, Segunda-Feira - 22 de Outubro de 2018

 

Especial do O Dia Alagoas: Guerra aos canudos

Iracema Ferro e Valdete Calheiros / 12:15 - 06/05/2018

Ambientalistas travam uma verdadeira luta contra o item que, de inofensivo, passou a ser um dos vilões do meio ambiente


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(Foto: Reprodução internet)

Os canudinhos parecem práticos e uma escolha um pouco automática na hora de consumir sucos e refrigerantes, mas são os mais novos vilões do meio ambiente. Feito geralmente de poliestireno ou polipropileno (ou da mistura dos dois), o canudo até pode ser reciclado, mas como é muito pequeno e leve, além de ter baixíssimo valor comercial, frequentemente é jogado no lixo. Sua produção leva um minuto. Sua vida útil é estimada em, no máximo, 30 minutos. E ele leva no mínimo 20 anos e pode passar de 100 anos para se decompor na natureza, a depender do meio (água doce, salgada, solo). Ele está entre os dez resíduos mais encontrados nas ações de limpezas de praia.

Pequenos e leves, não é de admirar que os canudinhos despejados no mar fiquem presos nas narinas das tartarugas marinhas, alojados nos estômagos das aves marinhas e acabem na nossa cadeia alimentar depois de serem comidos por peixes.

“Desde pequenos crustáceos, passando por plânctons, várias espécies de peixes, tubarões, até baleias e mesmo os corais, são mais de 500 espécies marinhas que estão ingerindo plástico. Há vestígio de plástico em peixes de interesse comercial e até no sal de cozinha. Podemos mesmo afirmar que estamos comendo plástico e em boa parte podemos atribuir isso aos canudos, que são totalmente desnecessários”, destaca o biólogo e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Robson Santos, doutor em Zoologia e com pesquisas em biologia marinha e conservação.

O biólogo destaca que uma pequena quantidade de plástico, meio grama, já é o suficiente para matar uma tartaruga jovem, de 50 centímetros, que poderia viver por 80 a 90 anos.

“É uma morte lenta, dolorosa, porque ocorre a obstrução do trato gastrointestinal da tartaruga e ela vai sufocando. A ingestão de plástico é a segunda causa de morte em tartarugas marinhas, perdendo para a pesca, mas algumas vezes encontramos as duas causas associadas, ou seja, encontramos plásticos dentro da tartaruga que morreu em função da pesca. Ela não teve tempo de morrer em função do plástico, morreu antes por causa da pesca, o que pode mascarar o número destes casos”, alerta.

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Mais do que um produto consumido em alta escala, canudinho é um hábito cultural que movimenta mercado especializado

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Em processo doloroso, tartaruga marinha tem canudo de plástico retirado do nariz (Foto: Reprodução internet)

Há dezenas de anos os canudos ocupam um lugar privilegiado na mesa da população, adornam os copos, dão a sensação de que engolir líquidos é mais fácil e ultimamente aparecem no mercado de festas como um acessório para dar um charme extra à comemoração.

De diversas cores, tamanhos e até dobraduras, os preços, em geral, são bem acessíveis. A oferta é ampla nas lojas especializadas em festas e até mesmo em supermercados de bairro. Quem quiser gastar mais também pode investir em canudos mais “fashion” como os usados em coquetel, que aparecem com origamis em formato de frutas ou sombrinhas em seu prolongamento.

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A reportagem de O DIA esteve nas duas únicas fábricas de canudos de Alagoas, ambas localizadas no Distrito Industrial Governador Luiz Cavalcante, no Tabuleiro do Martins: a Ultraplast e a Ultracanudos, esta exclusivamente produtora de canudos.

Na Ultraplast são fabricados também copos, sacolas, talhares, bandejas de isopor, entre outros produtos derivados do plástico. Saem da fábrica semanalmente seis mil pacotes com 100 canudos cada. 600 mil canudos apenas de uma unidade industrial a cada 7 dias.

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A Aleplast/Up entrega cerca de 3.500 pacotes no Estado por mês. Cada pacote tem aproximados 300 canudos. São feitas as entregas de pelo menos 10 tipos diferentes de canudos. A entrega ainda é considerada pequena e corresponde a 20% dos pedidos de copos de plástico. O funcionário Ezequiel Rufino, do setor de compras, contou que a empresa faz a distribuição de canudos fabricados, em sua grande maioria, no estado de Santa Catarina.

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Especialistas contra os artefatos

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(Foto: Reprodução internet)

A administradora Lays Almeida é mãe de Gabriela, de 4 anos, e adepta dos canudinhos dentro e fora de casa. “Se tem uma coisa que não falta em casa é canudinho, tanto para a Gabi quanto para mim. Desde criança que eu uso canudo e a minha filha começou a usar com dois aninhos. Acho muito prático. Usamos também nas lanchonetes, acho mais higiênico”, garante. Lays confessa que desconhecia os riscos ao meio ambiente.

“Nunca parei para pensar que os canudos podiam ser um problema para o meio ambiente, devemos consumir pelo menos uns doze canudos por dia. Vou tentar mudar isso, mas acho que a Gabi vai demorar mais para se habituar sem os canudinhos”, avalia.

A pediatra Rosemary Maciel de Andrade desaconselha o uso de canudos entre as crianças.

“O ideal é sempre usar o copo de transição. Do peito materno para o copo, sempre que possível, inclusive, evitando as mamadeiras. O copo de transição tem bico próprio, mais anatômico. O canudo não é tão fácil de adaptar e apresenta um risco maior de engasgo”, explicou a médica formada pela então Escola de Ciências Médicas, com residência no Instituto Materno Infantil de Pernambuco.

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               SAIBA MAIS SOBRE O ASSUNTO NA EDIÇÃO DO O DIA ALAGOAS DESTA SEMANA


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