Como anda o meio ambiente com a prática de esportes?

/ 6:13 - 07/05/2017

Desequilíbrio na integração natureza e atividades esportivas pode provocar degradações e interferir na qualidade de vida


Marcelo Alves
Repórter

 

A busca por práticas esportivas em ambientes naturais aumenta. A crescente relação entre estas atividades e a natureza preocupa. Especialistas temem a degradação. O medo é da capacidade de carga sobre os recursos naturais. A Liga Alagoana de Aventura (LAA) – destinada também ao trekking – já colocou 600 atletas em contato com a natureza. Alagoas Cup já pôs 101 veículos automotivos. Trekking e off road são modalidades que mais ganham adeptos em Alagoas. O site pt.wikiloc.com apresenta centenas de opções de trilhas no estado.

Para o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), impacto ambiental é qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente atinge a saúde, a segurança e o bem estar da população.

O estado, não há conhecimento de legislação específica que discipline a prática esportiva na natureza, segundo informou o presidente da Comissão de Meio Ambiente e Urbanística da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL), Eduardo de Paiva Marinho. Mas há padrões ambientais brasileiros definidos na Lei n. 6938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, para a qualidade do ar e das águas.

 

Natureza recebe o pisoteio de 600 atletas

Etapa do Pilar, a última promovida pela Liga (Foto: Emerson Limma)

A procura pelo trekking está “descontrolada”, segundo comentou o integrante da direção da LAA, Jackson da Silva. Ele disse que o último evento promovido em março passado contou com 600 participantes, na etapa que aconteceu em abril em uma área natural no município do Pilar. O número preocupa. “Já estamos programando vagas limitadas para as próximas etapas. Só não participam mais atletas porque nossos eventos são feitos no sábado”, disse Jackson da Silva. O representante da Liga assegurou que tem o aval do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL) para realizar dos eventos na natureza.

Jackson da Silva disse que durante as provas, os atletas têm contato com diversas elementos da natureza como matas e cachoeiras. No Regulamento de Competições da LAA há um item que trata sobre evitar devastação. “Pontos de Passagem Obrigatórios: Trecho da prova onde os atletas são obrigados a passar sob risco de penalização. Estes trechos têm a função de proteger atletas em travessias ou para evitar que áreas sejam devastadas”. Em outro trecho do documento, a Liga apresenta o seguinte lema: “Traga seu lixo de volta para jogar nas lixeiras do local da chegada”, sob risco de punição.

CIDADES QUEREM TREKKING – De acordo com Jackson Pinheiro, três Prefeituras Municipais do estado já solicitaram a LAA que promovam eventos em suas cidades, em 2018. “O evento também tem um efeito positivo social e econômico”, disse para justificar a procura das prefeituras.

 

“Trekking não pode virar uma romaria”

Rastros de degradação deixado pelas atividades esportivas ainda não foram constatado pelo IMA/AL. Mas há a preocupação com o aumento gradativo de atividades na natureza. Geógrafo e especialista em Análise Ambiental, o consultor técnico do IMA, Alex Nazário Silva Oliveira, disse que não há oficialmente um tipo de gerenciamento destes eventos, mas chamou a atenção para a capacidade de carga usada nestas áreas.

Alex Nazário em palestra sobre meio ambiente (Foto: arquivo pessoal)

“Este assunto é interessante, mas não está no cotidiano do IMA. A fiscalização do IMA acontece muito mais com os esportes náuticos, que usam o jetski. Mas é de se preocupar com estas outras atividades que são desenvolvidas em área de vegetação, rios e montanhas. É preciso saber se o local escolhido para a prática das atividades é propício para receber a carga da interferência humana, se foi solicitado informações sobre o uso da área”, disse Alex Nazário.

O geógrafo acrescentou ainda que até a atividade que apresenta um menor risco ambiental, como o trekking pode provocar degradação. “Se não for estabelecido e respeitado o limite do número de participantes, provas de trekking podem virar uma romaria ecológica e causar impactos ambientais irreversíveis”, disse.

 

Pesquisadora diz que atividades crescem de forma desordenada

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A ausência de um estudo científico e uma legislação específica serviu de largada para a também geógrafa e educadora física Kátia Maria de Lima Neves investigar como é desenvolvida a prática de atividades na natureza e quais os efeitos sobre a área do evento. Ela identificou que houve crescimento desordenado de atividades na natureza, bem como aumentou a necessidade de minimizar os impactos negativos deixados no meio ambiente. “Ainda há uma visão simplista em relação à promoção de um maior contato entre o homem e o meio natural, sem que tal contato resulte em impactos significativos”, disse a pesquisadora.

De acordo com sua pesquisa, Kátia Neves disse que estas atividades são comercializadas como “produto verde”, por ser realizado em ambiente natural. “Percebe-se que a busca por geração de riqueza através do markting que usa a denominação eco, dando a entender estas atividades levam em consideração as necessidades de conservação da natureza”, disse.

O estudo científico identificou ainda que as atividades acontecem na sua maior parte em ambientes de Mata Atlântica e lugares situados em regiões de outros biomas, como é o caso dos biomas da Caatinga e Cerrado. “Os municípios de Murici e Viçosa são os locais mais procurados pelos organizadores de eventos”.

 

 Rally contou com mais de 100 veículos automotivos

Além do trekking, o off road é outra modalidade esportiva que tem a natureza como pano de fundo. Promovido. Organizado por Deco Muniz, o evento Rally Baja reuniu 79 veículos automotivos entre motocicletas, quadriciclos e UTVs (Veículo Utilitário de Multitarefas) na segunda etapa do Alagoas Cup. A prova aconteceu em abril em Campo Alegre, em trechos de matas. Evento já chegou a reunir no ano passado 101 veículos automotivos no ano passado e é tido como um dos maiores do País.

RALLY

Piloto de rally durante prova em Coruripe (Foto: Site do Alagoas Cup)

O regulamento do Alagoas Cup traz que o terreno das provas é “composto na sua maior parte de paisagens naturais em trilhas rústicas, caminhos estreitos, e estradas vicinais, podendo ser, ou não, modificados pelo organizador, tudo de acordo com o que se fizer necessário e conveniente dentro do possível, para um mínimo risco dentro destes”. O texto diz ainda que, “além de eventuais vias públicas abertas, estarão as montanhas, ribanceiras, ladeiras íngremes, seções rochosas, dunas, rios, leitos secos de rios, trilhas de lama, vegetação natural, arbustos, gramas altas, florestas, estrada de asfalto, trilhas off road, etc”.

Mas Deco Muniz disse que há uma preocupação na preservação da natureza. “Temos o limpa trilha para apagar qualquer vestígio de resíduos, nem descaracterizar o meio ambiente. Utilizamos mais estradas cem por cento já existente”, disse Deco Muniz.

No regulamento, em seu artigo 21, é exigido que “os pilotos se comprometem a preservar o meio ambiente não poluindo as trilhas, os organizadores serão obrigados a retirar todo o material de sinalização no dia após o evento”.

 Site mostra centenas de opções de trilhas em Alagoas

Na Internet há o site pt.wikloc. com que apresenta mais de centenas de trilhas em Alagoas. São trajetos para diversas modalidades esportivas. Têm opções para trekking, off roads, caminhada, entre outras. São disponibilizadas informações do local, trajeto, bem como fotografias dos locais.


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