Boa Tarde!, Domingo - 22 de Julho de 2018

 

Entulhos de obras jogados “debaixo do tapete”

/ 11:47 - 14/05/2018

Resíduos da construção civil descartados irregularmente em área de vegetação e galpões abandonados


Marcelo Alves – Repórter

Entulhos de obras jogados dentro de galpão abandonado, no bairro Petrópolis (Foto: Marcelo Alves)

Escondidos e a céu aberto, resíduos da construção civil são descartados de forma irregular e se amontoam em diversos locais de Maceió. A reportagem do site O DIA MAIS flagrou dentro e fora de galpões abandonados na Rua Hilda de Pereira Monte, no bairro Petrópolis, vários montes de entulhos de obras. Metralha também foi encontrada  jogada em uma área de vegetação, próximo ao supermercado Makro, em um terreno baldio às margens da Rua São João, no Vergel, e em calçadas.

Por outro lado, preocupados com a disposição final inadequada deste tipo de sujeira, que tanto afeta o meio ambiente e a saúde, diversos atores como órgãos públicos, empresas privadas e associações adotam procedimentos para a gestão dos resíduos da construção civil, disciplinando as ações necessárias de forma a minimizar os impactos ambientais.

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) considera que a disposição de resíduos da construção civil em locais inadequados contribui para a degradação da qualidade ambiental. Ainda de acordo com o CONAMA, os resíduos da construção civil não poderão ser dispostos em aterros de resíduos domiciliares, em áreas de “bota fora”, em encostas, corpos d`água, lotes vagos e em áreas protegidas por Lei.

Metralhas descartadas irregularmente em área próxima de espécies de vegetação, no bairro Petrópolis (Foto: Marcelo Alves)

 

Restos de obras jogados em galpões abandonados

Na Rua Hilda de Pereira Monte, no bairro Petrópolis, que dá acesso ao residencial Rancho Bom, chama a atenção cinco galpões abandonados. Dentro e fora deles há vários montes de resíduos da construção civil. Entre os entulhos estão restos de argamassa, gesso, barro resultante de escavação de terrenos, bem como pedaços de tijolos, telhas, cerâmicas, madeiras, barro, britas.

Para se ter uma ideia de sinais de irregularidade no descarte e de abandono dos galpões, o mato toma conta do local e chega a cobrir alguns montes de entulhos. Além disso, não há qualquer sinal que indique que os depósitos sirvam de gerenciamento de entulhos, uma vez que não há containers de lixo ou alguma máquina para a realização de ações de manejo adequado incluindo redução, reciclagem, reaproveitamento, coleta, transporte, tratamento e destinação adequada dos resíduos.

Ainda no local, também não há nenhum tipo de sinalização proibindo o descarte, nem indicando que os galpões são pontos de destinação dos entulhos. Ambulantes que trabalham próximo ao Rancho Bom e que não quiseram se identificar disseram que diariamente veículos como carros, caminhões e carroças entram na Rua Hilda de Pereira Monte para fazer o descarte nos galpões.

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Metralhas jogadas em área de vegetação

Vários montes de entulhos de obras e até de asfalto descartados de forma irregular foram encontrados pela reportagem também em um terreno que fica entre condomínios residenciais e o supermercado Makro, ainda o bairro Petrópolis. Neste local inapropriado, os resíduos foram jogados próximos de várias espécies de vegetação. A disposição inadequada destes restos de construção invadiu parte da área verde do local. Próximo a esta área há conjuntos habitacionais.

 

Entulhos se amontoam em um quilômetro de extensão de terreno baldio

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Descartados de forma inadequada, amontoados de entulhos de construção civil já tomam conta de cerca de um quilômetro do terreno baldio que fica às margens de um trecho da Avenida Assis Chateaubriand – na via de sentido Centro ao bairro do Pontal. No outro lado desta extensão de terra está a Rua Zacarias de Azevedo, no Centro, e o fundo do prédio do Instituto Médico Legal (IML). Nos lados, há outros dois terrenos.

Também nesta extensão de terra é possível encontrar vários tipos de resíduos de obras como tijolos maciços e de cerâmica, telhas, colunas de concreto, pedras, gesso, madeira, areia entre outros elementos.

 

Restos de obras são os resíduos mais descartados de forma irregular em Maceió

Entre os tipos de lixos descartados de forma irregular, os resíduos da construção civil são os mais comuns encontrados em Maceió. Isso é o que afirma o superintendente de Limpeza Urbana de Maceió (Slum), Jean Carlos Gomes Ferreira. Por dia são recolhidas e levadas mais de 90 toneladas de restos de obras para os ecopontos instalados pela Slum nos bairros do Pajuçara, Dique Estrada e Sururu de Capote.

De acordo com Jean Carlos, todo o material proveniente da construção civil descartado nos ecopontos é levado para o aterro sanitário para ser transformado em base para asfalto. “Os ecopontos são espaços ambientalmente corretos para o descarte de resíduos. Estes espaços são instalados em locais que registram grande quantidade de descarte irregular e apresentam pontos crônicos de lixo Com isso, estes pontos visam minimizar o descarte irregular de resíduos e garantir a limpeza de toda a cidade”, disse Jean Carlos.

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Ecoponto do Dique Estrada recebe entulhos de obras (Foto: Cacá Santiago)

 

Gerenciamento reduz poluição e gastos com destinação dos resíduos

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Banheiro químico feito a partir de restos de tubulações (Divulgação)

Boa parte dos resíduos da construção civil pode ser reaproveitada na própria obra e o restante servir de reciclagem ou reaproveitamento em outros setores, e com isso diminuir impactos ambientais provenientes do descarte irregular ou mesmo desnecessário. Isto é o que a empresa Teia Serviços Ambientais propõe para os seus 43 clientes, entre construtoras, municípios e hotéis de Alagoas a partir do Projeto de Gerenciamento de Resíduos de Construção Civil (PGRCC). “Com a implantação do PGRCC em uma obra, há em média a redução de 41% dos custos com a gestão e destinação de resíduos da construção civil”, disse o diretor da Teia e ecólogo, Mateus Gonzales.

“Metralhas compostas por materiais inertes como tijolos, telhas, cerâmicas podem ser reaproveitadas como material de aterro ou, se triturado, servem como matéria prima para usos mais nobres como na fabricação de argamassa. Já restos de madeiras podem ser utilizados dentro do processo construtivo para outros fins como estaqueamento de marcações, ou serem destinadas por meio da venda ou doação a padarias e olarias que utilizar para a queima”, disse Mateus Gonzales.

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Separação de resíduos da construção civil dentro dos canteiros de obras (Divulgação)

Quanto à ferragem, o diretor da Teia disse que este tipo de resíduo é vendido ou doado às empresas de reciclagem, que revendem o minério para indústrias metalúrgicas. “Da mesma forma ocorre com plásticos e derivados e papel. Restos de matéria orgânica (material de poda e restos de alimentos) podem ser reaproveitados para a compostagem, sendo utilizados algumas vezes em hortas dentro do canteiro de obras”, disse.

Além disso, de acordo com Mateus Gozales, os resíduos da construção civil geram economia para a obra por meio da redução do consumo de materiais, e muitas vezes, gera emprego e renda para famílias que vivem hoje do comércio de materiais recicláveis Ele disse que comércio de resíduos vem crescendo muito e é um caminho sem volta.

Mateus Gonzales disse que com a implantação do Projeto de Gerenciamento dos Resíduos da Construção Civil (PGRCC) junto aos seus clientes, a Teia visa orientar a destinação correta para 100% dos resíduos gerados na obra, bem como reduzir a geração destes entulhos.

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Baia para depósito de metralha da obra (Divulgação)

 

Catadores darão descarte sustentável aos fragmentos da construção

ASSOCIAÇÃO E MEIO AMBIENTE - ACAMARE

Reunião para firmar parceria com Acamaré (Foto: Divulgação)

Com o interesse de contribuir para preservação do meio ambiente e para o processo de reutilização de resíduos da construção civil, a Associação dos Catadores Municipais de Resíduos Sólidos (Acamaré), de São Miguel dos Campos, firmou parceria com a Prefeitura da própria cidade. A Acamaré vai receber restos de obras para dar destinação de forma sustentável, contribuindo ainda para geração de renda dos cooperados da Associação. A partir desta iniciativa, esta cooperativa se torna a única do Estado a receber este tipo de entulho.

A parceria visa promover a qualidade do meio ambiente foi firmada entre os representantes da Acamaré, da Gestão Ambiental das obras de duplicação da BR-101 NE/DNIT, o Consórcio BR-101/AL e o secretário do meio ambiente de São Miguel dos Campos, Herman Zeferino. O acordo foi celebrado em março.

Alagoas possui atualmente 13 associações e cooperativas de catadores de lixo regulamentadas. Três delas estão instaladas em Maceió e as outras dez distribuídas em outros municípios alagoanos.

 

Morador teme que campo da Salgema vire local de “bota-fora”

O líder comunitário do bairro do Pinheiro, Gabriel Tenório, tenta evitar o descarte irregular de resíduos da construção civil no campo de futebol da Salgema. No local já há grande quantidade de restos de pavimento asfáltico. De acordo com ele, há no terreno um espaço adequado para a disposição apenas de lixo domiciliares. “Firmamos uma parceria com a Prefeitura de Maceió para que em uma parte do campo da Salgema possamos receber o descarte de lixos domiciliares, menos os entulhos de obras”, disse Gabriel Tenório, que tem a ideia de solicitar a instalação de um ecoponto no local.

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Gabriel Tenório chama atenção do carroceiro que despejou entulho de obras no campo da Salgema (Foto: Marcelo Alves)

Quanto aos resíduos da construção civil, Gabriel Tenório explicou que a preocupação é evitar que mais entulhos de obras sejam jogados no local e acabem com o campo de futebol que é um lugar de lazer para a comunidade do Pinheiro e Mutange. “O receio é que o campo vire local de ‘bota-fora’”, disse Gabriel Tenório.

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Gabriel Tenório mostra entulhos de obras jogados próximo ao campo da Salgema (Foto: Marcelo Alves)


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