isso. Alguns casos violentos envolvem brigas de famílias, disputa política e, às vezes, até o famoso “matar para não morrer”. Mas, em geral, os integrantes desta família têm mostrado que a vida das pessoas não vale mais que uma bala na cabeça. Um documento que chegou à imprensa e às autoridades de segurança pública em Alagoas mostra que ninguém está livre das armas dos Boiadeiro. Isso porque, entre as pessoas mortas pelo clã estão: crianças, mulheres, idosos, políticos, policiais militares, um radialista e até um promotor de Justiça.

Os motivos são os mais simples possíveis como não votar num membro da família, por exemplo. Ou então, “falar mal” de um deles. O rastro de sangue dessa família foi deixado em cidades do Sertão e Agreste de Alagoas e no Sertão de Pernambuco, notadamente Águas Belas, Itaíba e Iati. No “Dossiê Macabro”, como está sendo chamado o documento, constam, pelo menos, 42 nomes de pessoas que teriam sido mortas por integrantes da família Boiadeiro ou a mando deles. Com a suposta participação direta do clã são 36 assassinatos.

O envolvimento, neste caso, teria sido direto ou indireto. Há alguns casos de “queima de arquivo”. Isso porque, conforme a Polícia Civil alagoana, há entre os Boiadeiro pessoas envolvidas em assaltos, sequestros e tráfico de drogas. Pelos levantamentos feitos pela reportagem, o crime mais ameno cometido por membros desta família é o porte ilegal de armas, algumas de uso restrito da Polícia Federal e das Forças Armadas. A reportagem confirmou, através de pesquisa e de contatos com delegados mais antigos com atuação na região, que há inquéritos policiais para a grande maioria dos casos. Em outros, alguns Boiadeiro foram condenados. Poucos estão presos e há entre seis e oito mandados de prisão contra alguns. Mas há baixas entre os Boiadeiro. Entre estas mais de 40 mortes atribuídas ao clã, houve ainda baixas “no lado de cá”. Nesse intervalo, pelo menos três Boiadeiros foram mortos, sendo dois em supostos confrontos com a polícia e um, vítima de emboscada que ainda é investigada pela Polícia Civil alagoana.

Baixinho Boiadeiro, armado e disposto a matar

No momento, o Boiadeiro mais conhecido na família é José Márcio Cavalcante Melo, o “Baixinho Boiadeiro”. Há contra ele dois mandados de prisão: sendo um por tentativa de homicídio e outro por assassinato. No entanto, a reportagem descobriu que ele também é suspeito de envolvimento num crime de homicídio ocorrido em Craíbas, no último dia 10 de janeiro.

Hoje, ele é o homem mais procurado pela polícia alagoana. Motivo: estaria armado com uma pistola do calibre 9 milímetros, bem municiada e na companhia de Thiago Mariano Tenório, seu “braço direito” no mundo da violência, que também estaria armado com um revólver calibre 38 e uma espingarda 12. Os dois são conhecidos da polícia alagoana.

Conforme a polícia, Baixinho Boiadeiro foi quem matou o vereador Tony Carlos Medeiros, o Tony Pretinho, um mês depois da morte de Adelmo Rodrigues de Melo, o Neguinho Boiadeiro, seu pai. Este crime aconteceu em novembro de 2017, nas proximidades da Câmara de Vereadores, no centro de Batalha.

Mas, na reação à morte do pai, Baixinho Boiadeiro, minutos depois da emboscada, tentou matar Emílio Dantas, inimigo dos Boiadeiro. Conforme consta no inquérito policial, o alvo de Baixinho, naquele dia, era a prefeita de Batalha, Marina Dantas, esposa de Paulo Dantas (neste caso, sogra do deputado estadual Luiz Dantas). O deputado é irmão do lendário José Dantas Rodrigues, o “Zé Miguel”, morto numa emboscada em março de 1999, juntamente com sua esposa, Matilde Toscano. Este crime foi atribuído a José Laércio Rodrigues de Melo, o Laércio Boiadeiro. Ou seja: uma briga antiga entre as famílias: Dantas e Boiadeiro.

A polícia admite o envolvimento de Baixinho Boiadeiro na morte do jovem Joel Júnior Pereira Nunes, de 26 anos. Ele foi encontrado morto, no porta-malas do próprio carro, deixado na zona rural de Coité do Nóia. Ele desapareceu no dia 9 de janeiro e o corpo em chamas foi encontrado no dia seguinte. Ocorre que Joel Júnior foi morto a tiros de pistola 9mm e que esta arma seria a mesma com a qual Baixinho Boiadeiro tentou matar Emílio Dantas e matou Tony Pretinho. Um exame de comparação balística já teria, inclusive, comprovado esta desconfiança da polícia.

A motivação para o crime, com características de queima de arquivo seria o fato de Joel Nunes ter participado de um grande roubo de cargas envolvendo outros dois membros da família Boiadeiro (Thiago e Davi). Joel Nunes era filho do ex-vereador por Craíbas, Joel Pereira, que morreu de câncer, no início deste ano. Como não era do clã Boiadeiro, o rapaz seria um alvo fácil da polícia e, uma vez preso, poderia contar o que sabia.

Gerações seguem “desejo de matar”

Mas a forma de resolver as questões à bala foi, aos poucos, alcançando as novas gerações dos Boiadeiro e, filhos, sobrinhos e os primos juntos passaram a se envolver em casos violentos muitos deles redundando em assassinatos. Os mais graves, evoluindo para chacina, como consta no dossiê. A reportagem faz, a seguir, um resumo com nomes e sobrenomes das vítimas cujas autores dos crimes seriam, diretamente ou indiretamente, membros dos Boiadeiro:

Robério Carvalho Costa (Bero Boiadeiro – já falecido)

1 – Léo de Chico da Burra (assassinado em Folha Miúda, em Craíbas);

2 – Desconhecido dentro de um bar (executado Povoado Funil, em Batalha);

3 – Promotor de Justiça Tiago Fontes Soares (morto em Itaíba/PE);

4 – Samuel Theomar Bezerra Cavalcante (morto em Batalha);

5 – Edivaldo Joaquim de Matos (sargento PM morto em Batalha);

6 – Desconhecido dentro de uma oficina (morto em Águas Belas/PE);

7 – Nena Pretinho (morto no Povoado Boa Vista, em Batalha);

8 – Erivaldo (assassinado em Craíbas)

Juliano Rodrigues de Lima (Branco Boiadeiro)

9 – Filho de Dona Quitéria, que morava em Jaramataia (rapaz foi sequestrado, torturado e morto; corpo foi encontrado em Iati/PE);

10 – Professor Charliton Harrysson Barbosa (morto num falso assalto em Olivença);

Marcelo Augustinho dos Santos (Marcelo Boiadeiro)

11 – Silvânio Praxedes da Silva (morto numa discussão em Girau do Ponciano);

12 – Cabo PM José Oliveira da Silva (morto em Monteirópolis);

13 – Menina Jéssica Andrade, de 9 anos, sobrinha do PM (morta em Monteirópolis);

14 – Valdinete Bispo dos Santos (assassinada em Arapiraca);

Cícero José Rodrigues de Lima (Zé de Laércio Boiadeiro)

15 – Policial militar Eduardo Messias de Araújo (morto em Craíbas);

16 – Alaíde Mendes de Araújo (morta em Craíbas);

17 – José Florentino da Silva,

18 – Linderlei Florentino da Silva,

19 – José Manoel dos Santos e

20 – Janicleá Manoel dos Santos (todos moradores de um assentamento sem-terra em Girau do Ponciano, chacina ocorrida em 2013);

José Anselmo Cavalcanti de Melo (Preto Boiadeiro)

Participou do duplo homicídio em Batalha em que foram mortos o sargento Matos e o jovem Samuel, irmão da prefeita Marina Dantas;

Sérgio Alexandre Alves da Silva (Alexandre Boiadeiro)

21 – Tiago José dos Santos (morto numa embosca no povoado Tabela, em Craíbas);

22 – Desconhecido (morto num atentado no povoado Tabela, em Craíbas)

Marcondes Cavalcanti Targino (Marcondes Boiadeiro)

23 – Antônio Carlos Lima de Oliveira (morto após uma discussão num bar; criminoso matou para ganhar fama, em Batalha);

24 – Radialista Jorge Lourenço dos Santos (morto na porta de casa, em Santana do Ipanema)

Davi Rodrigues dos Santos (Davi Boiadeiro)

25 – Dona de casa Mércia Ladislau Gomes (morta em Batalha, na porta de casa; a mulher se negou a dizer onde o marido estava porque ele seria a vítima fatal);

José Márcio Cavalcante (Baixinho Boiadeiro)

26 – Vereador Tony Carlos Medeiros (morto em dezembro passado, em Batalha);

27 – Joel Nunes (morto a tiros e teve o corpo carbonizado, em Coité do Nóia);

Cosme Falcão dos Santos (Cosme Boiadeiro)

28 – José Gilmar dos Santos (morto em Batalha por “falar mal dos Boiadeiro);

29 – Desconhecido (morto às margens da AL-220, perto de Major Izidoro);

Carlos Alberto Schienke Albuquerque Melo (Carlinhos Boiadeiro)

30 – Carlos Evandro Alves Dias (morto em 2007, em Maceió)

José Laércio Rodrigues de Melo (Laércio Boiadeiro)

31 – José Rodrigues Dantas, o Zé Miguel (morto numa emboscada na AL-220, em Jaramataia);

32 – Matilde Toscano de Souza (morta com o marido Zé Miguel);

33 – José Fábio da Silva, o Fabinho do Posto (morto no Povoado Folha Miúda, em Craíbas);

Adelmo Rodrigues de Melo (Neguinho Boiadeiro)

Teria mandado matar: 34 – Antônio Paulo da Silva, o Xoxu (morto em Batalha porque não terá votado em Neguinho);

35 – Claudenice dos Santos, a Kil do Bar (morta em Batalha porque não votou em Neguinho);

36 – José Gilmar dos Santos (morto em Batalha porque “falava mal” dos Boiadeiro).

Outros nomes do clã Boiadeiro constam no dossiê mas, como não há acusação do envolvimento em assassinatos, foram descartados. No documento que chegou às autoridades de segurança pública e à imprensa constam ainda outros nomes, que não têm parentesco com os Boiadeiro mas que seriam trabalhadores da família e que cometeram crimes a mando dos Boiadeiro: Tiago Rocha Ferreira, “Tiago Pitu”; Tiago Mariano Tenório, o “Tiago Preto” e José Ailton dos Santos, chamado de “Ariel”. Todos teriam ligações estreitas com os membros da família Boiadeiro e teriam cometido crimes junto com eles.


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