Boa Tarde!, Domingo - 22 de Julho de 2018

 

Assédio virtual: a nova ameaça no ambiente de trabalho

/ 6:46 - 05/02/2018

Problema provoca situações ocorridas no “mundo real”


Marcelo Alves – Repórter

Arte: Rodrigues

Arte: Rodrigues

Ambientes de trabalho sob nova ameaça. Ataques por meio de mídias digitais. Do mundo real, o assédio surge com outro formato e acessa o universo online. O perigo recebe o nome de assédio virtual, que pode ser moral ou sexual, e já causa preocupação. Tanto no espaço físico quanto no digital, os danos provocados aos trabalhadores têm a mesma proporção. Algumas vítimas denunciam. Outras temem contar que sofrem com a situação. As denúncias feitas estão sendo investigadas. Como medidas de proteção, códigos são criados.

 

Atestado médico de enfermeira é publicado em grupo de WhatsApp do trabalho

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Arte: Rodrigues

Denúncia de assédio virtual contra técnica de enfermagem segue sob investigação do Ministério Público do Trabalho, em Alagoas (MPT/AL), segundo informou o presidente do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem em Alagoas (SATEAL), Mário Jorge Filho. De acordo com Mário Jorge, uma profissional da área de saúde (que ele preferiu não identificar para evitar retaliação) disse ter tido o seu atestado médico com as informações da doença que a afastou dos serviços publicado em um grupo de WhatsApp do seu local de trabalho.

“Um gestor de uma unidade de saúde de Maceió deu publicidade ao atestado médico de sua funcionária em um grupo de WhatsApp do trabalho. Na publicação feita pelo gestor, que é o administrador desse grupo (WhatsApp), causou constrangimento a funcionária ao divulgar a patologia dela. Isso é antiético e constrangedor”, disse Mário Jorge, que também preferiu não informar o nome do gestor, para não atrapalhar a investigação. Este caso é um dos inúmeros que são denunciados ao SATEAL-AL, conforme informou o presidente do sindicato. “A prática de assédio virtual é constante. Não é novidade que estes casos acontecem, mas somente agora está havendo divulgação”, disse.

Para o presidente do SATEAL-AL, o assédio virtual é fácil de ser identificado. “É fácil, sim, identificar um assédio virtual. Quando chega a denúncia, apuramos. Quando confirmada, passamos o caso para os órgãos competentes. Diante da gravidade é feito até Boletim de Ocorrência”, disse.

 

Especialista em Direito Digital fala sobre gravidade do assédio virtual

 

Professores sofrem realidade assustadora com assédio no espaço online

EDUARDO V.

Eduardo Vasconcelos diz que assédio já afeta professores

O presidente do Sindicato dos Professores de Alagoas (Sinpro-AL), Eduardo Vasconcelos, afirma que o assédio virtual é uma realidade entre a categoria e vê com preocupação a quantidade de vítimas deste crime. “O assédio virtual é como se fosse uma pistola que pode desencadear seríssimos problemas psicológicos”, disse Eduardo Vasconcelos, que descreveu como esta nova realidade afeta o ambiente de trabalho dos professores. Segue a entrevista:

 

 

 

 

1 -O assédio virtual é uma realidade enfrentada pelos professores?

2 – Como o Sinpro-AL vê essa situação e o que está sendo feito para combatê-la?

3 – Quantas denúncias de assédio virtual sofridas pelos professores chegaram ao Sinpro-AL?

4 – Qual a orientação que o Sinpro-AL dá aos professores vítimas de assédio virtual?

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 “Bancários enviam mensagens no final de semana cobrando metas”

Arte: Rodrigues

Mensagens de WhatsApp e e-mail são enviadas nos finais de semana aos bancários cobrando metas no trabalho. A denúncia é do presidente em exercício do Sindicato dos Bancários de Alagoas, Juan Gonzalez. “São enviadas mensagens por e-mail e pelo WhatsApp para os bancários da seguinte forma: ‘colaboradores, a meta de hoje é de cento e cinquenta por cento, quanto a meta do dia anterior foi de cem por cento’. A gente vê isso como metas abusivas, enquanto que os banqueiros usam o termo metas desafiadoras’”, disse Juan Gonzalez.

O presidente em exercício do Sindicato dos Bancários confirma a existência do assédio virtual entre a categoria, mas diz encontrar dificuldades para comprová-lo, pois percebe que a agressão escrita das mensagens não fica explícita. “O assédio virtual vem camuflado em textos rebuscados. Apesar da mensagem de assédio vir de forma subliminar, há como identificar e ingressar com ação judicial”, disse Juan Gonzales.

Ainda de acordo com Juan Gonzales, a facilidade de identificar o assédio no ambiente virtual resulta da instantaneamente e da rápida propagação da mensagem. Enquanto que, para ele, é mais difícil identificar estes casos no mundo real. “O assédio se torna mais danoso no mundo real do que o que ocorre no ambiente online”, disse. “O assédio virtual é como um veneno que é injetado no bancário que é silencioso mais que pode causar danos irreversíveis”, completou.

 

MPT/AL alerta sobre os perigos deste novo mal que afeta o ambiente de trabalho

 

Mais de 500 denúncias foram feitas por profissionais de telemarketing

No ano passado, mais de 500 denúncias de assédio virtual foram enviadas ao Sindicato dos Trabalhadores de Empresas, Telecomunicações e Operações de Mesas Telefônicas em Alagoas (SINTTEL-AL). O presidente do SINTTEL-AL, Joseval Barbosa da Silva, disse que a maioria dos casos ocorre em grupos de WhatsApp de trabalho. Ele contou que apura as acusações e se confirmadas, busca solucionar a situação com a direção das empresas. “Quando o assédio é confirmado, o Ministério Público do Trabalho em Alagoas é acionado”, disse Jovesal Barbosa.

O presidente do SINTTEL-AL disse que há denúncias que não se configuram em assédio virtual, porque ocorre apenas má interpretação do texto da mensagem ou erro de escrita. “Às vezes não dá para identificar o assédio nas mensagens do WhatsApp. Muitos casos há erro de escrita. Tem mensagens que possuem tom de brincadeira. Há até má colocação de vírgula”, disse o presidente do SINTTEL-AL.

Segundo Joseval Barbosa, todas as redes sociais das empresas de telecomunicações do Estado são monitoradas pelo sindicato. “Temos duas grandes empresas de telemarketing aqui no Estado, sendo uma em Maceió e outra em Arapiraca. Há também operadoras de telecomunicações, prestadores de serviço e telefonistas”, disse. No Estado, há 15 mil trabalhadores da área de telecomunicações. Para ele, não há diferença entre o assédio virtual e o real. “Os dois casos provocam os mesmos problemas ao trabalhador”, disse.

 

“Assédio virtual deixa provas materiais”, diz oficial técnica da OIT

A reportagem entrou em contato por telefone com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) para saber como o órgão vê o assédio virtual. A oficial técnica de Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho da OIT, Thais Faria, disse que não há qualquer dúvida sobre a existência do assédio virtual. “Não há um estudo específico feito pela OIT sobre o assédio virtual, mas não há nenhum questionamento que gere dúvida sobre a existência do assédio virtual”, disse Thaís Faria.

Thais FariaAo fazer a comparação do assédio praticado no mundo real com o virtual, Thaís Faria afirmou que é mais fácil obter provas no espaço online do que no ambiente real. “Apesar de ser um ambiente virtual, as provas materiais são mais fáceis de serem obtidas. A obtenção de provas ser feitas através de print de mensagens de conversas em WhatsApp, bate-papo de Facebook, e-mails ou da tela do celular. Isso tudo é prova material oriunda do meio virtual”, disse Thaís Faria.

A representante da OIT disse também que, com estas provas, o assédio virtual não precisa de testemunha para comprovar a situação. “Quanto à gravidade, não dá para quantificar qual dos assédios (virtual e real) são mais prejudiciais aos trabalhadores. É uma consequência de fatos, que inicia no ambiente real e segue no virtual. Mas no ambiente virtual, o assédio acontece com mais intensidade porque o agressor não precisa de espaço físico para insistir com o assédio”, disse Thaís Faria.

 

Empresas criam código sobre mídia digital, mas não tratam o termo assédio virtual

Empresas estão criando códigos de ética e de conduta visando assegurar a integridade e o bem estar no ambiente de serviço. A reportagem realizou uma pesquisa em algumas corporações e verificou que o termo assédio virtual não fica explicito, mas há orientações sobre como utilizar o espaço online no ambiente de trabalho.

UNIMED – Quanto à utilização de internet e redes sociais no ambiente de trabalho, a Unimed recomenda alguns cuidados, como não compartilhar imagens (fotos ou vídeos) da instituição, dos colaboradores ou dos clientes em redes sociais ou qualquer forma de comunicação sem o consentimento da empresa, em casos que possam prejudicar a imagem da organização.

Além disso, a Unimed recomenda: “não disseminar por qualquer meio, incluindo correio eletrônico e internet, eventuais mensagens que versem assuntos ilegais, pornográficos, discriminatórios de qualquer origem, de cunho religioso ou político-partidário, ou em desacordo com os princípios éticos da empresa”.

OI – Já o código de ética da OI tem um capítulo intitulado de “Relações Sociais na Web”. Nesta parte do documento, a empresa de telecomunicação orienta que se “evite publicar questões relacionadas ao dia a dia da empresa e a sua rotina de trabalho na internet”. A Oi possui canais oficiais para relacionamento nas redes sociais e demais mídias digitais. “Toda e qualquer informação da empresa só poderá ser divulgada a partir desses canais. A imagem (logomarca ou qualquer outro símbolo institucional) não deve ser utilizada na criação de sites, blogs ou perfis sociais não oficiais”, diz o texto do código de ética.

WALMART – Chama a atenção do Walmart em seu código de ética no item sobre conduta inadequada no ambiente de trabalho. “Embora publicar informações online possa ser uma ótima maneira de se conectar com os outros, quando fizer publicações relacionadas com a sua condição de associado do Walmart, sempre se comporte online de uma maneira que seja consistente com a ética do Walmart e com os nossos valores. A conduta inadequada descrita nesse documento é terminantemente proibida, mesmo que ocorra online”, diz o texto do código de ética. Para a empresa, condutas inadequadas “gestos, comportamentos e linguagem inapropriados, sejam eles obscenos, profanos, grosseiros, violentos, discriminatórios, típicos de bullying ou ofensivos”.

SEST/SENAT – O código de ética do SEST/SENAT trata o tema virtual proibindo divulgar em redes sociais informações de propriedade da empresa, bem como divulgar boatos ou manchar a imagem de gestores, colaboradores ou da própria instituição.

FIEA – O Sistema Fiea em seu código de ética informa que para o uso de mídias eletrônicas e sistemas de informações é “vedado aos empregados de quaisquer das entidades que integram o Sistema Fiea a criação ou manutenção de páginas digitais nas redes sociais, utilizando os nomes das instituições, sem a devida autorização”. O documento ainda orienta para “não fazer divulgação que exponha dados confidenciais da empresa da empresa e comentários sobre colegas do ambiente de trabalho”.

OLHO GISELE TRUZZI

 

Assédio virtual é novo, mas com velhas consequências, diz piscóloga

A psicóloga Fernanda Medeiros Chianca disse que o termo assédio virtual é novo, mas as suas consequências não. “Por se tratar de crime um crime que já ocorre em outros âmbitos, o assédio acabou migrando também para o mundo virtual onde os agressores acreditam na impunidade de seus atos”, disse Fernanda Medeiros.

Fernanda Medeiros disse que já atendeu em seu consultório pacientes vítimas de assédio virtual

Fernanda Medeiros disse que o assédio real e o online provocam os mesmos danos. “Vai depender muito de como a vítima se enxerga na situação, e qual a perspectiva ela tem de sair da situação. As vítimas costumam mudar seu comportamento, passam a ficar mais introspectivas, faltam mais e passam a evitar seus agressores e ficam visivelmente desconfortáveis na presença deles”, disse a psicóloga. “Por se tratar de uma violência, a pessoa afetada, sente-se muitas vezes culpada por algo que não tem responsabilidade. Tais sentimentos podem desencadear desmotivação, crises de ansiedade, isolamento social, doenças psicossomativas e transtornos psicológicos”, acrescentou a psicóloga.

A psicóloga disse que já atendeu vítimas de assédio virtual. “Um das vítimas apresentou um quadro de ansiedade muito intensa e de depressão. O tratamento teve como base o acolhimento de seu sofrimento psíquico, na psicoeducação que é a conscientização dos seus direitos e no crime ao qual ela foi vítima, para que ela conseguisse se libertar do sentimento de culpa e dos outros sintomas que surgiram com a violência”, disse. “É importante salientar que as vítimas não estão sozinhas para enfrentar essa violência, que ela pode buscar apoio e ajuda profissional. O importante é ela não se calar”.

ORIENTAÇÕES

Arte: Marcelo Alves


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