, Quarta-Feira - 15 de Agosto de 2018

 

Desemprego, corrupção e eleições chamam mais atenção que a Copa

Correio Braziliense / 10:32 - 12/06/2018

Às vésperas da estreia, Seleção brasileira disputa a atenção do torcedor. E há quem tente separar a paixão pelo futebol do verde-amarelo


A menos de uma semana da estreia da Seleção no Mundial da Rússia, os brasileiros estão mais preocupados com os problemas do cenário político do que com o que acontecerá dentro das quatro linhas. De acordo com estudo da Diretoria de Análise de Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV), desde o fim do mês passado, temas como desemprego, corrupção, eleições e a greve dos caminhoneiros tiveram mais atenção nas redes sociais do que a Seleção. Nos últimos 12 dias, foram 2,3 milhões de menções nas redes à Seleção Brasileira e à Copa, enquanto 4,8 milhões de postagens tratavam de temas políticos. Nas redes sociais, os debates sobre o apoio ao time brasileiro (ainda que em segundo plano) são calorosos e movimentam muitos torcedores às vésperas do Mundial.
 20180612095100505973u
A insatisfação dos torcedores com a política vai até trazer tons diferentes para a torcida brasileira durante a Copa. Descontentes com o governo Temer e sem querer se associar com a camisa oficial da Confederação Brasileira de Futebol – camisa usada por muitos manifestantes nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff – muitos torcedores optam por camisas de cores diferentes do tradicional verde-amarelo e outros podem optar por torcer com a camisa de seus clubes, deixando de lado a camisa da CBF.
Misturando futebol e protesto político, a designer mineira Luísa dos Anjos Cardoso lançou uma camisa vermelha inédita para a Seleção. Inicialmente, a camisa vermelha tinha o escudo da CBF, mas nas versões mais recentes o símbolo da entidade foi excluído. Em um vídeo publicado na sua rede social, a mineira afirmou que a ideia da camisa surgiu do incômodo dela e de amigos em torcer pela Seleção usando a camisa oficial da CBF após vestimenta ser usada por manifestantes da direita.
Poucos dias após lançar a camisa vermelha, a entidade máxima do futebol nacional notificou Luísa e pediu para que ela não vendesse mais a camisa com o símbolo da CBF. A logo da entidade foi retirada da blusa e a nova versão continua sendo vendida com opções de números 13, 50 ou sem número. O preço por camisa é de R$ 45. A reportagem procurou a designer para saber o total de camisas vendidas até agora, mas não teve retorno.
O escritor Marcelo Rubens Paiva, apaixonado por futebol, tem sido duro crítico da CBF. Ele afirma que jogou fora as duas camisas que tinha da Seleção depois do impeachment de Dilma e que deve torcer pelo Brasil com a camisa do Corinthians. Outros fatores que contribuíram para aumentar a antipatia e o repúdio ao escudo da entidade foram as denúncias de corrupção envolvendo seus dirigentes.

Futebol e política

O uso político da Seleção é histórico no Brasil. Uma das maiores paixões nacional e motivo de orgulho – deixando de lado o 7 a 1 em pleno Mineirão em 2014 – não passaria incólume pelos interesses políticos, independentemente dos partidos no poder. Ao longo dos anos foi comum a tentativa de associar a imagem de sucesso do futebol a governos.
Antes mesmo do primeiro título mundial da Seleção, na década de 1930 o então presidente Getúlio Vargas percebeu a importância do esporte para a população, afetando o humor de grande parte da sociedade. Na Copa de 1934, na Itália, Vargas estabeleceu uma zona de influência dentro da equipe, determinando que Lourival Fontes, homem-forte do governo, se tornasse o chefe da delegação. A partir de então, os atletas brasileiros passaram a representar internacionalmente – no discurso oficial – uma espécie de “novo homem brasileiro”.
Em 1950, ao receber o Mundial pela primeira vez, a atuação política para usar o futebol como símbolo do país ficou ainda mais clara. A construção do Maracanã – na época o maior estádio do mundo – se tornou uma demonstração da força nacional e foi muito usada no discurso político. “Era como se a construção do Maracanã e a vitória na Copa dessem uma lição ao mundo sobre a grandiosidade da nação. E o governo tentava faturar em cima disso, apesar de todos os problemas econômicos com a alta inflação gerada por um crescimento financeiro desequilibrado’, avalia a jornalista Vanessa Gonçalves da Silva, em seu estudo A força de uma paixão: Política e Futebol durante a ditadura militar no Brasil.
Segundo Vanessa, na Copa de 1970, um dos períodos mais violentos da ditadura militar, houve forte uso político da Seleção para angariar apoio popular. “O jingle oficial é conhecido até hoje (“90 milhões em ação, para frente Brasil, salve a Seleção …”). Como Médici era apaixonado por futebol, buscou sempre essa ligação e sabia da importância do futebol. A Seleção fez uma visita na sede do governo e tem a foto com todos os atletas perfilados, como se fosse parte do Exército mesmo. A intenção era demonstrar que eles representavam o governo”, explica Vanessa.
Diante desse cenário, a militância que se opunha ao governo militar torceu contra a Seleção? “Nada disso. A maioria das pessoas, inclusive presos políticos, conseguia separar muito bem as duas coisas. Os poucos que viam com contrariedade essa ligação forçada entre o time e o governo logo foram contaminados pela qualidade da Seleção brasileira. E a grande maioria entendia que a Seleção era algo do país, não da ditadura”, explica Vanessa, que entrevistou vários presos políticos da década de 1970 para saber o que eles pensavam sobre a seleção.

Antipatia

Durante a Copa de 1970, o médico Apolo Heringer Lisboa, vivia clandestinamente na zona morte do Rio de Janeiro. Sem televisão em casa, o rádio era o veículo usado para acompanhar os jogos do Brasil. Segundo Apolo, pouquíssimos militantes torceram contra a equipe de Pelé, Jairzinho e Tostão, mas representantes do governo tentaram mostrar na imprensa que a oposição aos militares torcia contra o país.
“Eu era torcedor fanático da Seleção. Os militares tentaram manipular a situação, vendendo a imagem de que a equipe era do Estado e que era preciso amar o país como o povo amava a seleção. Acho que o mesmo acontecerá agora, as pessoas sabem diferenciar as coisas. Temer está com prazo esgotado,E criou-se uma antipatia das camisas da CBF, mas todo mundo vai torcer muito pelo Brasil’, aposta Apolo.

Comentar usando