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Crise literária: Alfarrábios de Maceió ainda acreditam no poder da leitura

Érika Messias e Jessyka Soares / 8:00 - 01/12/2018

No centro da capital, grupo de vendedores se mostra resistente a ação do tempo e ao advento das novas tecnologias


O Brasil vem sofrendo grandes perdas com a atual crise econômica que assola não apenas trabalhadores, mas, empresas também. Ultimamente uma área que vem sofrendo muito com essa crise é o mercado literário, onde várias livrarias de renome continuam fechando silenciosamente suas sedes e acumulando dívidas. Mas aqui em Maceió o comércio de alfarrábios resiste e ainda tem esperança de que os livros continuem sendo a melhor oportunidade de conhecimento para todos.

No coração do centro da cidade um pequeno grupo de vendedores de livros se mostra resistentes a ação do tempo e ao advento das novas tecnologias. Os alfarrábios conseguem manter um acervo rico que vai do clássico à literatura contemporânea, tudo isso com preços acessíveis que variam entre R$ 2,00 e R$ 600,00.

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Trabalhando com alfarrábio há quase 19 anos, o comerciante Rendrikson Silva ama o que faz e ainda acredita no poder dos livros. Ele começou a gostar do trabalho quando tinha 13 anos e desde então não deixou que o ofício adquirido através da avó fosse esquecido.

Rendrikson Silva ama o que faz e ainda acredita no poder dos livros.

Rendrikson Silva ama o que faz e ainda acredita no poder dos livros.

“Eu fui montando todo o negócio. Quando isso aqui surgiu eram todos em pequenas bancas e os sebos abriram divido a essas bancas, onde as pessoas procuravam discos de vinil, revistas, vídeos cacetes e logo depois CDs e DVDs. Costumo dizer que para se manter um acervo com bons exemplares, é preciso trazer outros tipos de leitura para valorizar o conhecimento e com esse trabalho tenho que continuar com esperança nos livros e que nós vamos resgatar as próximas gerações”, fala

Ele também diz que um dos maiores problemas enfrentados pelos compradores de livros são os contratos feitos por editoras e escolas, pois antigamente além de conseguir ter uma gama maior de livros, Rendrikson empregava pelo menos cinco funcionários na loja.

“Os livros didáticos eram muito procurados por pais e estudantes, hoje com o uso de módulos eles meio que perderam o valor e acabaram prejudicando as vendas. Há cinco anos isso aqui era cheio sendo possível manter funcionários e atualmente vendo menos de 200 livros em um mês, coisa que antes era o triplo”, explica

Tempos modernos

Nos últimos 20 anos, a comercialização dos livros passou por grandes transformações. Primeiro vimos pequenas livrarias sucumbirem frente às grandes redes, como a livraria cultura, Fnac, entre outras. Neste ano a livraria Saraiva, uma das maiores redes de livros, fechou vinte das suas lojas espalhadas pelo país. Entre o surgimento dos leitores digitais e plataformas como a Amazon que possibilita a compra de e-books pela internet, outro fator que tem colocado em risco a vida das livrarias é o crescente número de pessoas que tem demonstrado total desinteresse pela leitura.

Para Antônio Martinho, um baiano de 73 anos que decidiu mudar-se para Alagoas, o livro está perdendo leitores por conta da maneira que o produto vem sendo utilizado. O vendedor acha que o problema está na escolha de leitura e que para ele a nova geração – ou os novos pensadores – estão esquecendo o que realmente representa um bom livro.

“Os jovens de hoje só reparam nos livros que viram moda, aqueles que muitas celebridades fazem “jabá”, eles não procuram mais os livros com histórias boas e verdadeiras, o que em minha opinião não agrega no conhecimento maior. Mesmo assim ainda vou continuar acreditando nos livros que estou vendo e ver nossos adolescentes resgatar a leitura e começar a ter amor verdadeiro pelos livros”, comenta

Ainda há esperança

O número de jovens brasileiros que gostam de ler está melhorando, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Entre os desafios, estão as questões socieconômicas, que puxam a nossa média para baixo (como incentivar a leitura, se 2,8 milhões de crianças e adolescentes estão fora das escolas?). Ainda assim, as recentes pesquisas mostram que temos alguns motivos para ficarmos um pouco mais otimistas.

Revirando os números

De acordo com pesquisa divulgada pelo Ibope e o Instituto Pró-Livro em maio deste ano, 67% do público leitor no Brasil é composto de jovens com a idade entre 18 e 24 anos – um crescimento de 14% em relação a 2014. A mesma pesquisa aponta que os adolescentes entre 11 e 13 anos são os que mais leem por gosto, sem nenhuma obrigação escolar ou profissional. Ainda tem muito que melhorar, mas é um começo.

Para o pequeno Wesley de 12 anos, a leitura é um presente que vem de berço. Leitor assíduo desde os quatro anos de idade, um dos programas favoritos do garoto é visitar os alfarrábios e emergir no mundo das histórias em quadrinhos e animes, uma das literaturas preferidas entre os jovens.

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A leitura também tem um lugar especial entre os que gostam de misturar o estudo religioso com pensamentos filosófico. O professor de teologia, Edson Trajano que o diga, ele tenta inserir uma nova gama de conhecimento entre os mais jovens através da bíblia, assim segundo ele é possível recriar um discernimento da ciência humana.

“Como sou professor de teologia e dou aulas em uma escola dominical sempre levo um livro que trate de assuntos relacionados à religião para meus alunos, mas a cada aula tento instruí-los a procurarem conhecimento em livros seculares, como leituras sobre história, filosofia e sociologia. A bíblia é a primeira porta de edificação e abre caminhos que podem levar qualquer pessoa a gostar de ler, então desse jeito consigo fazer um casamento entre a teologia e o mundo do ser pensante”, declara

Usando as pesquisas em filosofia e a arte do saber em sala de aula, outro professor que incentiva seus alunos ao habito da leitura, é o Carlos Roberto. Os ensinamentos de Sócrates, o filosofo, é para o educador a melhor forma de se aprender e isso estaria na frase mais enigmática do pensador grego, o “Só sei que nada sei”.

“As pessoas que se esquecem da leitura e acham que isso não influencia em nada do nosso dia a dia precisam entender que não há um teto para o conhecimento. Ler é a nossa única forma de enfrentar o mundo lá fora, de ser capaz de debater e escolher entre o bom e o ruim. Em sala de aula, eu não sou apenas um professor, sou amigo e gosto de saber que meus alunos procuram nos livros suas idéias. Acho que em geral todos devemos entender que o aprendizado está nos livros e isso sempre será uma ponte infinita, nós não sabemos de tudo e devemos sempre querer aprender”, afirma

Dicas de incentivo à leitura

Foto: Jessyka Soares

Foto: Jessyka Soares

É necessário ressaltar a falta de incentivo na formação dos jovens. Muitos não foram estimulados nem quando crianças, o que resulta em um afastamento entre eles e os livros. A falta de leitura dentro de casa e a obrigação de ler livros difíceis nas escolas acabam causando uma repulsa, e o que era pra ser algo divertido e prazeroso passa a ser uma tarefa chata e entediante.

Escolha uma hora bem calma

Com as crianças, nós sabemos que há “horas calmas” e “horas agitadas”. Procure um lugar e uma hora calmos e sente-se com um livro. Dez a quinze minutos por dia é suficiente.

Descubra seu gênero

Cada um tem o seu gosto. A questão está em descobrir qual é o seu. Talvez você não seja muito chegado em leitura justamente porque não fez essa descoberta ainda. Se você não gosta dos livros que a escola obriga a ler, não significa que você não vá se interessar por leitura em geral. Então, se seu estilo não é exatamente ler os clássicos, não se preocupe, há muitos e muitos outros gêneros literários: ficção científica, terror, suspense, romance, fantasia. Encontre o seu e divirta-se!

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Reserve um tempo diário para ler

Ler é treino, e, por isso, precisa de bastante empenho, dedicação e vontade. Se você quer gostar de ler, primeiro precisa fazer da leitura um hábito. Reserve algum tempo todos os dias para se dedicar àquele livro. Pode ser do jeito que você quiser: ler no ônibus; ler à noite, em casa; ler no intervalo das aulas; ler até no banheiro. O importante é fixar essa rotina e o tempo que você dedica a ela, seja meia hora, seja uma ou mais horas. Você também não deve desistir se ficar com preguiça, porque, como eu disse, esse é um exercício de persistência!

Visite a Biblioteca

Afinal não existe lugar mais mágico para viajar sem sair do canto.

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Pratique regularmente

Tente ler com seu filho todos os dias da semana. Pouco, mas frequentemente é a melhor estratégia. Os professores da escola têm um tempo limitado para ajudar individualmente a leitura dos alunos.

Fale sobre os livros

Ser um bom leitor é muito mais do que simplesmente ler palavras corretamente. O mais importante é entender e refletir sobre o que está lendo. Sempre fale com seu filho sobre o livro, sobre as figuras, sobre as personagens, como ele acha que vai ser o final da história, sua parte favorita etc. Assim você vai ver como está o entendimento dele e poderá ajudá-lo a desenvolver uma boa interpretação.

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