Boa Tarde!, Sábado - 18 de Agosto de 2018

 

Encenação da Última Pena de Morte no Brasil movimenta Pilar com cultura e história

Luís Otávio Mendonça - estagiário / 5:19 - 02/05/2018

Espetáculo é uma tradição do município, com a participação de atores profissionais e moradores da cidade


Nem mesmo a forte chuva impediu que a população de Pilar comparecesse ao Ginásio de Esportes da cidade para assistir à encenação da Última Pena de Morte do Brasil, realizada no sábado (28). O evento, que já é uma tradição e feriado municipal desde 2008, reencena os acontecimentos que levaram à execução do escravo Francisco, responsável, ao lado dos companheiros Prudêncio e Vicente, pelo assassinato do capitão João Evangelista de Lima e sua esposa, Josepha Marta de Lima, donos do Hotel Central, em Pilar.

Durante anos, a apresentação foi feita ao ar livre, com elenco e população seguindo rigorosamente o horário oficial dos acontecimentos e pontos turísticos, concluindo no Sítio Bonga, local do assassinato e da execução do culpado. No entanto, a encenação tem mudado e adquirido moldes mais teatrais e tradicionais, com ares de “espetáculo” como pede o nome. No lugar dos prédios e ruas, projeções no telão; atores dividem espaço com música, dança e luzes que ajudam não só a narrativa da peça, mas também a resgatar as origens, a cultura e a história de luta do povo negro e da própria cidade de Pilar.

Legenda (Reprodução)

(Reprodução)

De acordo com o diretor artístico Alberto do Carmo, a decisão de levar o espetáculo para os palcos é uma forma de aproximar a população dos fatos e expandir a ideia para algo além da simples encenação do enforcamento. ‘’Existem momentos importantes no turismo histórico geográfico que é você participar de uma visita ponto a ponto, onde era o hotel, a igreja e todo o trajeto até o Sítio Bonga, isso é muito necessário. Mas a gente não atende 100% das pessoas que querem conhecer os fatos’’, diz.

O diretor ainda enfatiza a importância do teatro enquanto promotor de histórias e da participação da população na produção do show. ‘’Não existem livros disponíveis para que as pessoas conheçam a história. E quem faz teatro quer contar a história’’, defende Alberto.

Ele ainda aponta que é importante acordar a comunidade para a necessidade de um espaço em que caiba o teatro, a dança, a música e a cenografia. ‘’É preciso que as pessoas se apaixonem pela arte e isso vem com um trabalho bem feito, um trabalho que você vai pra casa processando tudo o que viu e diz: é o que eu quero pra mim’’, completa.

Participação popular

Nesse sentido, a participação da comunidade vai além do papel de espectador. Tanto nos bastidores como no palco, moradores e servidores públicos, de todas as faixas, se unem a profissionais já experientes e ajudam a contar a história. É o caso do estudante Eduardo Canuto, de 22 anos, que participa pela terceira vez da apresentação e contou que acredita na força desses eventos culturais como veículos de transformação.

“A cidade é muito rica cultural e historicamente e também poderia servir como espelho para todo o estado de Alagoas’’. O jovem ainda afirma que participar da encenação foi importante para entender seu papel dentro da comunidade. ‘’Essa experiência é ótima, pois possibilita apreciar tudo que acontece na produção e ainda te faz parte de algo, um membro ativo’’, completa.

Legenda (Reprodução)

 (Reprodução)

Conforme a apresentação avançava, o público, que de início se mantinha resistente à demora, se entregou e aclamou cada ato da encenação, em especial os momentos com cantos e danças de origem africana – algo a se destacar em uma comunidade fortemente católica e que demonstra resistências a essas manifestações no cotidiano da cidade.

O contexto histórico e social da narrativa assumiu, assim, um papel importante não só no sentido estético, mas também na humanização dos personagens dos escravos e na empatia e identificação por parte do público. Para Alberto, isso é importante, pois arte é reflexão e considerando o momento atual do país, lançar ao debate questões como a violência e a realidade do povo negro são mais que necessárias. “Nós estamos vivendo um peso muito violento e a gente precisa, realmente, gritar de todas as formas que a arte é um grande caminho. O grande apelo do espetáculo é esse, é o inverso, é contra a violência’’, diz.

Sobre o papel de mudança que a cultura pode provocar, ele apontou os resultados que a produção trouxe na dinâmica com a população local. ‘’Esse ano, tive muita surpresa. Pessoas que não conseguiam ler estão com papéis com falas! Eu fiquei muito feliz e muito emocionado com as pessoas aceitando esse desafio’’, conclui.

A atriz sempre viaja de Maceió com a família de artistas para encenar o espetáculo em Pilar (Reprodução)

A atriz sempre viaja de Maceió com a família de artistas para encenar o espetáculo em Pilar (Reprodução)

A mãe de Francisco

Essa transformação da realidade também é um dos motivos que leva Diva Gonçalves a participar da encenação há tantos anos. Com mais de duas décadas de carreira, a atriz que interpreta a mãe do escravo Francisco afirma que a iniciativa agrega positivamente à cultura da cidade e à vida da população.

‘’O espetáculo é muito controverso, no sentido de estar ‘celebrando’ a última pena de morte, ou seja, está celebrando a morte. Mas não [é isso], ele está contando a história de Pilar. Além de contar a história, tem esse incentivo ao teatro. Há um incentivo à população para trabalhar como atores, figurantes e técnicos’’, destaca.

Confira mais sobre o que acha a veterana dos palcos, que sempre viaja de Maceió com a família de artistas para encenar o espetáculo em Pilar.

O que te motiva a participar, ano após ano, dessa apresentação?

Diva Gonçalves: Bom, a princípio, o tema mesmo. Não a pena de morte em si, mas a escravidão, os problemas que ela ocasionou e que até hoje a gente enfrenta por conta disso. Eu, particularmente, me descobri negra nesse espetáculo! Já sabia da minha cor, era uma coisa evidente, lógico, mas a gente às vezes esquece que é negro. Então, isso aí vai instigando você. Além de, lógico, o trabalho de atriz. Qualquer trabalho que me motive de uma forma mais forte é instigante. Tudo isso me motivou a estar aqui hoje.

A pena de morte no Brasil era usada para punir escravos que cometiam crimes contra seus donos. Você acredita que, dessa forma, ela servia ao cumprimento da Justiça ou era mais uma ferramenta para impor o medo?

Olha, isso é muito complicado da gente falar, porque, de qualquer forma, os crimes tinham que ser punidos. Mas assim, especificamente para punir escravos, já era uma forma de segregar aqueles indivíduos que cometiam erros como qualquer pessoa, como brancos, como índios. Você especificar que aquele tipo de pena era para aquela pessoa [escravo] já era uma forma de segregar.

O Brasil vê uma proliferação de defensores do “bandido bom é bandido morto” e a volta da pena de morte ao sistema de Justiça brasileiro. O que você acha disso?

Agora eu vou partir pro lado religioso: eu acho que quem dá a vida é Deus e quem tira a vida é Deus. Realmente, tem uns crimes que me revolto. Lógico que eu nunca externei isso, mas já houve tempos que eu desejei a morte de um indivíduo que cometia um crime hediondo. Mas a vida vai ensinando a gente, né? Eu não sou a justa, eu não sou Deus, eu não sou a pessoa mais correta do mundo pra dizer qual é a forma de justiça para tais crimes. Mas eu acho que a vida não se paga com a vida. Hoje eu não congrego com esse tipo de pensamento.


Comentar usando