, Sábado - 23 de Junho de 2018

 

Brasil perde R$ 5,7 bilhões a cada ano por não reciclar lixo plástico

Redação com assessoria / 1:30 - 05/06/2018

Mobilização contra lixo plástico no Dia do Meio Ambiente alerta para a necessidade urgente de reciclagem em escala


Os dados são alarmantes: o Brasil produz, anualmente, mais de 78,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos, dos quais 13,5% (o equivalente a 10,5 milhões de toneladas) são de plástico. A quantidade é três vezes maior do que a produção de grãos de café esperada para 2018 (3,4 milhões de toneladas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE), considerando ainda que este é um dos principais artigos agrícolas do país.

A poluição provocada pelos plásticos é uma tragédia ambiental global que contamina o solo e os mares

Poluição provocada pelos plásticos é tragédia ambiental global que contamina o solo e os mares – (Martine Perret/ONU Meio Ambiente)

Um levantamento do Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb) estima que se o total desse montante de plástico fosse reciclado, seria possível retornar para a economia cerca de R$ 5,7 bilhões. Os dados foram divulgados nesta terça-feira, 5 de junho, quando se comemora o Dia Internacional do Meio Ambiente. A pauta do dia, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), é “Acabe Com a Poluição Plástica”.

“O Brasil ainda destina inadequadamente cerca de 40% de todo o resíduo gerado no país. São bilhões de reais que poderiam ser revertidos para a construção ou modernização de aterros sanitários, ampliação dos serviços de coleta e outras atividades relacionadas à limpeza urbana”, afirma Marcio Matheus, presidente do Selurb.

A soma bilionária foi calculada considerando o montante de plástico destinado inadequadamente por ano (41,6% do total, segundo Panorama Nacional dos Resíduos Sólidos 2016) multiplicado pelo preço médio do plástico geral praticado nacionalmente em maio de 2018 (R$ 1,32). “O gerenciamento de resíduos envolve uma rede complexa de atividades e a reciclagem é um pilar que precisa começar a ser desenvolvido como oportunidade de negócio. Do contrário, não terá resultado concreto”, completou Marcio.

Esta urgência não é só brasileira, mas reflete uma realidade mundial, na qual o aumento do poder de compra da população e os altos investimentos em novas fábricas e tecnologias serão responsáveis por um aumento de cerca de 30% na produção de plástico em menos de 10 anos. O resultado direto em “mais lixo” pode ser revertido com ações concretas de reuso e destinação correta.

Carregado para o mar

Tartaruga tem pedaço de canudo extraído de forma dolorosa por ambientalistas (Foto: Reprodução)

Tartaruga tem pedaço de canudo extraído de forma dolorosa por ambientalistas (Foto: Reprodução)

Por se tratar de um material de difícil decomposição, o plástico acaba se acumulando na natureza. Quando a gestão dos resíduos sólidos não existe ou é ineficiente, o lixo descartado de forma incorreta se acumula nas ruas e lixões e, com a chuva, acaba alcançando os corpos hídricos. Chegar aos oceanos é um resultado é inevitável, neste cenário. Estimativas da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA) indicam que, anualmente, 25 milhões de toneladas de lixo chegam ao mar, dos quais entre 60% e 80% desse montante é plástico, segundo a ONU.

“A maioria da população imagina que as culpadas pelo plástico nos oceanos são as cidades litorâneas ou embarcações. No entanto, a maior parte da contribuição vem das diversas cidades que possuem lixões próximos a rios e riachos. Estudos mostram que cerca de 80% dos resíduos que chegam ao mar vêm de locais distantes do litoral”, revela Carlos Rossin, engenheiro especialista em sustentabilidade e coordenador de diversos estudos sobre resíduos sólidos.

Reciclagem como negócio em escala

Segundo ele, para reverter esse quadro, o Brasil precisa dar um passo essencial na gestão de resíduos, que é erradicar os quase três mil lixões existentes no país e implantar uma rede regionalizada de aterros sanitários, empreendimento desenvolvido para tratar adequadamente os resíduos.

Plástico em fardos, sendo processado em reciclagem (Imagem: Site do Plástico)

“Se ilude quem acha que é possível fazer reciclagem em um país continental sem buscar soluções de escala. A reciclagem só será possível quando houver viabilidade econômica, o que inclui incentivos governamentais, com isenções fiscais, e estrutura logística para tal. A primeira medida é desenvolver soluções logísticas que concentrem esses materiais, como ecoparques – que apresentam, também, a estrutura dos aterros legalizados. A partir disso, será possível diluir os altos custos logísticos e trazer viabilidade econômica para que os materiais recicláveis cheguem à indústria a um preço atrativo, como aconteceu nos EUA”, afirma Rossin, que foi diretor de Sustentabilidade da PwC e conselheiro do Pacto Global em São Paulo.

De acordo com o especialista, o modelo mais adequado ao Brasil é o aplicado hoje nos Estados Unidos, por ambos serem países de extensão continental, com facilidade em geração de energia e disponibilidade de grandes espaços, entre outros aspectos que influenciam a viabilidade econômica das soluções para o setor.

Com 20 mil lixões na década de 1960, os EUA implementaram 2 mil aterros sanitários regionais em 15 anos e, com isso, passaram a utilizar a mesma estrutura de tratamento para diversas cidades, reduzindo os custos logísticos, viabilizando economicamente a reciclagem e a estruturação de plantas de geração de energia dentro dos aterros.

Dia Mundial alerta para a questão do plástico

Celebrado nesta terça, o Dia Mundial do Meio Ambiente tem como tema em 2018 “Acabe Com a Poluição Plástica”, em um esforço da ONU de mobilizar governos, setor privado, comunidades e indivíduos sobre os perigos do consumo excessivo de produtos plásticos descartáveis.

Os problemas na gestão de resíduos comprometem também uma série de avanços, como o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos durante a Cúpula das Nações Unidas em 2015 e que deveriam ser atingidos até 2030.

Considerados por especialistas o grande desafio dos próximos anos, esses objetivos envolvem a redução da geração de resíduos por meio de redução, reciclagem e reuso de materiais, o aumento da conscientização sobre desenvolvimento sustentável e a redução da poluição marinha, especialmente a advinda de atividades terrestres. Algo que só será possível se governo, iniciativa privada e sociedade atuarem de forma conjunta.


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