, Sexta-Feira - 19 de Outubro de 2018

 

Diversidade sexual e relacionamentos abertos são temas em filmes

Correio Braziliense / 11:02 - 30/07/2018

Esmir Filho alerta para a quebra de parâmetros, natural nos dias de hoje


filme- diversidade
A pluralidade do cinema brasileiro atual, uma consequência da consolidação do setor audiovisual, vem celebrada pela cineasta Mariana Bastos, com a expressividade do “maior público de cinema nacional”, que aponta para menores faixas etárias. “Ao mesmo tempo, jovens diziam em pesquisa que não se sentiam tão representados nas telas. Ultimamente, tenho visto filmes com mais questões geracionais e conflitos de juventude — nosso filme, Alguma coisa assim (feito em parceria com Esmir Filho), busca contemplar esta pluralidade”, observa a diretora. No longa, um leque de discussões se expande, alcançando desde a multiplicação de desejos carnais, fora de amarras de modelos, até a sobreposição de relacionamentos. O cardápio variado de amores se espalha por títulos como Todo dia e Abrindo o armário, em exibição ou às vias de chegarem às telas.
“Denominações intermediárias entre os gêneros binários (masculino e feminino) fazem parte de uma evolução de pensamento da sociedade e que, por isso, acaba sofrendo tentativas de contenção. Tem sempre um pensamento conservador tentando barrar, mas, dar lugar à discussão já é um grande passo”, avalia Mariana Bastos.
Esmir Filho, que também assina a direção de Alguma coisa assim, alerta para a quebra de parâmetros, natural nos dias de hoje. “No filme, seguimos a teoria do gato na caixa: enquanto ninguém está observando você, você consegue viver. Quando alguém vem, e já quer rotular, catalogar, as coisas morrem ou vivem ainda mais. Se a homossexualidade está mais aceita na sociedade, não sei responder, mas sinto um eco de identificação nos espectadores. Quem vê o filme, se dispõe a repensar suas relações”, avalia Esmir, que ressalta a importância de integrar uma equipe mista, “muito 50% a 50%, entre homens e mulheres”.
Mariana diz que Alguma coisa assim funcionou muito, por causa das “duplas de talentos, entre homens e mulheres”, da produção à direção, passando pelos atores. “Cada um tem a sua visão, e por meio do seu gênero, joga com a complementariedade”, demarca. Um tom de nostalgia abraça as visões de ambos cineastas, de 35 anos. Ao seu modo, eles comemoram avanços de percepção do público e das possibilidades dramatúrgicas: “O filme trata da relação da liberdade da mulher”, nota Mariana, enquanto Esmir completa — “Vivemos num mundo em que o trans, por exemplo, está cada vez mais se manifestando. Acho isso legal”
Multiplicidade
Em meio à porção de possibilidades de identificação junto ao espectador, o circuito trouxe o lançamento de Todo dia, um romance cinematográfico adaptado da literatura de David Levithan, que traz na galeria de personagens Vic, feito pelo ator trans Ian Alexander, que na vida real sublinha o caráter pansexual (com indistinta preferência por gêneros). Vic é uma das facetas, na trama de Todo dia, do personagem (personalidade ou alma) intitulado “A”. Independente da aparência, seja um negro, uma menina ou alguém com orientação sexual inesperada, “A”, a cada dia adere ao corpo de seja uma pessoa diferente. Interferindo na vida de Rhiannon, “A” a enriquece, sob proteção e carinho. Em suma, ama.
Dirigido por Michael Sucsy, Todo dia reforça a queda dele pela extravagância temática: em Grey Gardens, apostou na dramatização de anterior documentário sobre abiloladas parentes de Jacqueline Kennedy, enquanto, há seis anos, escalou Rachel McAdams e Channing Tatum para o longa Para sempre, sobre um homem empenhado a recuperar, todo santo dia, um amor perdido. No novo filme dele, Todo dia, uma cartela de pretendentes circunda Rhiannon: o acomodado namorado dela, Justin (Justice Smith); um aproveitador chamado Nathan (Lucas Jade Zumann), o tímido Alexander (Owen Teague, em bela atuação) e, ainda no páreo, a humilde e incógnita alma “A”.
Quatro perguntas / Esmir Filho, cineasta
Como foi trabalhar a inconstância de sentimentos dos personagens de Alguma coisa assim, em três momentos distintos?
Tivemos (a codiretora e eu) um prêmio em Cannes com um curta homônimo, em 2006, já com os personagens Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes) em cena. Retomamos o material bruto daquela época e ressignificamos tudo. Nos reunimos com os atores, e dissemos: ‘vamos ver o que mudou nas nossas vidas, incluir o que tá sendo discutido hoje?’; isso em 2013. Foi daí que entrou a questão do casamento, Mari sendo mais liberal e Caio em busca de raízes. Mesmo casando com outro homem, ele gosta da instituição. Vontades e desejos não pertencem a um gênero; são elementos que se cruzam. Em 2016, fomos para Berlim e filmamos a última parte. Estávamos com o roteiro estruturado para reunirmos as partes. Tratamos do relacionamento, ao longo de 10 anos, como afeto. Trabalhamos num recorte sensorial — até a época deles para de fazer sentido, em determinado ponto. O que importa é como eles se afetam por um relacionamento sem rótulos e de lida difícil.
Como revê o curta que originou toda a atual criação em longa?
Filmamos numa Rua Augusta cheia de neon. E com adolescentes de quase 18 anos. Foi o recorte de uma época, e a gente tava discutindo uma rua boêmia, uma rua que se abria para a expressão de sexualidade. Meninos com meninos, e meninas com meninas andando de mãos dadas. Se beijando em lugares públicos; eles não ocupavam mais um lugar marginal e de caverna. Saíam do underground e iam para cima. Existe a nostalgia em grãos na fotografia com visual dos 16mm.
Há uma cena forte de ruptura, em meio a uma parada sobre diversidade sexual…
Nossos personagens vivenciam e refletem sobre isso. Não é dado, ao acaso, o fato de eles viverem uma relação fora dos padrões. Eles sentem as dores e delícias de contarem com isso. Dentro disso, experimentam o desejo pela pessoa do mesmo sexo, o desejo de raiz, ou o desejo de um relacionamento aberto. Na parada gay da Alemanha, foi legal filmar a movimentação de afirmação. Mas a gente não abre mão da particularidade de cada pessoa dentro deste contexto. Eles ficam meio perdidos, na cena, sem participar daquela vibe. Estão em crise.
 
Filmar em Berlim foi definitivo, para dar novos nortes?
Quem vive uma vida alternativa em São Paulo vê que se assemelha muito ao estilo de vida dos jovens de Berlim. Eles andam de transporte público, buscam as bicicletas, querem sair à noite sem pagar muito dinheiro pela diversão e há o lance da ocupação da cidade. São cidades em constante transformação. São cidades que parecem o ser humano, aos 30 anos: velhos demais para algumas coisas e jovens demais para outras tantas.
 Abrindo o armário (2018)
Estreia prevista para   16 de agosto
Documentário sobre construção e a afirmação do movimento gay no Brasil, organizado a partir dos anos de 1970. Violência, combate a preconceitos e forças de expressões individuais e coletivas permeiam o longa-metragem da dupla Dario Menezes e Luis Abramo.
Alex Strangelove (2018)
Sucesso de repercussão nas redes sociais, o longa exibido pela Netflix flerta com representatividades da sigla LGBTQ. Com o sugestivo nome de Alex Truelove, o protagonista Daniel Doheny está prestes a perder a virgindade para Claire (Madeline Weinstein). Isso até o momento em que conhece Elliot  (Antonio Marziale).
A direção é de Craig Johnson.

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