, Quinta-Feira - 15 de Novembro de 2018

 

Anarquista é assassinado horas depois de pedir paz, em Alagoas

Diário do poder / 1:00 - 26/12/2017

Militante pedia apuração de assassinatos de moradores de rua


Horas depois de discursar em ato pela paz e contra a morte de moradores de rua em Maceió, o militante anarquista alagoano Walfredo Pedrosa de Amorim, conhecido como Nô Pedrosa, de 77 anos, foi vítima de um duplo homicídio no bairro da Mangabeiras, na noite de sábado (23). Com ele, também foi morto a tiros outro homem identificado como José Márcio dos Santos Silva, de 39 anos.

Respeitado pela classe política alagoana e presença constante em atos de movimentos sociais e em defesa dos direitos humanos, Nô Pedrosa será sepultado às 15h desta terça-feira (26), no Parque das Flores. Ele e a outra vítima moravam nas proximidades de uma concessionária de veículos na Mangabeiras. Nô Pedrosa foi baleado no pescoço, enquanto José Márcio foi atingido nas costas e nas nádegas.

Seu último ato político foi ao lado do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM), o deputado federal Paulão (PT), onde discursou na tarde do sábado (23), na Praça Dom Pedro II. Na ocasião, Nô Pedrosa e movimentos sociais denunciaram a morte de 40 moradores de rua somente em 2017, no Estado de Alagoas. E uma audiência com o governador Renan Filho (PMDB) foi solicitada para tratar dos casos.

“Morrer assassinado, após participar de um ato pela paz, é, sem dúvida, uma peça trágica do destino! Nô, um cientista social que vivia à sua maneira, despreocupado com regras etiquetas e com as idiossincrasias alheias. Um anarquista político convicto, que tinha o respeito de quase todos os segmentos políticos”, disse o deputado Paulão.

Ainda não há informações sobre a motivação do crime. E o Comitê Regional do Partido Comunista Brasileiro em Alagoas (PCB) publicou nota em que exige apuração do crime e providências para punição dos assassinos.

Leia a nota:

NOTA DO PCB-ALAGOAS SOBRE O ASSASSINATO DO MILITANTE NÔ PEDROSA

Na noite do dia 23 de dezembro de 2017, a vida do militante Nô Pedrosa foi ceifada com a brutalidade digna da violência que impera em Alagoas. O PCB associa-se a um conjunto significativo de militantes, organizações políticas e movimentos sociais exigindo que sejam apuradas e tomadas todas as providências para punição aos assassinos deste militante que atuou ao longo de décadas na esquerda alagoana, para que não vire apenas mais um número na escalada da morte e da violência em nosso estado.

Nô Pedrosa nasceu em Santa Luzia do Norte/AL em 7 de setembro de 1939, sob o nome de Walfredo Pedrosa de Amorim. Filho de uma família que já possuía militância no Partido Comunista Brasileiro-PCB, partido fundado em 1922 e atualmente vivendo um processo de reconstrução revolucionária em todo o país, inclusive em Alagoas. A partir dos exemplos dos irmãos Valter e Waldir Pedrosa, logo cedo Nô Pedrosa ingressou na UJC (União da Juventude Comunista, criada em 1928) e nas atividades estudantis secundarista e universitária, em defesa da democratização do acesso à educação e em denúncia às mais diversas formas de exploração e opressão existentes na terra dos caetés.

Além da militância no Movimento Estudantil, Nô Pedrosa participou da militância sindical, associando-se a várias campanhas e comícios realizados pela CGT (principal Central de Trabalhadores do Brasil entre os anos 1950 e 1960). Ele atuou também na divulgação da imprensa operária e das ideias críticas, bem como da literatura comunista e marxista em nosso estado nos últimos 60 anos.

Com o golpe da fração da burguesia imperialista no Brasil (sob liderança de sua faceta militar) realizado em 1964, e com a subsequente perseguição a toda a militância da esquerda Brasileira, os militantes comunistas alagoanos foram perseguidos, presos, torturados, mortos e desaparecidos, como são os casos conhecidos de Jaime Miranda e Manoel Fiel Filho. Nô Pedrosa, sofrendo as dores dessa geração, foi preso pela ditadura, mas sobreviveu e manteve sua militância na clandestinidade ou no movimento estudantil universitário. Entre o final da ditadura militar e o início dos anos 1990 sua militância vai transitando para o anarquismo, sem abnegar vários dos princípios comunistas, tanto que manteve até o final da vida longa relação de amizade e camaradagem com militantes do PCB.

Sua vida e a atitude que cultivou ao longo de quase oito décadas revelam um espírito abnegado, profundamente avesso ao consumismo, anticapitalista e anti-imperialista até a raiz dos cabelos já grisalhos e parcos que encimavam sua cabeça cheias de pensamentos. Adepto da vida comunitária e da partilha desinteressada, sua casa era um abrigo provisório para toda uma parcela da humanidade que vivia em situação de rua. As poucos, ele se transformou em um herói anônimo que vivia à margem das estruturas sociais, e se tornou um dos últimos sujeitos em Alagoas a estabelecer a ponte e socializar os ensinamentos da geração da esquerda do pré-1964 e os novos militantes que combatem algumas das mais fortes e cruéis oligarquias brasileiras, as que residem em Alagoas.

Neste sentido, o PCB-Alagoas exige dos órgãos de Segurança Pública do Estado de Alagoas a pronta resolução deste assassinato e a imediata prisão de todos os envolvidos. Ao mesmo tempo, o PCB-Alagoas fortalecerá todo movimento pela construção de uma memória positiva para essa grande figura humana.


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